sua pele morena se alegra ao sol
fica radiante, macia como a paina, apetitosa como fruta madura
seus pés se alegram na terra
no tapete de folhas da floresta, na areia do fundo do rio, nas pedras do alto da montanha
seu corpo se alegra quando corre, quando pula e quando deita
os cabelos soltos, livres como ela
os olhos no alto, nas copas das árvores, nas nuvens, nas estrelas
o coração bate forte e as palavras escapam da boca
quando está com ele
e quando não está também, porque é nele que pensa
ele, dizem, é encantado
mas mal sabem, que seu encanto é por ela
segunda-feira, 1 de junho de 2020
domingo, 24 de maio de 2020
a feiticeira e a canja
era uma vez...
... uma mulher de corpo forte e sereno. Exibe a tranquilidade de quem já viveu o suficiente para saber que "vai passar" e a vitalidade de quem ainda se permite tentar mais uma vez. Uma mulher esguia, de cabelos escuros, lisos e longos, mas presos. O rosto tem suas marcas e os olhos são de quem não deixa escapar nada; sua boca expressiva esboça sorrisos que facilmente se transformam em risadas; e dali saem palavras contundentes. É bom saber disso... você pode até não gostar muito do que ouvir, mas lá no fundo saberá que trata-se da mais pura verdade.
Ela vive em uma casa ampla, com janelas generosas e três portas - ela gosta de ter opções, e caminhos, e horizontes.
Com ela, seus homens; e um bicho, fêmea como ela, guardiã e amiga.
Essa mulher gosta de sopas e hoje resolveu fazer uma canja. Foi até a horta, mesmo sendo noite. Aproveitou para olhar o céu estrelado e se sentir menos só, na companhia das estrelas. Colheu seus temperos e foi para o fogão, que já estava com labaredas empurrando a fumaça chaminé acima - tarefa de homem trazer a lenha e acender o fogo. Picou os legumes, cultivados pelas vizinhas, fortes e serenas como ela. Tê-los ali era uma forma de estarem juntas, pois, embora vizinhas, viviam distantes no espaço, separadas pelas montanhas, riachos, florestas; mas unidas no coração pelas luas, pelas proles, pelas histórias compartilhadas ao pé do fogo e das cachoeiras.
Mas sim, a canja. Um pouco disso, uma pitada daquilo, e ali se faz magia. Uma taça de vinho acompanha. O fogo, a água, a alquimia que vai pra mesa, e pros corpos. Que nutre de minerais e também de ânimo - ânima - alma.
Suas sopas sempre são panelões... talvez na esperança de uma visita que chega pro jantar, entrete as crianças e depois lava a louça enquanto pai e mãe colocam os filhos na cama, para depois os adultos poderem se estender em conversas regadas a vinho ao pé da lareira. Esse, aliás, é um sonho que ela cultiva, e que parece ter flores mais demoradas e delicadas que a camomila que ela plantou há meses e continua apenas verde. O sonho de ter companhias que ajudem a tornar a vida menos árida... companhias que ajudem a tornar os infinitos afazeres domésticos menos duros, companhias que ajudem a dissolver os embates com as crianças, companhias que, por mais paradoxal que pareça, possibilitem momentos de solitude e silêncio.
Porque parece que existe algum número mágico de pessoas necessárias para fazer uma casa funcionar sem exaurir ninguém; parece que existe algum número mágico de proporção entre adultos e crianças (e idosos, e adolescentes) para que todos possam aprender saudavelmente com todos. Ela sabe que esse número mágico é maior que dois adultos; que essa proporção mágica é diferente de dois adultos e duas crianças. E que até mesmo o cachorro talvez careça de companhia.
E ela sabe também que para esse sonho, diferente da camomila que já está plantada, ela não tem ainda nem sementes.
... uma mulher de corpo forte e sereno. Exibe a tranquilidade de quem já viveu o suficiente para saber que "vai passar" e a vitalidade de quem ainda se permite tentar mais uma vez. Uma mulher esguia, de cabelos escuros, lisos e longos, mas presos. O rosto tem suas marcas e os olhos são de quem não deixa escapar nada; sua boca expressiva esboça sorrisos que facilmente se transformam em risadas; e dali saem palavras contundentes. É bom saber disso... você pode até não gostar muito do que ouvir, mas lá no fundo saberá que trata-se da mais pura verdade.
