sexta-feira, 1 de abril de 2022

Leveza e Profundidade

Se você acha que é um paradoxo,

vou te dar uma dica:

olha pra cima

e aprofunda no céu!


Aprofundar não é (só) afundar

Aprofundar com leveza é flutuar livremente

Nas águas e nos ares


Leveza é ar e água

Mas parece que a gente aprende que leveza é sinônimo de superficialidade

leviano

Fico com Lenine: a leveza está na delicadeza

Observemos a leveza através da delicadeza

e aprofundaremos


A delicadeza da presença

A delicadeza da atenção

A delicadeza da disponibilidade

A delicadeza do interesse


A leveza que aprofunda é

A leveza que cria vínculos

A leveza que é livre

A leveza que é também compromissada,

Porque é atenta


A profundidade que pesa,

que puxa pra terra,

são pés pesados tropeçando nas pedras dos caminhos

As pedras do cotidiano

A lista de compras

Os boletos, o extrato, a fatura

O filho doente

A obra que atrasa

O chefe que resmunga

O empregado que falta

O carro que quebra


As pedras dos não ditos

As expectativas que não viram perguntas

As perguntas que ficam sem respostas

As respostas tortas,

- o desalinho entre o que sai e o que está dentro


Mas quem tropeça são os pés

As pedras são o que são

Pés leves tropeçam menos,

Porque flutuam, dançam

Porque tem liberdade,

saltam e até voam

aprofundando

No céu


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Amiga da minha mulher



Ah, Seu Jorge! Essa voz, esse suíngue, essa elegância! Cantando "Carolina" e fazendo tricô, então, meu coração derrete. Está sempre nas minhas playlists animando corrida, trabalhos domésticos, viagens...

E foi num desses momentos de corpo ocupado e mente divagando que a música "Amiga da minha mulher" me chamou a atenção.

Primeiro, por ser a mais ouvida do cantor no Spotify (a letra é de autoria de Gabriel Moura, parceiro do Seu Jorge em mais de 50 canções), e depois por me propor um exercício sobre questões de gênero. Sim, car@ leitor/a/e, é preciso estar atente e forte! (eu busco usar linguagem neutra, mas esse texto vai ser bem binário e hétero e você já vai entender por quê).

O exercício não é novidade e nem fui eu que inventei. É um mecanismo simples pra entender se a situação é machista. Basta inverter papéis, misturar gêneros e avaliar se o resultado é o mesmo. Divertidíssimo! Quer ver?!


Imagina que a história, em que a amiga da esposa se insinua sensualmente para o narrador, ao invés da configuração "amiga da minha mulher", falasse da "mulher do meu amigo"


vai imaginando... "ela é mulher do meu amigo, mas vive dando em cima de mim (...) de vez em quando fico admirando, é muita areia pro meu caminhão"


Imaginou?!

Continua divertida e engraçada? Continua "brincadeirinha"?


Não, definitivamente, não. Amiga da mulher a gente dá risada, mas mulher do amigo, EITA, aí a coisa ficou séria.


E se - prepare-se: e se fosse uma mulher cantando e a música fosse "amigo do meu marido"?! Ou ainda: "marido da minha amiga"?!


Ui, fomos longe demais! Caos na Terra! Já não cabe mais em "músicas para churrasco", pelo menos não nos "churrascos de família". Quem sabe caiba na categoria funk pornográfico.


Pois bem, isso é machismo, minha gente! Quando a gente inverte e mistura os gêneros e os resultados mudam completamente.


Por que falar da "amiga da mulher" é engraçadinho, mas falar da "mulher do amigo" é o mais profundo mal-caratismo?

Por que um homem falando que "a carne é fraca" nos passa quase que despercebido, mas uma mulher dizendo a mesma coisa é a mais baixa das putarias?


PORQUE VIVEMOS EM UMA SOCIEDADE MACHISTA!

Porque para um homem, "as mulheres" são seu domínio, a não ser, é claro, que tenha outro homem envolvido. Veja: o limite não é a mulher em si, nem as inter-relações com essa mulher, enquanto forem permeadas por outras mulheres. O limite é o território do outro macho, que inclui suas respectivas mulheres-domínio. Isso não é exagero e isso não é brincadeira. Basta olhares (e ouvidos) atentos pra ir se dando conta desse mecanismo.

