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domingo, 30 de setembro de 2012

Vida de cachorro

Conheci o Jawa em 2001, quando fui morar na Casa da Siriguela, onde ele já morava.

Quem adotou o Jawa foi o Marcão, que fazia mestrado na Esalq e tinha trabalho de campo no Xingu. O nome dele era originalmente algo do tipo Djhawat, que, segundo informações passadas de boca a ouvido, significa onça em alguma língua indígena. No final simplificamos pra Jawa, porque preencher ficha em veterinário e carteirinha de vacinação era sempre um episódio a parte.

Pois bem, o Marcão morava na Siriguela, junto com a Mari. Depois ele veio a se fixar no Xingu e o Jawa ficou com a Mari, que um belo dia resolveu ir embora da casa, passando-a pra Morena, com quem eu fui morar. A condição para ficar com a casa - disputadíssima por sua localização, aluguel convidativo e principalmente pelo quintal - era assumir o Jawa. Sem problemas!

Foram morar conosco também o Axé e o Márcio, então namorado da Morena. Eu, que antes morava na Casa do Estudante (entenda-se um quarto e meio banheiro), de repente ganhei uma casa com sala, cozinha, quintal e cachorro! Além dos companheiros, é claro! Foram tempos ótimos naquela casa!

Acabei voltando pra Casa do Estudante, o Axé também foi pra outro canto e a Morena e o Márcio continuaram com a casa - e com o Jawa.

Quando eles foram embora não puderam levá-lo, pois se mudaram pra um apartamento em Belém. Mais uma vez a condição pra escolha do próximo morador foi que continuassem cuidando do Jawa e assim foi.

Foram morar na Siriguela o PC - meu então namorado e atual marido -, o Caramelo e o Ancião. Mais um tempo se passou e eu e o PC resolvemos morar juntos e os meninos gentilmente foram buscar outros cantos, nos cedendo a casa.

Só que nesse meio tempo eu adotei o Pajé, que tinha ido morar comigo em Pedra Bela e agora me acompanhava em Pira. No começo foi difícil fazer os dois conviverem. O Jawa, por um lado, senhor supremo da casa, e o Pajé, mimado e ranzinza não deixava barato.

Por sorte eu estava numa época de pouca atividade e pude me dedicar à árdua tarefa de convencê-los que seria melhor para todos se se entendessem. Ter um pai adestrador de cães ajudou e em alguns meses eles já rolavam no chão brincando como filhotes! Depois disso, nos cerca de seis anos que viveram juntos tiveram três ou quatro episódios de estranhamento, e só. Foram grandes companheiros, cada um com sua personalidade canina adorável.

Foi o PC que decidiu quebrar a tradição de entregar a Siriguela junto com o Jawa e quando mudamos pra Itu ele foi junto. Finalmente o Jawa tinha um dono! Antes era ele o dono da casa, o anfitrião, mas acho que o sonho de todo cachorro é ter, de fato, um dono, no sentido mais carinhoso do termo.

Lá fomos nós pra uma casa quase sem quintal, mas o que o Jawa queria era ficar com a gente. Ele sempre gostou de ficar com a gente, no nosso pé.

De Itu viemos morar em Bragança, numa casa enorme, com gramado, árvores, passarinhos e cia. Mas o Jawa queria ficar com a gente, dentro de casa, sempre junto. E ficava. Foi nessa casa que ele passou os últimos meses, velhinho, surdo, meio cego, tomando muitos remédios, mas com um abanar constante do rabo. Ele sempre abanava o rabo!

O Jawa era muio simpático e não precisava muito tempo pra ele conquistar quem se achegasse. Ele foi muito querido pelos nossos amigos, fazia parte da turma. Sempre gostamos de levar os cachorros nas viagens, especialmente as de fim de ano, porque eles se apavoravam com os rojões. Assim o Jawa conheceu a Serra do Cipó, o Pouso da Cajaíba, a Mantiqueira, a Serra da Canastra, o Saco do Mamanguá.

Ao contrário do Pajé, que adora água e se divertia à beça, o que o Jawa gostava mesmo era de estar com a gente - e de encontrar, vez ou outra, uma cadelinha charmosa.

O Jawa não gostava de água nem de banho. Fora isso e os rojões, acho que tinha poucas coisas das quais ele não gostava. Ah, ele não gostava de tempestades...

Ele gostava muito de um tapetinho! Ele gostava de comer toda e qualquer migalha que caísse no chão da cozinha; ele gostava de passear; ele gostava de tomar sol; ele gostava de visitas e quando tinha mais gente em casa ele não parava quieto!

Ele era muito bonzinho, não dava trabalho pra tomar remédio e nos últimos dias, já bem fraquinho, o PC levava ele pra fazer xixi na grama e ele entendia.

Ele gostava de cenoura e de manga (aprendeu com o Pajé). Quando a ração não mais o apetecia, gostava de carne assada ou cozida e arroz.

Na minha "vida adulta" o Jawa é o primeiro cachorro com o qual eu convivo por tanto tempo e que se vai. Confesso que vê-lo envelhecer e adoecer foi triste... no final ele exigiu cuidados constantes, o que fez com que alterássemos planos e ficássemos mais em casa. Nos últimos dias ele chorava o tempo todo, aquele gemidinho que parece um sagui. Era claro que ele estava sofrendo e ver um ente querido sofrendo também é sofrido.

Chegamos a cogitar se seria o caso de sacrificá-lo, mas eu achava que não tínhamos razão pra chegar a tanto, afinal, era demandante, ele sofria, mas ele estava ali, "lúcido", como disse minha mãe... no fim não foi mesmo preciso e foi melhor assim.

Toda essa trajetória me faz repensar a vontade e a necessidade de ter a companhia canina. Claro que temos o Pajé, que apesar de já estar no décimo primeiro ano de vida, esbanja vitalidade e espero que fique conosco por muito tempo ainda.

Mas avaliando esse hábito de ter cachorro - e qualquer outro "bicho de estimação" - começo a achar um tanto sem sentido. Subjugamos os bichos às nossas vontades, prendendo-os, dando-lhes comida que lhes causa câncer, deixando-os sozinhos, enfim, eles fazem o que a gente quer e pra quê? Pra acharmos bonitinhos, pra desfrutarmos de sua companhia (quando a gente quer, é claro), talvez pra nos proteger ou nos dar uma sensação de segurança. Não sei se a relação é justa, por mais bem cuidados que os bichos sejam.

E aí eu vejo a quantidade de pet shops com bugigangas mil e o tanto que as pessoas gastam com seus pets. Isso tudo não é pelo bicho... isso é pra preencher algum vazio que o bicho não tem como preencher e com isso ainda depositamos neles uma responsabilidade que não lhes compete e que muitas vezes lhes custa o abandono e a morte em frias mesas de aço inox.

Escrevo isso sob o "calor da hora" e sei que é muito cedo pra dizer "dessa água não beberei"... mais.

Mas situações extremas proporcionam reflexão e, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, não desperdicemos essas oportunidades de ouro para nos aprimorar e fazer os neurônios trabalharem!

Além da companhia adorável, mais esse presente o Jawa me deixou. A oportunidade de repensar hábitos e atitudes "consolidadas". Uma vida nunca deve ser desperdiçada. Nenhuma gota.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O campo e a cidade: quem sustenta quem?

Eu tenho um sonho antigo, que às vezes se mostra como uma poderosa fogueira, cheia de vigorosas labaredas, e às vezes fica adormecido como brasas sob as cinzas. Esse sonho é o de viver no campo e do campo.

Viver em uma unidade rural - terreno, chácara, sítio, fazenda, comunidade, ecovila... dê o nome que quiser - e tirar de lá o meu sustento. Vejo um lugar com água limpa e abundante, terra fértil, floresta, pomar, horta, roça, vacas, galinhas, minhocas, cogumelos, pessoas queridas... quanto mais alta a fogueira, mais itens vão sendo adicionados a esse cenário, mas quando falta lenha as brasas incandescentes guardam o cerne: viver no campo e do campo.

Eu já tive breves experiências de viver no campo, no nosso sitiozinho lá em Pedra Bela. Cresci lá e "depois de grande" morei lá durante alguns meses, só eu e o Pajé, meu guardião negro de alma canina dourada luminosa. Eita tempos bons! O pseudo silêncio da noite, com sua infinidade de grilos e sapos; o ar fresco; a companhia das árvores e das montanhas. Mas eu não vivia do campo... estava ali para estudar e investir no sonho...

Tempos depois tive uma breve experiência do que seria viver do campo, foi com a Sempre Viva Orgânicos (se não conhece a história, veja aqui). Eu diria que foi uma "amostra grátis", embora tenha passado longe de ser grátis, rs... mas o importante é que deu pra ter uma ideia de como o campo é tratado pela cidade. É triste, acredite. O trabalho árduo de quem se levanta antes do sol e passa o dia com as mãos na terra é muito pouco recompensado... quem ganha dinheiro é quem está no escritório cercado de celulares, computadores e números.