Ela vive em uma casa ampla, com janelas generosas e três portas - ela gosta de ter opções, e caminhos, e horizontes.
Com ela, seus homens; e um bicho, fêmea como ela, guardiã e amiga.
Essa mulher gosta de sopas e hoje resolveu fazer uma canja. Foi até a horta, mesmo sendo noite. Aproveitou para olhar o céu estrelado e se sentir menos só, na companhia das estrelas. Colheu seus temperos e foi para o fogão, que já estava com labaredas empurrando a fumaça chaminé acima - tarefa de homem trazer a lenha e acender o fogo. Picou os legumes, cultivados pelas vizinhas, fortes e serenas como ela. Tê-los ali era uma forma de estarem juntas, pois, embora vizinhas, viviam distantes no espaço, separadas pelas montanhas, riachos, florestas; mas unidas no coração pelas luas, pelas proles, pelas histórias compartilhadas ao pé do fogo e das cachoeiras.
Mas sim, a canja. Um pouco disso, uma pitada daquilo, e ali se faz magia. Uma taça de vinho acompanha. O fogo, a água, a alquimia que vai pra mesa, e pros corpos. Que nutre de minerais e também de ânimo - ânima - alma.
Suas sopas sempre são panelões... talvez na esperança de uma visita que chega pro jantar, entrete as crianças e depois lava a louça enquanto pai e mãe colocam os filhos na cama, para depois os adultos poderem se estender em conversas regadas a vinho ao pé da lareira. Esse, aliás, é um sonho que ela cultiva, e que parece ter flores mais demoradas e delicadas que a camomila que ela plantou há meses e continua apenas verde. O sonho de ter companhias que ajudem a tornar a vida menos árida... companhias que ajudem a tornar os infinitos afazeres domésticos menos duros, companhias que ajudem a dissolver os embates com as crianças, companhias que, por mais paradoxal que pareça, possibilitem momentos de solitude e silêncio.
Porque parece que existe algum número mágico de pessoas necessárias para fazer uma casa funcionar sem exaurir ninguém; parece que existe algum número mágico de proporção entre adultos e crianças (e idosos, e adolescentes) para que todos possam aprender saudavelmente com todos. Ela sabe que esse número mágico é maior que dois adultos; que essa proporção mágica é diferente de dois adultos e duas crianças. E que até mesmo o cachorro talvez careça de companhia.
E ela sabe também que para esse sonho, diferente da camomila que já está plantada, ela não tem ainda nem sementes.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
a casa, as crianças, as mãos e a escrita
hoje faz um mês que estamos reclusos (não sei se essa é a melhor palavra... mas... quero não me preocupar com o que é "melhor", e sim com o que é possível)
um mês sem escola - com duas crianças em casa, 7 e 3 anos
um mês sem empregada - com duas crianças em casa
um mês sem babá (aquela que me proporcionava, uma vez por semana, uma tarde a sós comigo mesma e uma noite a sós com o marido) - com duas crianças em casa
um mês com o marido em home office - com duas crianças em casa
um mês dando aula por videoconferência pela primeira vez na vida - com duas crianças em casa
um mês sem ir à academia, sem ir à terapia (fazendo sessões via trocas de áudios, pelo menos), sem tomar café da manhã na padaria, sem conversar descontraidamente com as amigas, sem poder contar com uma ou outra vó pra deixar as crianças
enfim... um mês com a casa e as crianças! E com o marido, é claro... longas e duras conversas com o marido... a divisão do trabalho, as questões de gênero, a minha necessidade por respiro e espaço, os meus limites em relação ao trabalho dele, os meus anseios em relação ao que possa ser um trabalho meu. Sabe, nenhuma novidade... as pautas são as mesmas, sempre estiveram presentes... mas esse tempero de "não poder" sair de casa traz um colorido todo especial! E deixa os limites gritantes. Literalmente.