E no caso da mulher cantando? Ah, aí é muita audácia, né? Como assim, uma mulher que manifesta desejo? Como assim a mulher vai agora declarar estabelecer domínios e territórios mulher-homem? Ah, claro, se fossem duas mulheres "brigando" por macho, aí sim, aí é totalmente aceitável, porque, afinal, os seres dominados se degladiam pela atenção, caprichos e mimos de seu dominador. Você pode achar que estou forçando a barra, e talvez esteja, a título de exercício didático. Na prática não é bem assim. É muito pior! Porque muitas vezes é velado, a gente não se dá conta, mas está jogando exatamente esse joguinho do patriarcado.



O que eu adorei em sacar esse exemplo é que ele extrapola moralismos, porque ele já parte de uma condição de imoralidade e isso deixa o machismo ainda mais evidente. A questão não é moral. Não estamos discutindo aqui a questão específica do adultério. Porque se o cara declara que tem uma queda pela amiga da mulher, é óbvio que isso arranha valores referentes a casamento, arranha valores referentes a amizade, mas passa como uma "brincadeira", tranquilamente aceita. Socialmente conseguimos rir e nos divertir com isso.

A coisa só complica nas misturas de gênero que propus. Perde a graça, vira tabu, vai pro gueto. O problema claramente não é o adultério.


Então a questão é essa: igualdade de direitos. Inclusive na putaria!


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

paquera, fidelidade, aventura, maturidade

Se você ainda não sabe, vou te contar: existe uma lenda (na verdade está mais pra uma história pra boi dormir, porque lenda é coisa séria. Mas essa história pegou de um jeito que algo de sério ela tem...), enfim, a história diz que quando a gente encontra "o amor da nossa vida" esse amor nos basta, nos preenche de um jeito, que não precisamos de mais nada. NADA. Nada nem ninguém. Nossa vida agora está completa (algumas versões incluem filhos, outras incluem pets... só piora). E ainda tem a pachorra de dizer que "se não tem esse sentimento de plenitude, então não é amor... siga buscando que um dia, com sorte, você encontra".

MEN-TI-RA. 

Porcaria de história infeliz que só gera infelicidade. Pelo simples fato de que é mentira, de que não é assim que a biologia, a fisiologia, a psicologia humana funcionam. Se você pooooooor acaaaaaaaso afirma que encontrou seu amor e que esse amor te basta e te preenche, ok, acredito. Só saiba que você é uma minoria bem minoria (e se a/s pessoa/s parceira/s também afirma/m isso, mais minoria ainda), e isso não reflete uma grande sorte ou um grande azar. É só um fato. E algo que caracteriza a vida humana (eu diria a vida de forma geral) é a diversidade, então é aquilo... tem de tudo! Mas existem tendências gerais, que nos ajudam a entender comportamentos gerais. ALERTA: o caldo entorna quando a gente acha que "comportamento geral" é regra e quer aplicar isso pra TODOMUNDO, e se por acaso eu ou alguém não se enquadra no tal "comportamento geral" é porque tem alguma coisa errada. Aff... não tem nada .NADA. errado com quem tem comportamentos não-gerais, isso é só um reflexo da diversidade, diversidade esta que é característica básica da nossa espécie e da vida.

Todo esse preâmbulo pra dizer que pessoas em relacionamentos de casal, em geral, também precisam de paquera, flerte, aventura, frio na barriga. Enquanto comportamento geral, é assim que a banda toca. Estudos comprovam. Isso não é desvio de caráter. Isso é super natural, inclusive. E onde fica a fidelidade nessa história? Onde ficam os tais dos compromissos que estabelecemos uns com os outros quando formamos um casal? Conversemos sobre isso! Conversemos com nossos cônjuges, conversemos com amigas e amigos, com terapeutas, com o motorista do Uber, com a faxineira, com pessoas de outras gerações.

Como lidar com maturidade com a tensão entre as necessidades simultâneas de segurança e aventura?

Buscamos segurança e formamos casais, famílias, matrimônios e patrimônios.

Buscamos aventura e colocamos isso tudo a perder. É isso?! Não!

Não precisa ser assim.

Segurança não é aprisionar-se

Aventura não é quebrar a cara

Bora largar mão desse moralismo anti-vida. Desse medo de perder que faz com que a gente construa muros e cercas elétricas e continue vivendo com medo dentro das nossas fortalezas ilusórias. Desse medo de ir que faz com que a gente deixe de florescer e viva na apatia.

Paquera não é assédio

Paquera é elogio, é carinho na autoestima, é se nutrir de um olhar, é fantasiar com o "e se?!"

E os limites? Onde ficam os limites? Lidemos com isso

E os outros? O que os outros vão pensar? Lidemos com isso

Com maturidade, com verdade, com autenticidade

Porque sim, eu paquero e gosto de ser paquerada. Ficadica!



terça-feira, 5 de outubro de 2021

Eu te amo

O que fizemos com o amor?