Não que o objetivo seja "ganhar dinheiro", mas a remuneração de quem vive do campo está muito aquém do mínimo condizente com os confortos que a cidade proporciona (mínimo, eu disse mínimo... não estou falando de consumos supérfluos...). Talvez possamos fazer uma exceção aos grandes latifundiários, que ganham dinheiro às custas de um modelo predatório, moendo em seu engenho gente, terra, água, ar e veneno.

Outra constatação que deixa a fogueira dos meus sonhos à míngua é quando me deparo com alguém que aparentemente vive do jeito que eu gostaria, mas quando vou investigar acabo encontrando uma fonte externa de recursos, invariavelmente vinda da cidade e quase que sempre na forma de um aluguel de algum imóvel herdado da família. Isso sim é balde de água fria que faz a fogueira virar fumaça (mas lembre-se, onde há fumaça, há fogo e essas brasas taurinas são teimosas...).

E matuta que sou, fico matutando: o que está errado? O normal seria o campo sustentar a cidade, e não o contrário! Não quero polarizar, não quero fazer dois "times", mas com a falência de um, quem sobrevive?! É claro que o campo precisa de muitas coisas vindas da cidade, ainda mais esse campo, formado por exilados urbanos, mas no limite, no caos, no frigir dos ovos, se tem alguém que sucumbe, esse alguém é a cidade!

Agora me diga, com o colapso das cidades, quem está no campo sendo sustentado pela aglomeração urbana, fica como? Que tal voltar à cartilha e rever o conceito de sustentabilidade?

Estou sendo apocalíptica, admito. Estou dizendo que as uvas estão verdes, uma vez que não as posso colher (minhas uvas verdes são tanto a fazendinha dos sonhos quanto o apartamento que a sustentaria...). Estou caindo no fácil papel de avaliar, julgar e “resolver” a vida alheia...

Mas revolução não se faz com concessão. E eu só acredito na revolução, porque o barco já está tão furado que não há remendo que dê jeito. Esse pensamento me fez lembrar do meu querido professor de Educação Ambiental, que também alertava pra importância de não cair na ilusão do “paraíso particular”, essa coisa de ter uma terrinha, linda e perfeita como eu imagino, mas sem se preocupar com a vizinhança. Uma hora o caos bate na sua porteira e no momento seguinte ele fura sua cerca. Não tem como se isolar e realmente o caminho não é por aí.

No meu sonho de viver no campo e do campo, além do pedaço de terra que já descrevi brevemente, sonho com um campo forte, sonho com uma comunidade unida, íntegra e de cabeça erguida, que não se curva a gravatas e paletós, que não rasteja por moedas, aliás, que não rasteja por nada!

E se você, caro internauta, acha que não tem nada a ver com isso, reveja seus valores, desligue-se um pouco da tomada e do wi-fi e conecte-se com seu instinto de sobrevivência.

Um campo íntegro e forte pode socorrer uma cidade à beira da falência. É de vital interesse do morador urbano que o morador rural esteja cuidando adequadamente da produção de água e de alimentos; é de vital interesse do morador urbano que o morador rural esteja cuidando adequadamente da biodiversidade e do equilíbrio da teia da vida. Porque sem água, sem alimentos, com espécies e habitats inteiros desaparecendo e uma dinâmica natural completamente alterada, não tem computador que dê jeito, não tem dólar que resolva.

A meu ver, a ação mais básica, simples e indolor que o morador urbano pode fazer é consumir produtos orgânicos, tantos quanto possa (alimentos, cosméticos, produtos de limpeza, roupas...). A filosofia da produção de orgânicos fortalece o campo; o consumo de produtos orgânicos valoriza o morador rural, deixando a relação campo-cidade num patamar mais olho-no-olho - ninguém precisa abaixar a cabeça pra falar com o outro.

Quando quiser avançar um passo, pode passar a adquirir esses produtos com cada vez menos intermediários, de preferência em feiras, empórios comunitários, cooperativas. Lembre-se que o Pão de Açúcar garfa grande parte do que você paga pela bandejinha de tomates orgânicos... (mas mesmo assim é muito melhor do que comprar o convencional, não desanime!).

Outra prática saudável é conhecer o campo! Fazer turismo rural, gastar seu dinheirinho em estabelecimentos familiares, comprar artesanato, comprar o queijo da Dona Maria, a geléia da Dona Dita, a cestaria do Seu Raimundo. Contratar o guia que é filho do Seu Zé e cresceu tomando banho naquelas cachoeiras.

E nessas andanças pela roça, cuidado pra não “contaminar” a moçada com as tentações urbanas... é você que tem que ir embora de lá encantado com as cores do por-do-sol e não o filho do Seu Zé que tem que ficar fascinado com o seu iPad. Cuidado, muito cuidado... o filho do Seu Zé pode vir a ter um iPad, se for o caso, mas não precisa colocar a carroça na frente dos bois... discrição é fundamental.

Com uma postura correta, de igual pra igual, veremos que ninguém precisa sustentar ninguém, trata-se apenas de uma troca, cada um cumprindo seu papel, sem senhor, sem patrão, sem escravo e sem submissão. Isso sim é que é humanidade e torná-la possível e nossa grande revolução.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Conselheira sentimental


Afortunadamente, nunca sofri por amor. Tive, claro, aquelas paixõezinhas adolescentes não correspondidas; passei, claro, por momentos de dúvida e insegurança em meus relacionamentos; mas, sofrer, sofrer mesmo, com O Fino da Fossa girando na vitrola, nunca sofri.

Essa condição me deixa um tanto desconfortável diante de sofrimentos do tipo, pois, uma vez que nunca os vivi, fico sem saber como consolar e aconselhar. Mas por outro lado, também faz com que meus conselhos (quem consegue ficar sem dar um pitaco?!) tenham um outro peso, afinal, não é por acaso que nunca me meti em encrencas amorosas!

Só que dessa vez os “meus conselhos” não são meus, pois vou apenas transcrever e alinhavar partes de dois capítulos do livro – adivinha qual!? – Mulheres que correm com os lobos. Eu sou assim, quando encontro algo que adoro, quero que todo mundo conheça e fico até chata. E eu sei que por mais que eu fale “read the book, the only book”, muita gente não vai ler, então eu sigo para o passo 2 da estratégia, que é escrever sobre o tema. Here we go J

O livro, organizado em 15 capítulos, é quase que totalmente dedicado a assuntos específicos da natureza feminina, mas como “o parceiro” é um componente que influencia consideravelmente qualquer mulher, há um capítulo inteirinho dedicado exclusivamente a ele. O nome do capítulo é “O parceiro: a união com o outro – um hino para o Homem Selvagem” e começa assim:

Se as mulheres querem que os homens as conheçam, que eles realmente as conheçam, elas tem de lhes ensinar algo do seu conhecimento profundo. Algumas mulheres dizem que estão cansadas, que já se esforçaram demais nessa área. Sugiro humildemente que elas estiveram tentando ensinar um homem sem vontade de aprender. A maioria dos homens quer saber, quer aprender.

Não sei quanto a você, cara leitora, mas eu sempre senti que a “responsabilidade” de ensinar era minha. Os meninos estão lá, com aquele ar de criança na loja de doces esperando a mãe dar a largada. E nós somos a mãe, claro! Calma, não quero dizer que temos que ser mães deles, aliás as mulheres que exageram na dose de ensinar algo de seu conhecimento profundo, acabam virando mães e não é essa a ideia. Mas aqui entra a advertência recorrente de que não adianta “mandar pistas” para os homens. Temos que ser claras, temos que ser didáticas, temos que escrever em letras grandes e coloridas. E ainda por cima manter uma certa dose de mistério e sedução, pra não virar professora nem mãe. Complicado né? Mas quando a gente arruma um aluno aplicado é tããããão legal!!!

E aí entra você, caro leitor. Como anda sua vontade de aprender? Você já refletiu sobre essa estruturação de papeis? Você está aberto para receber o conhecimento profundo de uma mulher? Você está preparado para ajoelhar aos pés da deusa e contemplá-la?

O grande prejuízo dessas picuinhas de guerra dos sexos é fazer com que cada um queira ser mais que o outro. Mais o que? Não importa, se você quer ser forte, eu tenho que ser mais; se você quer ser independente, eu tenho que ser mais; se você quer ser sensível, eu tenho que ser mais; se você quer ser vaidosa, eu tenho que ser mais [meeedooo!]. Quando cada um entende suas virtudes e fraquezas e se coloca de acordo com elas fica tudo tão lindo...

(meninos, aproveitando a oportunidade, lá vai um “read the book” pra vocês: leiam Xico Sá! Aprendam com esse bardo pernambucano como se deve tratar uma mulher!)

Ok, vamos voltar ao capítulo! Esse alinhavo está virando um bordado!