e a louça na pia, e a comida por fazer, e a roupa no cesto, na máquina, no varal
eita que o sol já se foi e as crianças precisam ir pro banho!
o que vamos jantar?
hoje consegui varrer a cozinha
os banheiros precisam ser lavados... sábado acho que consigo
e ali no canto, juntando teias de aranha, meus fios e agulhas... a maratona da casa e das crianças não me deixa chegar nesse canto. O que não tem chegado, na verdade, acho que é a inspiração pra fazer algo... até pego as agulhas vez ou outra, começo uma coisa, não vai em frente... uma criança chama, ou brigam, ou pula em cima de mim, ou me pede pra fazer algo extremamente mirabolante (tipo, um poncho!)... começar e parar é complicado pra mim... quero mergulhar... e não consigo... então não faço
o caderno, diário, até que consigo manter com alguma escrita. Pequenos fragmentos do dia, a cada dois ou três dias pelo menos. Publico vez ou outra alguma frase inspirada nas redes sociais... mas ainda não saciam minha vontade de escrever...
e as mãos não param!
a pele vai ficando seca, as unhas quebradas, haja trabalho manual! Lava, pica, mexe, esfrega, varre, estende, dobra. Trabalho manual, braçal, corporal
e hoje elas encontraram a enxada. Eu estava precisando desse trabalho pesado, a força da lâmina cravando na terra, logo abaixo da touceira de capim [não quero mais o capim ali... quero milho, quero verduras, quero flores]. O braço empurra na direção contrária, fazendo uma alavanca, sai aquele monte de raízes. A mão vai lá, pega a touceira, joga pra fora do canteiro. E vamos pra próxima. A terra está feliz, cada enxadada, uma minhoca! Vou devagar, cubro as minhocas que se retorcem ao sol. O suor escorre no rosto, seco com a camiseta que a criança deixou jogada no caminho. Queria continuar, mas é hora do almoço... não hora de relógio, porque não to nem aí pra relógio, mas a hora da fome mesmo... então é isso, aprender a parar, a mudar... e a retomar. À tarde teve mais enxada, e teve mais hora de parar, sem querer parar
e agora também... preciso parar
um mês sem escola - com duas crianças em casa, 7 e 3 anos
um mês sem empregada - com duas crianças em casa
um mês sem babá (aquela que me proporcionava, uma vez por semana, uma tarde a sós comigo mesma e uma noite a sós com o marido) - com duas crianças em casa
um mês com o marido em home office - com duas crianças em casa
um mês dando aula por videoconferência pela primeira vez na vida - com duas crianças em casa
um mês sem ir à academia, sem ir à terapia (fazendo sessões via trocas de áudios, pelo menos), sem tomar café da manhã na padaria, sem conversar descontraidamente com as amigas, sem poder contar com uma ou outra vó pra deixar as crianças
enfim... um mês com a casa e as crianças! E com o marido, é claro... longas e duras conversas com o marido... a divisão do trabalho, as questões de gênero, a minha necessidade por respiro e espaço, os meus limites em relação ao trabalho dele, os meus anseios em relação ao que possa ser um trabalho meu. Sabe, nenhuma novidade... as pautas são as mesmas, sempre estiveram presentes... mas esse tempero de "não poder" sair de casa traz um colorido todo especial! E deixa os limites gritantes. Literalmente.
e a louça na pia, e a comida por fazer, e a roupa no cesto, na máquina, no varal
eita que o sol já se foi e as crianças precisam ir pro banho!
o que vamos jantar?
hoje consegui varrer a cozinha
os banheiros precisam ser lavados... sábado acho que consigo
e ali no canto, juntando teias de aranha, meus fios e agulhas... a maratona da casa e das crianças não me deixa chegar nesse canto. O que não tem chegado, na verdade, acho que é a inspiração pra fazer algo... até pego as agulhas vez ou outra, começo uma coisa, não vai em frente... uma criança chama, ou brigam, ou pula em cima de mim, ou me pede pra fazer algo extremamente mirabolante (tipo, um poncho!)... começar e parar é complicado pra mim... quero mergulhar... e não consigo... então não faço
o caderno, diário, até que consigo manter com alguma escrita. Pequenos fragmentos do dia, a cada dois ou três dias pelo menos. Publico vez ou outra alguma frase inspirada nas redes sociais... mas ainda não saciam minha vontade de escrever...