Esse aprisionamento do "eu te amo" nada tem a ver com amor.

Amor é incondicional. Não existe "eu te amo, se...", "eu te amo, mas...", "eu te amo porque..."

Amor não precisa de motivo. Que tal se formos capazes de amar incondicionalmente todos os seres? Gente, bicho, planta e pedra. Terra, água, ar e fogo. Terra argila, terra areia. Água nuvem, água névoa. Ar vento, ar fumaça. Fogo brasa, fogo lava.

Planta com espinho, planta com flor.

Bicho peludo e bicho liso.

Gente que gosta da gente e gente que não tem nada a ver com a gente.

Amor tem a ver com admiração (admiração pura e simples, não admiração "porque"). Amor tem a ver com compaixão (aquele desejo genuíno de que o tal "objeto do amor" cumpra sua trajetória, independente dos porquês). Amor tem a ver com respeito, que não tem nada a ver com troca. Amor tem muito a ver com liberdade.

Amor tem muito a ver com liberdade.

Muito.

Se existe qualquer ganchinho que tenha qualquer intenção de prender, não é amor. Arruma outro nome, mas faz esse esforço em nome do amor: NÃO. É. AMOR.

Pensando em casais, trisais ou poliamores, deixo algumas sugestões:

Quer chamar de compromisso? Eu me comprometo com você (s) (comprometo a quê? Espero que vocês se perguntem)

Quer chamar de necessidade? Eu preciso de você (s) (preciso pra quê? Espero que vocês se perguntem)

Quer chamar de desejo, vontade? Eu quero você (s) (quero como? Espero que vocês se perguntem)

-- curioso como o "eu te amo" não precisa de perguntas... justamente porque a ideia é que seja incondicional... mas aí a gente usa o "eu te amo" no lugar do "eu te quero" e esquece que perguntas precisam ser feitas quando a gente entra nos papeis condicionados

Pensando em relações de pais/mães/filhos, algumas sugestões (que também servem pra situação acima):

Podemos chamar de cuidado: Eu cuido de você (cuida como, o que você entende por "cuidar")

Podemos chamar também de preocupação: Eu me preocupo com você (preocupa com quê?)

Podemos sim chamar de apego, que tem a ver com a necessidade, com essa coooooisa de ter que estar grudado, junto, sob os olhos e as asas. Caraca, isso NÃO. É. AMOR!!! Tudo bem sentir apego, lide com isso, mas pelamor, não chama de amor!

Pensando em relações de amizades, a mesma coisa. Quais mais? Quais as relações de amor na sua vida?

Quais os verdadeiros amores? E quais os pseudo-amores? Não que você não ame suas relações de apego, desejo, compromisso... ama também... mas o amor está lá no fundo, soterrado, coitado, sob camadas e camadas de desamor vestido em roupinha rosa de faz-de-conta-que-é-amor.




quinta-feira, 11 de março de 2021

Corpo Âncora

A antroposofia me ensinou a usar imagens como auxiliares para traduzir sentimentos, processos, mecanismos. Quando a descrição com palavras literais não alcança a essência do que queremos dizer, lançamos mão de uma imagem, uma analogia, uma alegoria. Aí reside o potencial curativo das histórias e de toda a sorte de mitologias.

Claro que toda alegoria tem suas limitações. Se ao usar uma imagem como apoio para descrever um processo, formos à fundo na imagem, buscando chegar no seu aspecto mais literal, o apoio se dissolve. Não é essa a ideia. Esse mecanismo funciona muito bem quando estamos atentos a que ele se propõe, que está mais para inspiração (ar) do que para representação (terra).

Outro aspecto a considerar quando lidamos com imagens é que, à medida que o processo se transforma, a imagem também se transforma - e essa transformação pode tranquilamente virar uma transfiguração, ou seja, a imagem inicialmente usada não faz mais nenhum sentido, e outra, completamente diferente, aparece, agora mais afinada com a nova fase do processo. Trocar de imagem não constitui incoerência... ou talvez sim... mas aí estamos falando das incoerências inerentes à vida. Tudo muda... enxergar incoerências e paradoxos são pistas de que a vida vive.

Feito esse preâmbulo, quero falar de uma imagem que me apareceu, após passar dois dias à bordo de um veleiro, e mais três mareada em terra (o primeiro, literal, físico, e os outros dois num mareamento emocional). Mesmo nesse mareamento todo, mantive meditação, corrida, cuidados com o corpo, e deixei de lado o que pude das tarefas, afazeres domésticos, me dando tempo e espaço.