Para conquistar o coração de uma Mulher Selvagem, seu parceiro deve entender profundamente sua dualidade natural (...). Qualquer um que seja íntimo de uma Mulher Selvagem está de fato na presença de duas mulheres (...). O esforço de compreender essa natureza dual das mulheres às vezes faz com que os homens, e até mesmo as próprias mulheres, fechem os olhos e bradem aos céus em busca de ajuda.

Que TPM que nada, o buraco é muito mais embaixo... aqui meu humilde comentário é o seguinte: enquanto a própria mulher não se entender como um ser dual, como um ser lunar (e por que não lunático? rs...), não há bom aluno que dê jeito. Precisamos nos conhecer e nos entender antes de querer que o parceiro o faça. E uma vez iniciado esse processo, aí sim vamos ensinando aos nossos aplicados alunos como é que a banda toca.

O capítulo segue por detalhamentos muito interessantes, que deixarei para que os mais interessados descubram por si. Mas há uma frase no final que merece ser citada:

O bom partido é o homem que insiste em voltar para tentar entender, é o que não se deixa dissuadir.

Reforçando o conceito de “bom aluno”, não basta ficar quieto na sala de aula e tirar um cochilo ou ficar rabiscando. Muito menos sair para o recreio e não voltar, matar aula. Quem está realmente disposto a aprender não fica com a boca escancarada cheia de dentes esperando o conhecimento chegar (essa citação é do meu querido professor Marcos Sorrentino, parodiando uma famosa canção de Rauzito e tentando nos ensinar um pouco sobre educação).

Bem, uma vez resolvido o parceiro, o próximo capítulo fala sobre a evolução dos relacionamentos amorosos e é absolutamente lindo. Seu nome é “A caçada: quando o coração é um caçador solitário – encarando a natureza de vida-morte-vida no amor”.

Se quisermos ser alimentados por toda a vida, precisaremos encarar e desenvolver um relacionamento com a natureza da vida-morte-vida. Quando temos esse tipo de relacionamento, não saímos mais por aí à caça de fantasias.

O interessante aqui é que ela chama atenção para o fato de que dentro de um mesmo relacionamento, com uma mesma pessoa, existe essa ação da natureza da vida-morte-vida. Quando não sabemos disso ficamos um pouco apavorados quando uma “morte” se aproxima e nos desgastamos para manter uma vida que na verdade deveria deixar de existir, para que outra venha e para que o relacionamento evolua. Fica mais fácil entender dessa forma:

São sete tarefas que ensinam uma alma a amar outra profundamente. São elas a descoberta da outra pessoa como uma espécie de tesouro, muito embora não se perceba a princípio exatamente o que foi encontrado. Em seguida, na maioria dos relacionamentos, vem a caça e a tentativa de ocultação, um tempo de esperanças e receios para os dois lados. Depois vem a tarefa de desenredar e compreender os aspectos da vida-morte-vida do relacionamento e a compaixão dessa tarefa. Segue-se a confiança que gera o relaxamento, a capacidade de descansar na presença do outro, acompanhada por um período de compartilhamento dos sonhos futuros bem como de tristezas passadas, sendo esse o início da cura de ferimentos arcaicos relacionados ao amor. Finalmente, o uso do coração para fazer brotar uma nova vida e a fusão do corpo e da alma (...).

O amor tem seu custo. Ele exige coragem.

(...) Repetidas vezes observo um fenômeno em amantes, independente do sexo. Algo no relacionamento começa a diminuir e cai em entropia. Com frequência, o doloroso prazer da excitação sexual se abranda, um passa a perceber o lado frágil e ferido do outro, ou ainda um deixa de ver o outro como “material digno de admiração”. Parece tão repulsivo, mas esse é o momento perfeito em que se apresenta uma verdadeira oportunidade de demonstrar coragem e conhecer o amor. Amar significa ficar com. Significa emergir de um mundo de fantasia para um mundo em que o amor duradouro é possível, cara a cara, ossos a ossos, um amor de devoção. Amar significa ficar quando cada célula manda fugir.

Não é forte saber isso? Quando a gente não se dá conta de todo esse mecanismo, parece que a ordem das células para fugir deve ser obedecida imediatamente! Podemos identificar como um aviso da intuição de que algo está errado, de que não é essa a pessoa. Mas na minha experiência pessoal passei exatamente por isso, duas vezes e, embora não tivesse esse conhecimento, consegui ouvir a intuição forte de que o que eu sentia era um amor muito grande, por mais que a razão e “cada célula” me mandasse fugir. E fiquei.

Putz, esse capítulo é grande pra caramba! Ainda bem, porque se ela conseguisse decifrar e explicar todos os meandros do amor em poucas páginas, eu simplesmente não acreditaria, rs... mas o (meu) recado está dado e se você se identificou com o que transcrevi, ou se simplesmente ficou curioso pra saber onde isso vai dar, leia o capítulo! Nem precisa ler o livro todo, pois os capítulos são bem “autosuficientes”.

De qualquer forma, fica a dica para os novos amantes: no começo tudo é lindo, mas não demora a ficar bem estranho e essa é a prova de fogo. Se você pular fora, vai entrar em outra relação linda, que também vai ficar estranha rapidinho. Se você ficar, vai passar por um processo árduo de transformação em dupla, mas que os conduzirá a um estado muito mais lindo do que aquele inicial. Acredite, vale a pena!


PS – Isso tudo funciona apenas quando você encontrou um parceiro que valha o investimento e que também esteja disposto a passar por cada tarefa que ensina uma alma a amar outra profundamente. Agora, se você é uma curva de rio, mulher de malandro ou o moço bonzinho que sofre nas mãos de malvadas megeras, observe melhor com quem você anda se relacionando (amizades, inclusive) e trate de mudar de grupo!

terça-feira, 24 de abril de 2012

Horizonte




Antes de mais nada preciso fazer algumas considerações. Uma, na verdade. Até segundo aviso (e interesses comerciais das empresas de telecomunicação) não tenho mais internet banda larga. E isso significa que teremos algumas mudanças no estilo do Aralume. Antes eu escrevia on line e ficava alternando a janela do blog com a do Google, checando letras de músicas, poesias, pesquisando sobre datas, nomes, grafias, enfim, fazendo o possível para que as postagens trouxessem informações completas e o mínimo possível de erros e equívocos nas citações.


Agora eu escrevo off line (o que acaba sendo muito bom, pois fico com um back-up instantâneo de cada texto no meu computador) e só conecto para postar o texto já concluído, ou seja, no more Google. Claro que quando eu quiser fazer um artigo mais detalhado vou pesquisar, mas isso será a exceção, não a regra. Por outro lado, “descobri” que tenho ótimos livros e revistas na estante!

Então vamos ao tema de hoje, motivado pela minha nova morada, essa mesma que me priva de uma internet banda larga e que nos faz mudar a forma de escrever e ler o Aralume.

Agora eu tenho um horizonte! Não sei a definição exata do termo (preciso comprar um dicionário!), mas deve ser algo que abranja a paisagem urbana, com seus telhados e antenas; deve ser algo que permita incluir até aquela linha reta do muro a poucos metros da janela; deve ser uma definição que faça com que todo mundo tenha um horizonte e que, portanto, questione minha exclamação do início do parágrafo.

Mas, sabe, pra mim, isso não é horizonte. Pra mim horizonte é o que enxergo nesse exato momento: uma curva sinuosa que separa a terra do céu com silhuetas irregulares de árvores que formam uma pequena floresta; logo abaixo um pasto com vaquinhas, uma estrada de terra, uma cerca, um (um!) telhado, minha rua, meu portão, meu quintal.

A poesia que mais me tocou até hoje fala sobre isso. Aposto que você já sabe qual é...
(...) eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
(O Guardador de Rebanhos, Alberto Caieiro)

Eu não diria que nossa única riqueza é ver, pois amo e usufruo prazerosamente da riqueza de cada um dos sentidos, mas compartilho totalmente com a ideia de ser do tamanho do que vejo. E da mesma forma que horizontes pequenos demais oprimem, os grandes demais podem nos deixar perdidos... gosto de ter horizontes grandes demais de vez em quando, como uma dose arrebatadora de grandeza e devoção, que renova e reabastece (lembre-se que “pequeno” e “grande” são atributos totalmente relativos... só você pode dizer se seu horizonte é grande ou pequeno!).

Percebendo meu horizonte de agora eu sinto que ele é “do meu tamanho”. Antes eu não cabia no horizonte...  ao invés de, como sugere o poema, eu me adaptar ao horizonte, ficando grande ou pequena de acordo com a paisagem, eu sentia como se estivesse com uma roupa de criança. Não, aquele horizonte de muro não era pra mim!