e as mãos não param!
a pele vai ficando seca, as unhas quebradas, haja trabalho manual! Lava, pica, mexe, esfrega, varre, estende, dobra. Trabalho manual, braçal, corporal
e hoje elas encontraram a enxada. Eu estava precisando desse trabalho pesado, a força da lâmina cravando na terra, logo abaixo da touceira de capim [não quero mais o capim ali... quero milho, quero verduras, quero flores]. O braço empurra na direção contrária, fazendo uma alavanca, sai aquele monte de raízes. A mão vai lá, pega a touceira, joga pra fora do canteiro. E vamos pra próxima. A terra está feliz, cada enxadada, uma minhoca! Vou devagar, cubro as minhocas que se retorcem ao sol. O suor escorre no rosto, seco com a camiseta que a criança deixou jogada no caminho. Queria continuar, mas é hora do almoço... não hora de relógio, porque não to nem aí pra relógio, mas a hora da fome mesmo... então é isso, aprender a parar, a mudar... e a retomar. À tarde teve mais enxada, e teve mais hora de parar, sem querer parar
e agora também... preciso parar
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
Como algo é tornado lixo?
Lixo é um tema que me afeta desde que me entendo por gente. Eu tinha 11 anos quando aconteceu a Eco 92, a famosa conferência sobre meio ambiente, sediada no Rio de Janeiro. Na época, minha mãe estava engajada em um grupo ambiental da cidade e o tema pulsava pela casa. O bom uso dos recursos, água, energia, materiais... e a destinação dos resíduos... o lixo.
Minha adolescência foi permeada pelos temas da Agenda 21 e a afinidade com a natureza me levou a estudar Engenharia Florestal, onde busquei me aproximar da educação ambiental, estagiando com o professor que foi responsável por grandes aberturas no meu modo de ver o mundo. Não sei explicar exatamente o porquê, mas não segui com ele... acho que seus questionamentos eram tão fortes e tão profundos que eu simplesmente não tinha estrutura emocional para lidar... e fui me aproximar das árvores, esses seres tão encantadores, lindos, imponentes. Fui buscar entender as árvores. Depois veria que foi um caminho bem equivocado, porque na verdade eu nunca quis "endendê-las", apenas contemplá-las... mas ok, isso é outro assunto.
Pois bem, o lixo. Como algo é tornado lixo?
Observando minha casa e os lixos que produzo nela, vejo que são coisas que não servem mais. Já serviram bastante, foram bem importantes, e de repente, não servem mais.
O maior volume é de embalagens. O saquinho de leite, as garrafas de suco, cerveja e vinho, o plástico que envolveu o queijo, a lata de molho, o plástico do macarrão, o papel da farinha, o frasco de shampoo. Foram muito úteis, me possibilitaram trazer todos esses produtos pra casa. Algumas eu reutilizo, adoro vidros! Mas a maioria acaba não servindo mais.
Tem os desenhos das crianças... alguns eu guardo, anoto o nome, a data, ficam pra posteridade, talvez adiando seu destino de lixo... mas muitos vão para o lixo agora mesmo... um material que serviu, que foi usado, bem usado... mas já cumpriu sua função, não serve mais.
Tem coisas quebradas, ou desgastadas. Serviram durante um bom tempo, mas chegaram ao fim. Qual o limite pra considerar algo tão desgastado que não sirva mais? Que não sirva pra mim nem pra ninguém... porque tem coisas desgastadas que envio para pessoas que talvez possam aproveitar... o que é pra mim um incômodo sim... aquilo não está bom o suficiente pra mim, mas pode servir a outra pessoa... não necessariamente porque tenhamos gostos diferentes, mas certamente porque temos condições de vida diferentes, que afetam nossos níveis de aceitação.
Tem as etiquetas das roupas... algo que não serve mais, mas não que eu tenha usufruído delas. São uma necessidade de quem fabrica, de quem vende. Por mim, não precisaria de etiqueta nenhuma... ok, eu gosto de saber a composição do tecido... mas já existe solução pra isso, imprimir as informações da etiqueta na roupa. Sei lá se é a melhor solução, ou se funciona pra tudo...
