quinta-feira, 11 de março de 2021

Corpo Âncora

A antroposofia me ensinou a usar imagens como auxiliares para traduzir sentimentos, processos, mecanismos. Quando a descrição com palavras literais não alcança a essência do que queremos dizer, lançamos mão de uma imagem, uma analogia, uma alegoria. Aí reside o potencial curativo das histórias e de toda a sorte de mitologias.

Claro que toda alegoria tem suas limitações. Se ao usar uma imagem como apoio para descrever um processo, formos à fundo na imagem, buscando chegar no seu aspecto mais literal, o apoio se dissolve. Não é essa a ideia. Esse mecanismo funciona muito bem quando estamos atentos a que ele se propõe, que está mais para inspiração (ar) do que para representação (terra).

Outro aspecto a considerar quando lidamos com imagens é que, à medida que o processo se transforma, a imagem também se transforma - e essa transformação pode tranquilamente virar uma transfiguração, ou seja, a imagem inicialmente usada não faz mais nenhum sentido, e outra, completamente diferente, aparece, agora mais afinada com a nova fase do processo. Trocar de imagem não constitui incoerência... ou talvez sim... mas aí estamos falando das incoerências inerentes à vida. Tudo muda... enxergar incoerências e paradoxos são pistas de que a vida vive.

Feito esse preâmbulo, quero falar de uma imagem que me apareceu, após passar dois dias à bordo de um veleiro, e mais três mareada em terra (o primeiro, literal, físico, e os outros dois num mareamento emocional). Mesmo nesse mareamento todo, mantive meditação, corrida, cuidados com o corpo, e deixei de lado o que pude das tarefas, afazeres domésticos, me dando tempo e espaço.

No 4o dia, já sem o mareamento, durante a corrida, veio a imagem do corpo enquanto âncora. Ancorar um veleiro é uma tarefa meticulosa. Inclui avaliar profundidade num raio seguro e as possibilidades de vento durante o período que espera-se ficar ancorado; inclui lidar com um artefato bem pesado, mais sua corrente, igualmente pesada (alguns barcos contam com guincho elétrico, outros não...); inclui um procedimento de manobra, usando motor, pra fixar a âncora (quando não tem motor não sei como faz...). Desancorar também pede atenção, meio que fazendo todo o procedimento ao contrário.

A âncora permite ao barco descansar. E quando falo "barco", refiro-me a toda a tripulação do barco... A âncora, se manejada de forma cuidadosa, confere segurança ao barco. Se tiver algum problema com a âncora (ou corrente, ou guincho - estou chamando de "âncora" esse conjunto que permite o ancoramento), pode-se buscar uma poita, um píer, ou até mesmo outro barco que esteja seguramente ancorado. Mas todas são soluções provisórias... o esperado é que cada barco tenha sua própria âncora, em perfeito estado de funcionamento.

A âncora geralmente fica escondida num porão, quando não está sendo usada. E quando em uso está lá no fundo, presa ao lodo. Ou seja... seu protagonismo não está na sua aparência nem na sua "aparição", mas sim no seu funcionamento.

Nessa imagem que me veio, partindo da âncora, se ela é o corpo (corpo físico, no caso), as velas são o corpo emocional, os instrumentos de navegação são o corpo mental, a tripulação do barco constitui o corpo espiritual. O próprio barco seria a experiência terrena. O motor vejo como os "aditivos" (explicarei melhor). O mar, o vento, o sol, as ilhas e continente e tudo mais o que surgir são a vastidão do cosmos, do tempo, do infinito, das experiências. E outros barcos são... outros barcos!

E olha que coisa doida... coloquei o corpo físico numa imagem que fica escondida (o que me faz alinhar o corpo mais à funcionalidade do que à estética, o que pode até convergir, mas não é isso que importa)... coloquei as emoções nas velas (que ao mesmo tempo é o que define um veleiro, mas que não são essenciais para navegar - se existe um motor). O motor então são os nossos apoios da vida contemporânea, que custam dinheiro, que geram lixo e resíduos, mas que também nos conferem algum conforto e segurança. Sem o motor o veleiro também se desloca... mas aí sim as velas são fundamentais, assim como saber manejá-las.

Agora pense comigo... um veleiro que nunca levanta suas velas é algo bastante triste. Se você não as levanta porque não sabe manejá-las, nunca aprenderá, porque não é algo que se aprende lendo ou assistindo vídeos. Se você pode contar com alguém mais experiente, certamente aprenderá em segurança, mas precisa cuidar para que a experiência de quem acompanha não ofusque sua prática de aprendizado. Se você quiser se arriscar a aprender sozinho, convém escolher lugares seguros e investir na instrução prévia (que não resolve, mas ajuda...). Errar ao lidar com as velas pode te custar as próprias velas (que rasgam), o mastro (que quebra), o barco (que afunda)... e talvez a vida (que enquanto experiência terrena, acaba). E mesmo com esses riscos todos, muitas e muitas e muitas pessoas aprendem a velejar e velejam e dão voltas ao mundo.