Da porta pra dentro, abrindo caixas de papelão cheguei nas das revistas. Sorteei uma Tpm de uma coleção considerável e veio a revista de abril de 2008, exatos quatro anos atrás, quando eu estava organizando a mudança anterior, começando a vida em Itu. Adoro essas coincidências! Mas não para por aí: a editora convidada desta edição foi a Fernanda Keller, triatleta campeã de não sei quantos Ironmans (3,8 km de natação + 180 km de ciclismo + 42 km de corrida). Mesmo pra mim, que sou minimamente habituada com atividades físicas, não dá nem pra imaginar fazer UMA dessas coisas... metade da natação eu já fiz em piscina (o que é bem diferente de águas abertas...), mas em ciclismo e corrida nem mesmo metade consigo vislumbrar, então admiro quem faça.

Podemos até pensar que ela é uma atleta profissional, que dedica sua vida a isso, que tem genética favorável, etc, etc... e então a própria Fernanda nos apresenta a Sister Madonna, uma freira de 77 anos que começou a correr com 45 e há quase 20 anos participa do Ironman TODOANO! Ela completa a prova no tempo máximo (10 horas), mas completa. E sabe a mensagem dessa freira? “Onde estão os seus sonhos, coloque o seu corpo”. De uma simplicidade extrema, de uma sabedoria óbvia, mas quantos de nós não precisam ouvir isso para realmente colocar a mão na massa e fazer o sonho acontecer?

Muitos dos meus sonhos estão num horizonte ondulado com silhuetas irregulares e aqui está meu corpo. Finalmente. Inicialmente.

terça-feira, 20 de março de 2012

"Querido diário..."

Muito do que escrevo aqui é baseado nas minhas vivências pessoais. Às vezes concretas, às vezes perceptivas, às vezes para compartilhar, às vezes para registrar... e o texto de hoje é no maior estilo "querido diário", rs... lá vai!

Ontem fui pra Piracicaba encontrar com amigos queridos. Fui "só" pra isso! Um desses amigos nem acreditou "ah, não é possível que você não veio fazer mais nada aqui!". Mas não mesmo... eu peguei o ônibus em Itu de manhã, pra chegar lá a tempo do almoço. Combinei de dormir em Pira (porque os horários de ônibus são infames) e voltei hoje cedinho. Praticamente 24 horas dedicadas a encontrar com os amigos!

Tem gente que gasta tempo e dinheiro com objetos caros, com salão de beleza, com terapeuta, com médico, com trabalho... eu gasto também de vez em quando... mas por que não gastar um pouco com pessoas?! Com pessoas tão especiais, que me enchem de alegria, que compartilham valores, que me trazem lembranças deliciosas?

Ajustar as agendas não é fácil, tanto que a ideia original era passar alguns dias juntos e complicou demais. Mas como sei que o ótimo é inimigo do bom, se a oportunidade era um dia, um almoço, lá fui eu!

A Pri e o Sem foram me buscar na rodoviária e de lá fomos pra casa da Meire, mãe da Teluíra (que hoje mora no Saco do Mamanguá). A Meire sempre foi a mãezona da tchurminha, pois todos moravam longe da família e a Telu emprestava a dela pra gente. Fomos almoçar no Nampin, um restaurante vegetariano delicioso que já existia antes da nossa chegada em Pira e era onde almoçávamos em dias especias (vida de estudante, né?). Lá encontramos por acaso com a Jaguatirana, um pequeno presente do destino como que dizendo "olha, isso é pra você lembrar quando vivia trombando "por acaso" com os amigos pela rua". Almoçamos todos juntos.

De lá fomos pra um café ma-ra-vi-lho-so, que faz parte das novidades da cidade, chamado Metrópolis. Comemos doces, tomamos café, chá, conhecemos o espaço que é super bem feito e acolhedor e ficamos conversando horas a fio, usufruindo da agenda que a vida de consultor autônomo proporciona (sim, eu, Pri e Sem temos esse privilégio!). A Meire ligou pra Telu e todos falamos com ela, uma verdadeira festa!

Na saída um acidente... o Otávio veio nos encontrar e acabou se envolvendo num atropelamento... não foi culpa dele, não foi grave, mas teve que ir pra delegacia fazer BO, depoimento, o escambau e ficou de castigo até a noite! Como a nossa presença não ia ajudar muito, eu e a Pri fomos pra Esalq, continuar o dia de encontros.

Chamei o Moli e ficamos nas mesinhas do Marron Glacê falando bobagens... aquelas bobagens deliciosas, risonhas, nostálgicas. Eu olhava em volta, era hora do intervalo entre as aulas, o lugar cheio de "bichos & doutores". Impressionante como parece que nada mudou... e quer saber? Isso me alegra... Não demorou e mais um encontro "por acaso"! O Pinus estava passando, chamamos e ele veio sentar com a gente. Exatamente como acontecia quando aquele era meu cenário cotidiano... a vida não tinha tanta pressa... mesmo com prazos apertados, reuniões, aulas, sempre havia tempo pra uma conversa fiada.

Mas os prazos e horários existem e cada um toma seu rumo. Eu e a Pri, que tínhamos compromisso apenas com o "dia de encontros", descemos até a Floresta (não, não é uma floresta como você imagina, com árvores e bichos, mas é como a gente chama o Departamento de Ciências Florestais, rs...). No caminho passamos pela frente do LERF e vi o Ricardo, querido professor, na janelinha da sala dele. Fui até lá e pela janela mesmo trocamos algumas palavras e sorrisos, coisa que não havia no tempo de estudante, quando pra falar com professor a gente batia na porta e pedia licença!

A Pri ficou no laboratório dela e fui até a sala do João, também querido professor, que foi meu orientador no mestrado (o Ricardo foi co-orientador). Ele ficou feliz em me ver, contou empolgado dos novos projetos, disse todo feliz que agora tem até estagiários de graduação (coisa rara na área quantitativa que assusta a todos com seus números e fórmulas). Fui também brindada com conversas filosóficas (isso sempre me encantou no João) e relatos de transformações pessoais e profissionais. Se a Pri não tivesse ido me resgatar, estaria lá até agora!

Fomos pra casa e mais encontros, agora com os pais dela. Os pais dos grandes e antigos amigos são um pouquinho nossos pais também... durante a tarde fomos falando com o Sem pra saber das notícias da delegacia e eles ainda lá de castigo... aí foi a vez das meninas botarem as fofocas em dia, papo de amiga. O telefone toca de novo, pronto, estavam liberados e famintos!

Corremos pra pizzaria (aquela mesma que frequentávamos nos velhos e bons tempos que não voltam nunca mais) e tagarelamos, tagarelamos, tagarelamos, com assuntos e intensidades talvez impróprios para o local, mas, fazer o quê?! Esperar outra coincidência astrológica de agendas?

Fui dormir feliz, no aconchego da casa da minha amiga, que levantou cedo pra me levar na rodoviária.

Cheguei em casa querendo contar a história e querendo, principalmente, guardar a história.

E querendo também dizer pra todo mundo que as "picuinhas" cotidianas não podem nos isolar das pessoas que amamos; que não podemos nos emaranhar na rede dos afazeres e compromissos, porque quando estamos longe dessas pessoas, definhamos; e quando as encontramos voltamos cheios de alegria e energia para fazer tudo o que for necessário e sabe como? Cantarolando, com um sorriso no rosto e com muito prazer, porque sabemos que a vida vale a pena!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

É conversando que a gente se entende


Essa terça é muito especial, pois é nosso aniversário de 3 anos de casamento!!! Pode parecer pouco, mas essa história vem de longe... em abril vamos comemorar 11 anos de namoro, dos quais 6 de vida a dois sob o mesmo teto!

Eu sou uma entusiasta da vida a dois. Torço para as pessoas ficarem juntas e sempre recomendo esse caminho, que pra mim é uma via riquíssima de aprendizado e evolução. Mas só é assim se for encarado assim... explico melhor: se ambos estão dispostos a evoluir e aprender, levando essa convivência estreita e intensa com outra pessoa como ferramenta, é uma verdadeira escola; mas se simplesmente se compra o pacote do "viveram felizes para sempre", a chance de cada um acabar indo pra um lado e "de bico" é muito grande...

Não que cada um ir pra um lado seja um problema, nem um sinal de fracasso. Mas tem casais que mal se dão ao trabalho de tentar (porque dá trabalho!) e nos primeiros sinas de arestas jogam a toalha. "Não é do jeito que eu quero, então tchau!". Assim ninguém evolui, né?! Mas triste mesmo é quando uma história que começou tão legal e bonita acaba em desavença... e acho que os finais, em geral, são tão doídos porque o casal insiste até as últimas forças em algo que há muito sabiam que não iria pra frente, justamente por acharem que o fim seria um fracasso.

Conheço raríssimos casais que conseguiram terminar numa boa e/ou ficar amigos depois. Acho isso tão legal! Eu simplesmente não consigo imaginar que essa pessoa com a qual estou casada, que admiro tanto, possa um dia vir a ser motivo de tristeza e sofrimento na minha vida... e nem o contrário... onde será o ponto em que tudo desanda?! Talvez seja tão difícil encontrar esse ponto porque o processo é muito gradual... imagine uma paleta de cores: onde que o vermelho vira azul?! É praticamente impossível definir!