No 4o dia, já sem o mareamento, durante a corrida, veio a imagem do corpo enquanto âncora. Ancorar um veleiro é uma tarefa meticulosa. Inclui avaliar profundidade num raio seguro e as possibilidades de vento durante o período que espera-se ficar ancorado; inclui lidar com um artefato bem pesado, mais sua corrente, igualmente pesada (alguns barcos contam com guincho elétrico, outros não...); inclui um procedimento de manobra, usando motor, pra fixar a âncora (quando não tem motor não sei como faz...). Desancorar também pede atenção, meio que fazendo todo o procedimento ao contrário.

A âncora permite ao barco descansar. E quando falo "barco", refiro-me a toda a tripulação do barco... A âncora, se manejada de forma cuidadosa, confere segurança ao barco. Se tiver algum problema com a âncora (ou corrente, ou guincho - estou chamando de "âncora" esse conjunto que permite o ancoramento), pode-se buscar uma poita, um píer, ou até mesmo outro barco que esteja seguramente ancorado. Mas todas são soluções provisórias... o esperado é que cada barco tenha sua própria âncora, em perfeito estado de funcionamento.

A âncora geralmente fica escondida num porão, quando não está sendo usada. E quando em uso está lá no fundo, presa ao lodo. Ou seja... seu protagonismo não está na sua aparência nem na sua "aparição", mas sim no seu funcionamento.

Nessa imagem que me veio, partindo da âncora, se ela é o corpo (corpo físico, no caso), as velas são o corpo emocional, os instrumentos de navegação são o corpo mental, a tripulação do barco constitui o corpo espiritual. O próprio barco seria a experiência terrena. O motor vejo como os "aditivos" (explicarei melhor). O mar, o vento, o sol, as ilhas e continente e tudo mais o que surgir são a vastidão do cosmos, do tempo, do infinito, das experiências. E outros barcos são... outros barcos!

E olha que coisa doida... coloquei o corpo físico numa imagem que fica escondida (o que me faz alinhar o corpo mais à funcionalidade do que à estética, o que pode até convergir, mas não é isso que importa)... coloquei as emoções nas velas (que ao mesmo tempo é o que define um veleiro, mas que não são essenciais para navegar - se existe um motor). O motor então são os nossos apoios da vida contemporânea, que custam dinheiro, que geram lixo e resíduos, mas que também nos conferem algum conforto e segurança. Sem o motor o veleiro também se desloca... mas aí sim as velas são fundamentais, assim como saber manejá-las.

Agora pense comigo... um veleiro que nunca levanta suas velas é algo bastante triste. Se você não as levanta porque não sabe manejá-las, nunca aprenderá, porque não é algo que se aprende lendo ou assistindo vídeos. Se você pode contar com alguém mais experiente, certamente aprenderá em segurança, mas precisa cuidar para que a experiência de quem acompanha não ofusque sua prática de aprendizado. Se você quiser se arriscar a aprender sozinho, convém escolher lugares seguros e investir na instrução prévia (que não resolve, mas ajuda...). Errar ao lidar com as velas pode te custar as próprias velas (que rasgam), o mastro (que quebra), o barco (que afunda)... e talvez a vida (que enquanto experiência terrena, acaba). E mesmo com esses riscos todos, muitas e muitas e muitas pessoas aprendem a velejar e velejam e dão voltas ao mundo.

Os outros elementos da alegoria vou deixar para que você brinque com eles, fazendo as analogias que fizerem sentido na sua vida... pode incluir outros também... o bote, os coletes salva-vidas... pode detalhar a tripulação (no nosso caso tinha um comandante pouco experiente, um mestre, amadores, crianças). E o leme? A roda de leme? Fazem parte dos instrumentos de navegação... que podem ser bem tecnológicos (e pifar) ou bem analógicos (e dar um trabalho danado). Tem os cabos todos, o guarda-mancebo, as bombas de água (água doce e salgada)... e os componentes de uma "casa": cozinha, banheiro, quartos, sala... um veleiro é um prato cheio pra brincar com as imagens! Mas é claro que essa alegoria é "minha"... ela existe à partir da minha experiência. Pode ser que pra você não faça sentido nenhum...

Eu só sei que num momento de confusão emocional, as velas por aqui panejaram; os instrumentos de navegação ficaram meio doidos (pane elétrica? Triângulo das Bermudas?); o motor ficou de boa e foi ele (justo ele, que vira e mexe me aparece como vilão) que me ajudou a lidar com as velas e recolhê-las. E então lembrei da âncora, que estivera ali o tempo todo, sossegada, só esperando seu momento. Havia luzes no continente, sinalizando uma baía segura, o ancoramento foi feito, o barco descansou.