E tem o lixo do banheiro... ah como eu queria que fizéssemos como nos "países desenvolvidos"... vai tudo pra privada... e trata-se com o esgoto. O papel se desfaz, não é difícil. Sabe qual o entrave aqui? O formato dos vasos sanitários, que tem uma saída estreita e entope se jogar papel. Quando construímos nossa casa pensei nisso, dimensionamos encanamento e fossa pra receber os papeis... só que não passou pelo vaso! Podemos então usar ducha e toalhinha, como "antigamente"... pode ser uma solução...
E teria o "lixo orgânico", mas aqui em casa os restos orgânicos não viram lixo! Os restos dos alimentos voltam pra terra e lá, não são lixo. Restos de matéria orgânica na terra são apenas restos de matéria orgânica... faz parte da natureza, faz parte do ciclo. Decompõem e voltam a ser terra. Ufa!
Enfim, não consigo pensar em lixo sem pensar nas suas consequências e em formas de diminuir esse volume que, sei, não some quando colocado na rua.
Estamira diz que no lixo vem muito descuido... sem dúvida! Com esse grau de descompromisso que temos com o lixo na vida urbana, o descuido acaba sendo uma consequência (quase que) inevitável. O máximo de educação e compromisso que nos ensinam com relação ao lixo é levá-lo até um local "adequado". Não jogue lixo no chão. Jogue num saquinho (ou sacão), e pronto! Aqui encerra-se sua responsabilidade com o resíduo que você acabou de produzir. Parabéns!
Desde a Eco 92 temos tentado ir um pouco além, trazendo também a educação e o compromisso em separar o lixo. Reciclável, não-reciclável, orgânico. Porque lixo separado pode deixar de ser lixo (!). Resíduos orgânicos na terra não são lixo, são adubos; resíduos recicláveis bem destinados não são lixo, são matéria prima. Lá se vão quase 30 anos e estamos engatinhando nisso... mas ok, é um processo, há esperança.
No fim, pra mim, a principal forma com que algo é tornado lixo é o descompromisso. Eu torno algo lixo quando abro mão do meu compromisso com aquele material. Porque, o que é lixo? Lixo é aquilo que a Terra não engole. Se a Terra não engole, quem tem que engolir é quem produziu e quem usou. E se ninguém vai engolir, se ninguém vai assumir um compromisso com aquele resto, aquele resíduo, temos lixo. Lixo é descompromisso.
______________________________
o que nasce em uma aula/oficina de artes-manuais?
quais relações acontecem?
qual o destino das coisas produzidas?
reciclar?
reutilizar?
sustentabilidade?
quando as palavras se tornam ecos?
fazer é pensar
qualquer fazer é pensar?
qualquer pensar é fazer?
_________________________________
o que nasce de uma aula/oficina de artes-manuais?... as possibilidades são tão diversas quanto a diversidade de seres que estiverem interagindo... pode nascer muita coisa, pode não nascer nada...
aulas e oficinas estão mais para sementes e ferramentas do que para sementeiras. As sementeiras são as pessoas, cada pessoa. Cada pessoa um solo. Chega a aula/oficina, e promove algo para esse solo. Aí podem surgir as relações
professor-aluno; aluno-aluno; conteúdo-aluno; material-aluno; conteúdo-material-professor-aluno, todas as combinações possíveis e as impossíveis também (!)
as relações podem vir a afofar esse solo, regá-lo
as relações podem também ser sementes
as relações podem ser o sol, a chuva, a geada... chuva que molha, chuva que alaga, afoga
o destino dos materiais?... a profundidade da relação determina o destino... de quanto tempo essa relação precisa? que sementes quero aguardar germinar dessa relação? que sementes quero aguardar que cheguem nesse solo tão trabalhado? por quanto tempo vou esperar que o vento as traga? por quanto tempo vou esperar que essa casca dura se quebre pra ver o broto? vou esperar? esse é o destino do material produzido... a relação que estabeleço com ele. Eu & Ele. Em que medida o professor influencia esse destino? Na construção dessa relação... como se dá? Tem como controlar? Tem como garantir? Não... só tem como cuidar...