Então, se você quer levar um relacionamento a sério, é preciso exercitar a atenção. É preciso desligar o piloto automático e assumir que isso vai demandar trabalho e energia. O que me intriga é que quando seguimos a natureza as coisas costumam ficar mais simples e mais fáceis, afinal, é como se estivéssemos em um barco a favor da corrente. Segundo esse pensamento, a única premissa para um relacionamento "dar certo" seria que as duas pessoas se amassem. A partir daí seria só se deixar levar, seguindo as orientações da natureza, e tudo seria lindo.

Mas na prática é bem diferente. Só o amor não basta e acho que quem acredita nisso - que se os dois se amam está tudo resolvido - tende a deixar o barco afundar.

Tenho um amigo que diz que o ser humano não é um animal monogâmico... nunca pudemos aprofundar muito nesse assunto, não sei em que ele se baseia pra fazer tal afirmação, mas desconfio que seja verdade. Sendo assim, o enigma está resolvido! Se nossa natureza não é monogâmica, quando forçamos essa situação estamos agindo contra a corrente, e por isso que dá tanto trabalho!

Fique tranquilo, não vou fazer apologia à poligamia, embora estejam surgindo coisas muito interessantes sobre o tema... chamei a atenção pra isso só para que possamos tentar entender melhor por que ficar junto às vezes é tão custoso. Um custo que tem que compensar, é claro, porque senão busque outras formas de amar, afinal "Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar".

Mas uma vez resolvido que, mesmo contrariando as forças da natureza, vamos seguir a força da "mãe cultura" e ter um relacionamento a dois, a principal ferramenta que eu uso e recomendo é a conversa. Uma boa comunicação é fundamental em qualquer aspecto da vida e discordo veementemente de quem diz que é responsável pelo que fala, mas não pelo que entendem.

Comunicar bem é fazer a pessoa entender o que você quer! Se a pessoa não entende, ou entende mal, ou entende outra coisa, o principal prejudicado é você, que não conseguiu passar sua mensagem e ainda pode ter que resolver mal entendidos que nem existiam.

Em se tratando de papo de casal, muito cuidado com aquela conversa "climão", tipo DR, que homem geralmente tem pavor e realmente não serve pra muita coisa. Pra não cair nessa, aplico um método que é bem usado em ambientes corporativos e tem muito a nos ensinar sobre a arte da comunicação e da conversa, que é o feedback.

Acho que antigamente chamavam isso de "crítica construtiva", mas como ninguém gosta de receber crítica - seja ou não construtiva - acabava não dando muito resultado. Então alguém criou uma forma de fazer essas tais críticas atingirem seu alvo. Um dos principais requisitos pro feedback dar certo é que ele não pode ser usado em momentos de tensão, desentendimento ou qualquer tipo de situação de briga e discussão. Se for usado por casais em um desses momentos, cai na DR!

Pra mim o ideal é naquele namoro do sábado à tarde, no sofá, na cama ou na rede, sem horário nem ninguém pra interromper. Já tivemos também conversas muito frutíferas, com feedbacks e resoluções, no carro, viajando por estradas boas e calmas, é claro! Não me vá começar uma conversa dessa num trânsito infernento ou numa estradinha de terra esburacada, rs...

Outra regra de ouro da cultura de feedback é que quem o recebe, deve ouvir, pensar e não falar. Não existe o direito a réplica, ou seja, você tem que resistir bravamente à tentação de se justificar. Por exemplo: seu marido/namorado, num momento de calmaria, ente um chamego e outro diz: "faz tempo que você não pinta as unhas...". Aí você descamba dizendo que não tem mais tempo pra ir na manicure, sabe quanto custa fazer as unhas toda semana?, com o tanto de louça que eu lavo o esmalte não dura nada, se você tivesse consertado a maçaneta da porta eu pintaria, mas do jeito que tá eu só lasco a unha, e por aí vai... é briga na certa e ainda vai minando a iniciativa do outro em dar um feedback... por mais que todas as suas justificativas sejam verdadeiras, custa ouvir e se esforçar pra fazer a unha de vez em quando, como um agrado? Não precisa estar de unhas feitas o tempo todo! Aposto que não foi isso o que ele quis dizer...

E da mesma forma que não existe o direito a réplica, não é recomendado que você dê um feedback logo após alguém ter dado um a você, porque senão parece que você só está falando aquilo pra mostrar que você não é o único a ter defeitos. Encontre um outro momento para dar os seus feedbacks. Ah, e de preferência um de cada vez, pra também não virar aquela metralhada. Lembre-se que deve ser um clima gostoso, que não permite cutucões nem cobranças. Deve haver o desejo genuíno e claramente manifestado de que sua única intenção é deixar a convivência cada vez melhor, criando inclusive espaços pacíficos de ajustes e desabafos.

Por fim, a parte fundamental é resolver o feedback! Não adianta nada ouvir, pensar, terminar a conversa com beijinhos e depois ficar tudo na mesma! Se não conseguiu fazer o que foi levantado, fale. Aí cabem as justificativas, não como "desculpas", mas como uma forma de pedir ajuda. Se foi você que deu o feedback e a pessoa não se mexeu, converse. Não cobrando, mas oferecendo ajuda.

É importante ser sempre muito claro, dizer com todas as letras, pontos, vírgulas e acentos. Eu sei que pra bom entendedor meia palavra basta, mas homens geralmente não são bons entendedores! Não estou criticando ninguém, mas deve ter a ver com a forma como os cérebros funcionam... e mulheres também não são boas entendedoras, pelo lado de "entender o que quer", de criar uma imagem na cabeça e ter as percepções filtradas por ela.

Na dúvida, pergunte. Na dúvida, fale. Na dúvida, estabeleça acordos. Mas também não vire um obcecado por conversas e acordos! Entre uma conversa e outra tem que ter o tempo de assimilar o que foi conversado, mudar hábitos e padrões, experimentar o que foi acordado... ajustar os tempos também não é fácil... quem é mais rápido tem que tomar cuidado pra não atropelar... e quem é mais devagar pode se esforçar também pra tentar acompanhar o outro.

Se os dois estão a fim, não é difícil caminhar junto.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Bolívia & Peru - Diário de Bordo: Ep. 7 - Cusco, muito mais do que um "pit stop"

Voltemos então um pouco na cronologia da viagem. Ao contrário de outras "cidades de apoio", como Uyuni para o Salar, Copacabana para a Isla del Sol e Puno para as ilhas do Lago Titicaca (como veremos à frente), Cusco não merece ficar apenas como coadjuvante.

A cidade é linda, tem praças com jardins bem cuidados e um casario muito pitoresco no centro histórico. Hotéis, restaurantes e lojinhas que atendem do hippie ao yuppie, inclusive em termos de orçamento, é claro.

Nossa hospedagem foi o Hostal Teatro Inka, que fica muito bem localizado, tem seu charme e quartos confortáveis a preços acessíveis (US$ 35,00/dia/quarto de casal). Tivemos um pequeno contratempo com a reserva feita pelo site Hostels Club e na primeira noite tivemos que ficar os quatro no mesmo quarto, mas no fim deu tudo certo.

Informação curiosa: até a volta da Trilha Inca nós não tínhamos dormido duas noites no mesmo lugar! Foram 14 noites, uma em cada lugar!!! Até que a décima quinta foi no mesmo quarto e depois já voltamos à vida cigana, pois o pessoal foi embora e eu fui para um hostel mais baratinho, já que seguiria sola.

Foi em Cusco que descobri uma bebida apaixonante: chicha morada! É um refresco feito com milho roxo e "temperado" com limão, cravo, canela, abacaxi. Delicioso, saudável e mais barato do que qualquer outra bebida. A melhor que tomei foi na pizzaria Marengo (que tem uma ótima pizza, por sinal!).

E por falar em turismo gastronômico, acompanhei meus amigos na empreitada de comer um bom ceviche. Pra começar, fomos alvo de chacota dos funcionários do Hostal, porque eles queriam comer ceviche à noite. Primeiro aprendizado sobre uma das comidas mais típicas peruanas: ceviche come-se no almoço!

Ok, no dia seguinte fomos ao restaurante Las Machitas, que fica fora do epicentro turístico da cidade e é frequentado principalmente por peruanos. Segundo eles o ceviche estava muito bom... eu não provei, é claro, pois não como nenhum tipo de carne.

Confesso que um vegetariano não tem muito o que fazer em uma cevicheria, fora acompanhar os amigos. TUDO é feito com peixes e frutos do mar... quando pedi um arroz branco com mandioca frita (surpresa boa!), já me preparei para as piadinhas do garçon, mas (outra surpresa boa) ele foi muito atencioso e me providenciou uma salada, que não estava no cardápio! Mais um ponto para o tratamento aos vegetarianos no circuito Bolívia/Peru!

Outro um lugar digno de nota no quesito turismo gastronômico é o Incanto, que fica pertinho da Plaza de Armas (Calle Santa Catalina, 135). É um restaurante grande, sofisticado e elegante. Os garçons tem um uniforme bonito e o que nos atendeu era extremamente educado e atencioso e "muy guapo" também :) A comida, divina! Comi um tralharim ao funghi que estava espetacular. A chicha morada não bateu a do Marengo, mas estava boa. A Thássia pediu uma limonada com gengibre e hortelã que estava dos sonhos! É claro que é um pouco mais caro, com pratos entre 30 e 40 soles, mas vale cada centimo!

Não fizemos muita coisa em Cusco, a não ser conhecer restaurantes, passear pelas lojas especializadas em material de camping e treking (que, confesso, me decepcionaram um pouco... não achei nada demais), passear pelas lojinhas de "artesanias", trocar dinheiro e brigar com os caixas eletrônicos! O cartão do Lelo ficou preso em um (aqui ainda tem daquelas terríveis máquinas que engolem o cartão), mas foi só um susto, pois depois de alguns minutos tentando ligar no banco e dando uns chutes na máquina (brincadeira!), ela vomitou o cartão. O PC teve problemas para sacar no Banco do Brasil e depois descobriu que só se pode sacar 100 soles por vez, com uma tarifa de quase 10%. Um abuso!!!

Na volta da Trilha Inca ainda tivemos mais um dia juntos em Cusco e eu e o Paulo Cesar fomos conhecer o Museo de Plantas Sagradas, Mágicas y Medicinales, que nos chamou a atenção em nossa primeira andada pela cidade, mas estava fechado por ser 01/01.

Para entrar paga-se 15 soles e o museu é muito bonito e bem montado (Calle Santa Teresa, 351). Há uma sala enorme só sobre a Coca, há salas também sobre o cactus San Pedro, o Ayahuasca e o Tabaco, além de exposições sobre muitas outras plantas. A visita pode ser um pouco cansativa, pois tem muita coisa para ler, mas se o assunto te interessa, vale a pena. Veja algumas anotações que fiz por lá:

"Segundo a cultura tradicional andina, uma perfeita saúde depende de dois conceitos, que tem a ver com o indivíduo e com a comunidade:
- estar bem: envolve um equilíbrio físico e emocional segundo sua idade e sexo;
- viver bem: viver de acordo e com estrito cumprimento dos princípios éticos da vida comunitária.
Para que uma pessoa esteja sã, a comunidade deve estar também."

Isso está dentro do contexto das plantas medicinais, sagradas e mágicas, que, conforme o conhecimento e aplicação dos curandeiros, ou xamãs, ajudam as pessoas a encontrarem seu equilíbrio interno e também com a comunidade.

Na sala sobre a Coca li um texto muito bonito, que reproduzo abaixo, mas em espanhol, porque o fato do substantivo "árvore" ser masculino nessa língua é importante para o contexto:

"Los árboles son los hombres y las mujeres somos la tierra y la frondosidad de los árboles depende de la fertilidad de la tierra. Y no se puede haber una tierra fértil sin la sombra de la frondosidad de los árboles. Todos somos importantes, todos somos necesários, hombres y mujeres (...). La coca es la única planta femenina. La portan solo los hombres, como una forma de complementariedad."

Conforme a visita ao museu ia avançando, fui tendo algumas reflexões sobre essas plantas mágicas e sagradas, principalmente as alucinógenas. Essas plantas são apresentadas dentro de um contexto lindo, da sabedoria dos xamãs, que "conversam" com as plantas, administrando-as de forma incisiva e para objetivos muito específicos.

Tenho a impressão de que quando uma ponta de iceberg desse conhecimento caiu nas mãos do "homem branco", ele se deslumbrou e ficou emaranhado na superficialidade de sensações psicofísicas convidativas... e só. Na verdade, antes fosse "e só"... não foi. Os poderes mágicos e sagrados não estão presentes sem a orientação de um xamã e restam apenas os poderes mais densos, por assim dizer. É outra coisa! O fato de tomar uma beberragem de uma "planta sagrada" não faz com que esse seja um ritual sagrado e com objetivos de cura.

Mas aí vem a pior sensação: a de que esse conhecimento ancestral desses xamãs possa estar perdido para sempre. Minha ponta de esperança é que esse conhecimento esteja muito bem guardado dentro da comunidade; é que exista algum mecanismo que proteja esse conhecimento da banalização que nós, brancos, acabamos por ocasionar. E com isso vem uma pontinha de tristeza, por não pertencer a uma comunidade rica e profunda, em sintonia com as leis e forças da natureza; um ponta um pouco maior de tristeza por me perceber pertencente a uma comunidade nociva e destrutiva.

A visita ao museu me fez lembrar, obviamente, do livro A Erva do Diabo, que li quando era adolescente e que foi uma das referências que me fez querer muito ter um mestre. E você deve saber que agora eu tenho. Embora eu ache fascinante o mundo das plantas (não é a toa que sou engenheira florestal!), fico também um pouco aliviada por essa filosofia que eu escolhi não fazer uso de nenhum tipo de substância externa ao corpo para o desenvolvimento do praticante ;)

Esse papo também lembrou do Dia do Curinga, que fala de uma substância misteriosa, poderosa e perigosa... talvez uma forma sutil de fazer os adolescentes repensarem a relação com as drogas...

Enfim, isso tudo me faz ter a certeza de que esse universo lindo e poderoso das plantas mágicas e sagradas não é pra mim... se o conhecimento ancestral está preservado, ele não chegará a mim e, se chegar, é porque não está preservado e certamente está deturpado. Entende?!

Claro que me sinto meio triste... eu queria ser uma índia, queria ter um xamã, um pajé, queria conversar com as plantas e com os animais, queria viver sob o relógio da natureza, sob as ordens expressas e indiscutíveis de Pachamama. Mas também só queria viver nesse cenário se não tivesse nenhum homem branco por perto, porque a gente é fueda pra carajo!

Bem, vou buscando meus oásis na selva de pedra... vou tentando aprender com essas sabedorias que, se não estão disponíveis por completo, deixam-nos revelar conceitos que podem ser úteis. E busco principalmente dentro de mim, porque acredito que índios e brancos somos feitos do mesmo material... e lá no fundo, no cerne, somos iguais!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Conforto ou Liberdade?


Nunca tive dúvida sobre a resposta pra essa pergunta... e acho que conscientemente todo mundo opta pela liberdade - ou não, afinal, tem gosto pra tudo!

Mas em níveis sub conscientes tenho certeza de que a maioria das pessoas - maioria na qual me incluo - acaba barganhando, vez ou outra, sua liberdade em troca de conforto. E o conforto é tão... confortável! (o que é uma armadilha sem tamanho pra uma taurina com tendências preguiçosas!)

E por saber disso vivo me policiando pra não virar aquela vaquinha gorda ruminando na sombra. A sombra tão confortável e acolhedora, que não demora a trazer a ideia de que estar na sombra não quer dizer que eu não tenha liberdade, pois quando eu quiser posso sair, não estou presa...

Sinal de alerta! O pior cativeiro é o que nos é imposto por nós mesmos. E isso acontece em níveis sub conscientes, chegando ao plano consciente totalmente mascarado (por que a gente faz isso?!?!).

Toda essa história me fez concluir que pra usufruir da liberdade é preciso investir uma certa energia.

É preciso correr alguns riscos. E quando corremos riscos, às vezes dá certo, às vezes não dá. E quando não dá, tem que dar conta do prejuízo.

É preciso dar a cara a tapa. Às vezes a gente apanha; às vezes ganha um beijo...

Não pode ter medo de errar, mas tem que ter cuidado para errar cada vez menos.

Tem que estar preparado pra chuva e pro sol. Mesmo que o preparo seja só psicológico (nem sei por que escrevi "só" psicológico, pois é muito mais fácil carregar uma capa de chuva do que manter o bom humor estando molhado e com frio!).

Tem que saber que as paisagens mais lindas geralmente - geralmente, não sempre - demandam as mais árduas caminhadas.

Tem que levar ao pé da letra o dito popular "antes só do que mal acompanhado". Tem que abrir mão das companhias confortáveis que tolhem nossa liberdade. Isso vale pra emprego também...

Ou seja: dá trabalho pra caramba!!!

E por isso às vezes optamos pelo conforto... tem momentos em que precisamos de conforto, pra repor as energias, pra ser cuidado, pra cuidar. E não digo que quem tem conforto não tem liberdade... mas que precisa de atenção, ah isso precisa, porque pode ser que quando você se der conta, já não "queira" mais desbravar os horizontes e se contente com a poltrona do papai e o jantar à mesa.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O respeito ao choro

Esse fim de semana pude passar alguns preciosos momentos com a Clara, só eu e ela (se você é leitor do Aralume já conhece a Clara, que é minha sobrinha e afilhada e logo completa um ano e meio. Ela tem até uma "tag" nos assuntos do blog, rs...).