as palavras se tornam ecos quando são sementes num solo seco
podem até germinar... mas não enraízam
o fazer pode ser a enxada (ou a mão) que revira a terra
o fazer pode ser o húmus que coloco numa terra fria
o pensar pode ser semente
se o fazer torna-se pensar, a semente foi plantada na terra fofa, fértil
se o pensar torna-se fazer, a terra se abre para receber uma semente lançada
ou, a semente lança seu broto, seja lá como for a terra, porque semente quer brotar!
se a terra é fértil, alguma semente há de brotar, mesmo que não seja a que esperamos
sim, todo fazer é pensar
o fazer fertiliza a terra e em terra fértil vidas aparecem
e não, nem todo pensar é fazer
nem todo broto rompe a terra, nem toda fenda permite o nascimento de uma semente
semente boa não é garantia de broto enraizado
________________________________________
reflexões à partir da disciplina
Laboratório de Pesquisa e Experimentação em Artes-Manuais
Prof. Vinícius Airumã
Pós-Graduação em Artes-Manuais para Educação
Turma 3 - 2019/2020
Facon - Nina Veiga Atelier de Educação
Minha adolescência foi permeada pelos temas da Agenda 21 e a afinidade com a natureza me levou a estudar Engenharia Florestal, onde busquei me aproximar da educação ambiental, estagiando com o professor que foi responsável por grandes aberturas no meu modo de ver o mundo. Não sei explicar exatamente o porquê, mas não segui com ele... acho que seus questionamentos eram tão fortes e tão profundos que eu simplesmente não tinha estrutura emocional para lidar... e fui me aproximar das árvores, esses seres tão encantadores, lindos, imponentes. Fui buscar entender as árvores. Depois veria que foi um caminho bem equivocado, porque na verdade eu nunca quis "endendê-las", apenas contemplá-las... mas ok, isso é outro assunto.
Pois bem, o lixo. Como algo é tornado lixo?
Observando minha casa e os lixos que produzo nela, vejo que são coisas que não servem mais. Já serviram bastante, foram bem importantes, e de repente, não servem mais.
O maior volume é de embalagens. O saquinho de leite, as garrafas de suco, cerveja e vinho, o plástico que envolveu o queijo, a lata de molho, o plástico do macarrão, o papel da farinha, o frasco de shampoo. Foram muito úteis, me possibilitaram trazer todos esses produtos pra casa. Algumas eu reutilizo, adoro vidros! Mas a maioria acaba não servindo mais.
Tem os desenhos das crianças... alguns eu guardo, anoto o nome, a data, ficam pra posteridade, talvez adiando seu destino de lixo... mas muitos vão para o lixo agora mesmo... um material que serviu, que foi usado, bem usado... mas já cumpriu sua função, não serve mais.
Tem coisas quebradas, ou desgastadas. Serviram durante um bom tempo, mas chegaram ao fim. Qual o limite pra considerar algo tão desgastado que não sirva mais? Que não sirva pra mim nem pra ninguém... porque tem coisas desgastadas que envio para pessoas que talvez possam aproveitar... o que é pra mim um incômodo sim... aquilo não está bom o suficiente pra mim, mas pode servir a outra pessoa... não necessariamente porque tenhamos gostos diferentes, mas certamente porque temos condições de vida diferentes, que afetam nossos níveis de aceitação.
Tem as etiquetas das roupas... algo que não serve mais, mas não que eu tenha usufruído delas. São uma necessidade de quem fabrica, de quem vende. Por mim, não precisaria de etiqueta nenhuma... ok, eu gosto de saber a composição do tecido... mas já existe solução pra isso, imprimir as informações da etiqueta na roupa. Sei lá se é a melhor solução, ou se funciona pra tudo...
E tem o lixo do banheiro... ah como eu queria que fizéssemos como nos "países desenvolvidos"... vai tudo pra privada... e trata-se com o esgoto. O papel se desfaz, não é difícil. Sabe qual o entrave aqui? O formato dos vasos sanitários, que tem uma saída estreita e entope se jogar papel. Quando construímos nossa casa pensei nisso, dimensionamos encanamento e fossa pra receber os papeis... só que não passou pelo vaso! Podemos então usar ducha e toalhinha, como "antigamente"... pode ser uma solução...