Muito do que vou escrever aqui tem a ver com o que diz a Laura Gutman no livro "A maternidade e o encontro com a própria sombra" e também com as conversas que tenho com a Carol, mãe da Clara. Mas nada como um depoimento de fatos, né? Teorizar é importante, pois oferece o alicerce, mas enquanto não se coloca a mão na massa, a areia fica de um lado, o cimento do outro, a água lá longe e nada de parede! (para os amigos agroecológicos posso reescrever essa frase: ...mas enquanto não se coloca a mão na massa, a terra fica de um lado, o bambu do outro, a água lá longe e nada de parede! =D ).

E lá fui eu colocar a mão na massa. Primeiro um passeio no parque enquanto os pais foram pra feira. A garoa fina me fazia equilibrar um guarda chuva e deixava a terra na consistência ideal para mudar a cor dos sapatinhos pequeninos que corriam atrás dos "cocós".

Não demorou muito e fomos ver os cavalos. Ali ficamos um bom tempo... uma eternidade, eu diria. Uma eternidade do ponto de vista de um adulto, que corre pra lá e pra cá o tempo todo e parece que nunca se dá o direito de parar e simplesmente observar.

Apoiei uma perna na grade, coloquei a Clara sentada e ficamos vendo os cavalos andando em círculos. Alguns segundos depois eu pergunto pra Clara "vamos embora?", ao que ela responde prontamente e sem a menor dúvida com um aceno negativo. Ok, to passeando mesmo... mais alguns minutos, a garoa aperta. Abro o guarda chuva e refaço a pergunta; a resposta é idêntica. Pergunto se ela está com frio, não está; pergunto se está tudo bem, está. Então pra que mudar?

Deixo-me ficar e a "autopergunta" ecoa na minha cabeça: "mas por que raios você quer ir embora?!". Eu não tinha nenhum motivo pra sair dali... ficamos então até a Clara, por livre e espontânea vontade, dar tchau para os cavalos.

Uma das coisas que a Laura Gutman fala é que as crianças tem um tempo muito diferente do nosso, que elas são muuuuuuuito mais lentas e que os processos acontecem em outra escala. E quanto menor a criança, mais acentuada essa diferença de "timming", afinal, elas estão chegando, é absolutamente TUDO novo, é difícil se mexer, se comunicar. Então um aprendizado muito importante para quem lida com criança é que a velocidade delas deve ser respeitada... eu acho que dá pra manter um passo à frente, até mesmo como estímulo, mas precisamos ter muito cuidado para não atropelar as coisas.

Pois é, e se eu não soubesse disso e, por tédio ou ansiedade, tivesse tirado a Clara dali antes que ela resolvesse que já era hora, o que teria acontecido? No mínimo ela teria chorado, com certeza. Cada um usa as armas que tem e o choro é praticamente a única arma das crianças! Então a interpretação adulta seria que ela estaria "fazendo manha", que seria birra de criança mimada. Quem já não se viu numa situação dessa?!

No nosso caso específico eu realmente não tinha motivo para tirá-la dali, mas e se fosse preciso? E se eu tivesse um horário marcado com qualquer coisa e precisasse ir embora? Aqui teríamos dois cenários: em um o adulto vai embora e pronto, com a criança chorando e as pessoas olhando; em outro o adulto falta com o compromisso porque "não pode contrariar a criança".

Acho que todo mundo tem alguma memória de qualquer variação das cenas acima. Ou atropela a criança, ou a vontade da criança atropela compromissos, pessoas, orçamentos...

Mas existe o "caminho do meio", que é a conversa. É impressionante como a Clara entende tudo o que a gente fala! Vejo os pais conversando com ela o tempo todo, explicando tudo e ela, embora ainda com poucas palavras, dá sinais muito claros do que quer.

Na maioria das vezes basta explicar, respeitar o tempo (nem que seja só o tempo de ela entender o que você está falando) e tudo se resolve com sorrisos. Em outras vezes, realmente não tem tempo pra ficar explicando, principalmente em situações de perigo, mas mesmo nessas dá pra ir mostrando pra criança que você teve que tomar aquela atitude pro bem dela. Se não deu pra conversar antes, é fundamental conversar depois...

Exige paciência, exige lucidez. E exige o que muita gente definitivamente não está preparada para enfrentar: as "autoperguntas"! Porque ao explicar pra criança você tem que estar convencido daquilo, senão não funciona! E aí talvez você se depare com questões que não estão bem esclarecidas nem dentro de você...

Mas vale a pena! Olha o que alguns minutos observando cavalos com uma criança no colo renderam, rs...

Depois, no mesmo dia, precisei ficar um tempo mais longo com a Clara. Brincamos, comemos, fizemos várias coisas, mas o mais legal foi o banho! Primeiro porque foi ela que pediu pra tomar banho. Sem usar uma palavra, foi até o banheiro apontou a banheira e o recado estava dado. Pensei "será que é hora de tomar banho?", "será que eu posso dar banho nela?", "será que eu ligo pra mãe?!".

Resolvi usufruir da minha autonomia de madrinha e lá fomos nós pro banho! A Marina, nossa outra sobrinha de 5 anos, foi uma belezinha e ficou lá me ajudando. Mais uma vez atenção ao "timming". Sei que a Clara adora água e adora banho, então não tinha mesmo a menor necessidade de apressar o processo.

Aí pensei que muita gente vê o banho da criança com uma visão utilitária, ou seja, a visão adulta: banho é para ficar limpo. Entra, ensaboa, repassa e sai. Mesmo porque não pode ficar gastando água! Mas o banho da criança tem uma função muito mais lúdica do que utilitária. E sendo de banheira ou balde a água é a mesma, independente do tempo que o serzinho fique lá "de molho".

Eu acho, aqui na minha humildade, que criança que dá trabalho pra tomar banho (chora pra entrar e chora pra sair) é porque não tem a oportunidade de desfrutar do prazer do banho.

Sei que não deve ser fácil pra muitas mães e muitos pais, que vivem na maior correria, respeitar esse ritmo infantil. Mas, mais uma vez "achando" aqui na minha humildade, na maioria dos casos as mães e os pais teriam sim esse tempo a mais para dedicar aos filhos, mas não se dão conta. Parece até que nem pensam no que estão fazendo e que não conseguem fazer um escalonamento de prioridades que inclua e privilegie o bem estar da criança. E nesse caso ainda contam com o apoio da sociedade, que não quer "crianças mimadas"...

E o resultado é uma legião de crianças desrespeitadas, podadas, com as bocas caladas por chupetas, mamadeiras, doces e brinquedos caros, que nunca são suficientes.

Bom, sei que estou em uma posição privilegiada pra falar desse assunto, já que não tenho filhos. Depois da "amostra grátis" de ter uma criança sob minha responsabilidade, passei o "pacote" adiante e fui cuidar da minha vida, rs...

Não estou aqui pra julgar ninguém. "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". Só peço atenção. Só peço que as escolhas sejam conscientes. Só peço que você avalie as consequências de cada escolha e seja responsável por elas. Mesmo que você erre. Mesmo que você veja que saiu tudo diferente. Sempre é oportunidade para aprender.


É comum quando escrevo vir alguma música à mente (mais comum ainda é vir vááááárias, hehe!). Na semana passada compartilhei com você e agora faço o mesmo. Chororô, do Gil. Gil lindo, luminoso e iluminado!


Tenho pena de quem chora
De quem chora tenho dó
Quando o choro de quem chora
Não é choro, é chororô
Quando uma pessoa chora seu choro baixinho
De lágrima a correr pelo cantinho do olhar
Não se pode duvidar
Da razão daquela dor
Não se pode atrapalhar
Sentindo seja o que for
Mas quando a pessoa chora o choro em desatino
Batendo pino como quem vai se arrebentar
Aí, penso que é melhor
Ajudar aquela dor
A encontrar o seu lugar
No meio do chororô
Chororô, chororô, chororô
É muita água, é magoa, é jeito bobo de chorar
Chororô, chororô, chororô
É mágoa, é muita água, a gente pode se afogar

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O começo está próximo

Chega a revista Trip e vejo essa frase na capa: O Começo Está Próximo. Cai como uma luva para traduzir o que ando sentindo. Fim de ano, aquela sensação estranha de querer tirar uma roupa velha e vestir a nova... a vontade de um novo começo.

Você pode pensar: então tira, então veste, então começa! Se você pensa assim, é dos meus. Não gosto dessa convenção de um "portal mágico" na virada de 31/dezembro para 01/janeiro, iludindo as pessoas com a ideia difusa de que basta mudar o calendário, trocar de agenda e pronto, tudo novo! Não é bem assim...