E teria o "lixo orgânico", mas aqui em casa os restos orgânicos não viram lixo! Os restos dos alimentos voltam pra terra e lá, não são lixo. Restos de matéria orgânica na terra são apenas restos de matéria orgânica... faz parte da natureza, faz parte do ciclo. Decompõem e voltam a ser terra. Ufa!
Enfim, não consigo pensar em lixo sem pensar nas suas consequências e em formas de diminuir esse volume que, sei, não some quando colocado na rua.
Estamira diz que no lixo vem muito descuido... sem dúvida! Com esse grau de descompromisso que temos com o lixo na vida urbana, o descuido acaba sendo uma consequência (quase que) inevitável. O máximo de educação e compromisso que nos ensinam com relação ao lixo é levá-lo até um local "adequado". Não jogue lixo no chão. Jogue num saquinho (ou sacão), e pronto! Aqui encerra-se sua responsabilidade com o resíduo que você acabou de produzir. Parabéns!
Desde a Eco 92 temos tentado ir um pouco além, trazendo também a educação e o compromisso em separar o lixo. Reciclável, não-reciclável, orgânico. Porque lixo separado pode deixar de ser lixo (!). Resíduos orgânicos na terra não são lixo, são adubos; resíduos recicláveis bem destinados não são lixo, são matéria prima. Lá se vão quase 30 anos e estamos engatinhando nisso... mas ok, é um processo, há esperança.
No fim, pra mim, a principal forma com que algo é tornado lixo é o descompromisso. Eu torno algo lixo quando abro mão do meu compromisso com aquele material. Porque, o que é lixo? Lixo é aquilo que a Terra não engole. Se a Terra não engole, quem tem que engolir é quem produziu e quem usou. E se ninguém vai engolir, se ninguém vai assumir um compromisso com aquele resto, aquele resíduo, temos lixo. Lixo é descompromisso.
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o que nasce em uma aula/oficina de artes-manuais?
quais relações acontecem?
qual o destino das coisas produzidas?
reciclar?
reutilizar?
sustentabilidade?
quando as palavras se tornam ecos?
fazer é pensar
qualquer fazer é pensar?
qualquer pensar é fazer?
_________________________________
o que nasce de uma aula/oficina de artes-manuais?... as possibilidades são tão diversas quanto a diversidade de seres que estiverem interagindo... pode nascer muita coisa, pode não nascer nada...
aulas e oficinas estão mais para sementes e ferramentas do que para sementeiras. As sementeiras são as pessoas, cada pessoa. Cada pessoa um solo. Chega a aula/oficina, e promove algo para esse solo. Aí podem surgir as relações
professor-aluno; aluno-aluno; conteúdo-aluno; material-aluno; conteúdo-material-professor-aluno, todas as combinações possíveis e as impossíveis também (!)
as relações podem vir a afofar esse solo, regá-lo
as relações podem também ser sementes
as relações podem ser o sol, a chuva, a geada... chuva que molha, chuva que alaga, afoga
o destino dos materiais?... a profundidade da relação determina o destino... de quanto tempo essa relação precisa? que sementes quero aguardar germinar dessa relação? que sementes quero aguardar que cheguem nesse solo tão trabalhado? por quanto tempo vou esperar que o vento as traga? por quanto tempo vou esperar que essa casca dura se quebre pra ver o broto? vou esperar? esse é o destino do material produzido... a relação que estabeleço com ele. Eu & Ele. Em que medida o professor influencia esse destino? Na construção dessa relação... como se dá? Tem como controlar? Tem como garantir? Não... só tem como cuidar...
as palavras se tornam ecos quando são sementes num solo seco
podem até germinar... mas não enraízam
o fazer pode ser a enxada (ou a mão) que revira a terra
o fazer pode ser o húmus que coloco numa terra fria
o pensar pode ser semente
se o fazer torna-se pensar, a semente foi plantada na terra fofa, fértil
se o pensar torna-se fazer, a terra se abre para receber uma semente lançada
ou, a semente lança seu broto, seja lá como for a terra, porque semente quer brotar!