Mas acontece que esse ano eu estabeleci algumas resoluções que dependem do calendário, afinal, reconheçamos seu mérito em organizar a sociedade! Só que o resultado é que entrei na onda coletiva do "fim de ano"... vontade de férias, contagem regressiva, tudo meio bagunçado sob a desculpa de "em janeiro se ajeita". E percebi que, felizmente, não estou acostumada a isso - e nem quero estar.

O DeRose diz que a liberdade é nosso bem mais precioso... eu digo que é o tempo. O que acaba dando na mesma, porque ter tempo é ter liberdade para fazer o que quiser com seu tempo... Enfim, se o tempo é meu bem mais precioso, querer que ele passe depressa é uma heresia, um sacrilégio, um desperdício imperdoável!

Ao pensar nisso a Carolina um pouquinho mais evoluída que habita meu ser dá um puxão de orelha na Carolina mais ansiosa (que quer que o ano acabe logo) e preguiçosa (aquela que "deixa tudo pra janeiro"). Passa um sermão e manda olhar em volta. Manda desfrutar cada minuto, aprender em cada detalhe. Faz com que as coisas não desandem tanto, porque uma bagunça pequena a gente arruma sem esforço em minutos, mas uma bagunça grande extrapola a soma dos poucos minutos que teríamos levado para arrumá-la cotidianamente (e isso serve para roupas jogadas no quarto, conta bancária e relacionamentos humanos!).

Estamos tentando aqui, todas as Carolinas que me habitam, a chegar num consenso. Vamos vivendo dia a dia. Pés e mãos no presente. Olhos no futuro; e de vez em quando no chão, pra não tropeçar ;) O coração, ah, este dá trabalho, fica meio atrasado no passado, aí salta pra sonhos distantes. A mente vai clareando e pelo menos já se dá conta disso tudo...

Ok, tudo isso é bonito e estou mesmo tentando aplicar na minha vida, mas... mas... não consigo parar de pensar que daqui a 18 dias estarei de mochila nas costas, rs...

E por falar em "o ano está quase acabando", deixo-os com a letra da música Por Pouco, da banda pernambucana Mundo Livre SA.

Estamos quase sempre otimistas 
Tudo vai dar quase certo
Pois o ano esta quase acabando
Depois de termos quase certeza
Que dento em breve teremos um quase
Alegre carnaval
Por pouco não trouxemos o penta (a música é antiguinha, rs...)
Quase acertamos na loto
Quase compramos a casa
Quase ganhamos o carro
A moça da banheira ficou quase nua
A gostosa da praia quase dá, não dá
Quase dá, não dá mole, não
Pro pouco não ganhamos o Oscar
Quase ficamos no emprego
Quase pagamos a dívida
Quase evitamos a falência
A moça da banheira ficou quase nua
A gostosa da praia quase dá, não dá
Quase dá, não dá mole, não
Contribuintes não contam
Torturadores não sentem
Esculturas de lama não morrem
Jornalistas mortos não mentem
Votamos no quase honesto, pois quase confiamos nele
Acabamos de entrar pelo cano
Por pouco não reagimos, quase nos revoltamos
Mas quase confiamos na justiça e na sorte

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Virando onça


Eu não queria escrever sobre isso. Definitivamente não queria.

Mas a situação obriga. Na "famosa rede social" vejo ambientalistas em campanha para defender o Código Florestal, para parar Belo Monte, para salvar o Tietê, mas ninguém fala do massacre dos índios Guarani Kaiowá que está acontecendo no Mato Grosso do Sul. Será apenas uma questão de foco? Afinal, são tantas as causas para defender...

Fico pensando se sou eu que estou fazendo tempestade em copo d´água, se eu deveria tratar o caso como "coisa normal", afinal, são tantas as mazelas do mundo...

Só que por outro lado, não vejo tantas bandeiras sendo levantadas. Ok, os assuntos que mencionei, sobre questões ambientais, estão sendo "martelados", mas por meia dúzia de pessoas. Ah, sim, deixe esclarecer: meu universo de amostragem é de menos de 400 pessoas, que fazem parte do meu círculo de amigos no Facebook. Será que posso extrapolar esse pequeno universo para inferir sobre o pensamento médio da sociedade?

Não sei, até desconfio que sim... ou pelo menos inferir sobre "o pensamento médio da classe média da sociedade"...

E ah, como me irrita ver as pessoas compartilhando piadinhas banais (ok, humor é essencial pra vida, mas tudo tem limite!) e assuntos futebolísticos (isso me irrita MESMO e eu "passo a foice" sem dó). Tudo bem, o Facebook é uma ferramenta bastante lúdica, tem que divertir mesmo, mas a sensação que eu tenho é que fica só nisso... detesto essa expressão mas tenho a impressão de ser "coisa de brasileiro"...

Alguém aí, por favor, me diga que eu estou errada!

Sobre a questão dos índios não vou atrever a escrever, porque realmente não conheço os detalhes. Só sei que é real e muito grave. Saiba mais em:

Saber já é um bom começo. Depois, faça com que outras pessoas saibam. E para contribuir de forma concreta, sem sair da cadeira, assine a Carta ao Ministro da Justiça elaborada pelo Instituto Socioamebiental:

Se quiser e puder sair da cadeira, acontecerá hoje, em São Paulo, na PUC às 19h um Ato Contra o Genocídio do Povo Guarani-Kaiowá.



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Posso te ligar?

Ando meio nostálgica. Eu sou meio nostálgica. Esse sentimento que é mais do que saudade vai tão longe que de vez em quando tenho a impressão de ter saudade de coisas que nem vivi.

Nunca fui uma pessoa muito popular, outro dia até comentei com o Paulo Cesar que a infância na roça possa ter deixado essa sequela de "bicho do mato"... mas ultimamente venho sentindo falta daquelas conversas no meio da rua, das visitas inesperadas, de não ter que ficar marcando e marcando e marcando pra encontrar uma pessoa!

Diz-se que não é de bom tom aparecer na casa de alguém sem avisar. Realmente, dependendo da hora e da visita pode ser um inconveniente, mas, pensando bem, um inconveniente momentâneo, uma pequena readequação da agenda, porque a companhia daquela pessoa e a "conversa fiada" valem muito mais! (claro que existem as "visitas mala", mas geralmente são exceções, né? Se não ou você não anda sabendo escolher amigos ou já não consegue mais encarar com leveza uma mudança de planos...).

Mas a gente não quer ser a visita mala e liga antes de passar na casa da pessoa. Aí a pessoa não pode, está de saída ou qualquer coisa e pergunta se não pode ser em dia e horário tal, ao que você invariavelmente vai responder dizendo que tem um compromisso XYZ e quando se derem conta estão agendando uma visita casual com três meses de antecedência!

E agora tenho a impressão de que surge uma nova modalidade de etiqueta urbana: a gente chama a pessoa em um bate papo on line e pergunta se pode ligar... não acho que esteja em um nível "grave", mas farejo algo, uma suspeita de que estamos incluindo mais um protocolo no convívio, que vai ficando cada vez mais virtual.

Queria discorrer mais sobre isso, mas agora está na hora da minha corrida de treino pra Trilha Inca \o/

Deixo as lacunas para serem preenchidas!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Mangueiras, goiabas, chuchus e laranjas


Quando um homem tem uma mangueira no quintal

Ele não é goiaba
Deixa ele lhe mostrar
Bom dia, boa tarde!
No seu pomar

"O que há de mal"
Poder brincar de amar
Sem pensar no amanhã
Sem nenhuma vergonha
Numa cara de pau
Aproveitar um samba
Numa tarde vazia
Ter um siricotico
Ter uma aventura

"O que há de mal"
Poder sair do sério
Sair de um velho tédio
Chuchu não é laranja
É só não misturar

Beijo na sua boca
Atrás da bananeira
E nessa boa moita
Assanhada demais

Quando um homem tem uma mangueira no quintal
Corre pra ver,
Se é de olhar, se derreter
Se de repente pode ser
Se este instante lhe chamar
Viva, tenha
Corre pra ver
Se é gostoso, porque não
Se é bem bom pro coração
A gente vai pra ser feliz

Essa é uma música bem gostosa da Vanessa da Mata, procure no You Tube e ouça já, enquanto lê, o que acha?

Fico pensando o que ela quis dizer com "uma mangueira no quintal", mas tenho cá pra mim que sei bem o que é, porque nunca me deparei com um goiaba!

Mais intrigante é o aviso de que "chuchu não é laranja, é só não misturar"... bem, que chuchu não é laranja a gente sabe... quer dizer então que tem gente que mistura? Algumas misturas são muito boas, por menos óbvias que pareçam, mas essa, definitivamente, não consigo ver como possa dar certo.

Então é isso, se ele tem uma mangueira no quintal, vai fundo! E só toma cuidado pra não misturar chuchu com laranja. De resto, sem nenhuma vergonha, numa cara de pau, um siricotico, uma aventura, sair do velho tédio, atrás da bananeira. Se é gostoso, por que não? Se é bem bom pro coração, a gente vai pra ser feliz!