se a terra é fértil, alguma semente há de brotar, mesmo que não seja a que esperamos
sim, todo fazer é pensar
o fazer fertiliza a terra e em terra fértil vidas aparecem
e não, nem todo pensar é fazer
nem todo broto rompe a terra, nem toda fenda permite o nascimento de uma semente
semente boa não é garantia de broto enraizado
________________________________________
reflexões à partir da disciplina
Laboratório de Pesquisa e Experimentação em Artes-Manuais
Prof. Vinícius Airumã
Pós-Graduação em Artes-Manuais para Educação
Turma 3 - 2019/2020
Facon - Nina Veiga Atelier de Educação
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
chorando de barriga cheia
estou chorando de barriga cheia
mas sabe o quê?
não estou chorando de fome!
o único choro legítimo é o de fome?
vamos entender que estou chamando de "fome" todas as necessidades básicas e essenciais à sobrevivência
pois é... sobrevivência
eu não quero sobreviver, eu quero viver
mas algo dentro de mim insiste em me fazer sentir culpa por isso
porque parece que enquanto houver seres humanos com sua sobrevivência ameaçada, não posso me dar ao luxo de chorar por dores que extrapolam as necessidades básicas e essenciais à sobrevivência
"problema de gente branca"
"mimimi"
"xatiada"
"coisa de menina mimada"
essas vozes ecoam na minha cabeça e no meu peito
braços, mãos e pernas ficam sem saber como ajudar
"faz uma caminhada"
"faz um tricô"
em versões mais amenas
e em versões mais radicais, dizem:
"vai fazer faxina então"
"e se você for produzir seu próprio alimento?"
como que dizendo: "assume o trabalho que precisa ser feito pra ver se essa xatiação não passa!"
até acho que passaria... mas cadê as forças?
só tem uma vontade de chorar e chorar e chorar
e uma vontade de ir pra praia
tá um dia tão lindo, um sol gostoso
tudo que eu queria era poder colocar poucas coisas no carro e ir até a praia
por que não posso?!?!?!
às vezes acho que me obrigo a ficar numa prisão porque existem pessoas presas
tenho medo de sair e esquecer dos que ficaram
tenho medo de me seduzir pelos prazeres da vida e ser ingrata, desleal
como se já não estivesse fazendo isso...
abafo o choro mas não deixo de encher minha barriga
mas sabe o quê?
não estou chorando de fome!
o único choro legítimo é o de fome?
vamos entender que estou chamando de "fome" todas as necessidades básicas e essenciais à sobrevivência
pois é... sobrevivência
eu não quero sobreviver, eu quero viver
mas algo dentro de mim insiste em me fazer sentir culpa por isso
porque parece que enquanto houver seres humanos com sua sobrevivência ameaçada, não posso me dar ao luxo de chorar por dores que extrapolam as necessidades básicas e essenciais à sobrevivência
"problema de gente branca"
"mimimi"
"xatiada"
"coisa de menina mimada"
essas vozes ecoam na minha cabeça e no meu peito
braços, mãos e pernas ficam sem saber como ajudar
"faz uma caminhada"
"faz um tricô"
em versões mais amenas
e em versões mais radicais, dizem:
"vai fazer faxina então"
"e se você for produzir seu próprio alimento?"
como que dizendo: "assume o trabalho que precisa ser feito pra ver se essa xatiação não passa!"
até acho que passaria... mas cadê as forças?
só tem uma vontade de chorar e chorar e chorar
e uma vontade de ir pra praia
tá um dia tão lindo, um sol gostoso
tudo que eu queria era poder colocar poucas coisas no carro e ir até a praia
por que não posso?!?!?!
às vezes acho que me obrigo a ficar numa prisão porque existem pessoas presas
tenho medo de sair e esquecer dos que ficaram
tenho medo de me seduzir pelos prazeres da vida e ser ingrata, desleal
como se já não estivesse fazendo isso...
abafo o choro mas não deixo de encher minha barriga
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