Os outros elementos da alegoria vou deixar para que você brinque com eles, fazendo as analogias que fizerem sentido na sua vida... pode incluir outros também... o bote, os coletes salva-vidas... pode detalhar a tripulação (no nosso caso tinha um comandante pouco experiente, um mestre, amadores, crianças). E o leme? A roda de leme? Fazem parte dos instrumentos de navegação... que podem ser bem tecnológicos (e pifar) ou bem analógicos (e dar um trabalho danado). Tem os cabos todos, o guarda-mancebo, as bombas de água (água doce e salgada)... e os componentes de uma "casa": cozinha, banheiro, quartos, sala... um veleiro é um prato cheio pra brincar com as imagens! Mas é claro que essa alegoria é "minha"... ela existe à partir da minha experiência. Pode ser que pra você não faça sentido nenhum...

Eu só sei que num momento de confusão emocional, as velas por aqui panejaram; os instrumentos de navegação ficaram meio doidos (pane elétrica? Triângulo das Bermudas?); o motor ficou de boa e foi ele (justo ele, que vira e mexe me aparece como vilão) que me ajudou a lidar com as velas e recolhê-las. E então lembrei da âncora, que estivera ali o tempo todo, sossegada, só esperando seu momento. Havia luzes no continente, sinalizando uma baía segura, o ancoramento foi feito, o barco descansou.





terça-feira, 17 de novembro de 2020

o macro e o micro - a vida humana em perspectiva


Esses dias assisti uma palestra do filósofo Roman Krznaric sobre seu novo livro "Como ser um bom ancestral". Ele faz um chamado ao pensamento de longo prazo, trazendo à luz grandes armadilhas do "curto-termismo" que nos invade constantemente. Essas armadilhas vão desde hábitos cotidianos, como a "tirania do relógio" e a "distração digital", até estratégias políticas e econômicas que tem um alcance muito restrito (a próxima eleição) e volátil (especulações financeiras).

Para pensar pra frente - pra frente de verdade, e não pro próximo par de anos - ele propõe alguns caminhos, como considerar qual legado você deixa para a próxima geração, ou o que ele chama de raciocínio de catedral, que é construir coisas (ou ideias) que sabemos que não serão finalizadas na escala da vida individual. Ele fala também em justiça intergeracional e cita os nativos norte-americanos, que consideram o bem estar da sétima geração em suas decisões.


E tem um outro conceito que ele traz, a Humildade do Tempo Profundo, nos chamando a perceber que somos um piscar de olhos no tempo cósmico.

Fico aqui pensando que ser esse piscar de olhos pode tanto nos dissociar do ego, ao nos colocar diante dessa magnitude toda, quanto causar uma sensação de "pra que legado, pra que catedral, se no fim serão apenas alguns piscares de olhos?" - e o que me vem é que expressar aquilo que está no meu potencial independe de "querer" deixar um legado; me parece que a coisa está mais para evitar as armadilhas da modernidade, que nos distraem constantemente do que realmente importa, do que estabelecer de forma racional metas de longo prazo... porque no fim acredito que vidas bem vividas, vidas conscientes e despertas, naturalmente contemplam os valores de legado e justiça intergeracional.

[ só é preciso estar atento e forte, porque as armadilhas são taaaaaaantas... ]

E hoje, visitando meu quintal, fiquei um tempo observando as flores minúsculas que crescem aqui e acolá, espontaneamente. São tão pequenininhas e tão, tão, tão encantadoras, complexas, detalhadas. Perfeitas. Olhar para o micro também me posicionou nesse piscar de olhos cósmico. De alguma forma, adentrar a escala dessas florzinhas me fez sentir a potência do "pequeno", e me fez rodopiar pelos meus conceitos de grandeza - e pequeneza.

Pensei no raciocínio de catedral, a coisa de construir algo grandioso que jamais verei pronto, o que me leva a pensar nos conselhos de "pensar grande", "sair da zona de conforto" - e o que essas florzinhas me contaram é que o GRANDE é composto por inúmeros pequenos, cada um complexo, detalhado, perfeito e inteiro em si.



Deixo uma música pra finalizar... Ótima, da Flaira Ferro


... que nada nos distraia do amor

nem mesmo as vitórias da vida!




sábado, 24 de outubro de 2020

sobre ir à luta...


Um amigo xamã me disse que na visão dos povos indígenas que ele estuda, a Primavera é o tempo do Guerreiro. É tempo de fazer o que precisa ser feito, é tempo de novos começos, de desbravar, de parar de inventar desculpas, se encher de coragem e ir à luta.

Venho então refletindo sobre as minhas batalhas, as que já lutei, as que venho lutando e as que se anunciam no horizonte.

E hoje me veio uma percepção... as batalhas não precisam necessariamente ser "épicas". Quero dizer, épicas aos olhos dos outros. Quantas batalhas internas você já não travou? Quantas derrotas e quantas vitórias que ninguém nem ficou sabendo, ou no máximo aqueles com quem você convive muito, muito de perto.

Às vezes fico com a sensação de que pra uma vitória ser legitimada, ela precisa ser vivida num palco - ou numa arena. Fica essa impressão de que, "se a galera não viu, não existiu"... ou, pior: não valeu. Penso nessa cultura de cada vez mais exposição, a "sociedade do espetáculo", essa vida de rede social, e vejo que por mais que muitas vezes eu me afirme "superior a isso tudo", tem algo que permeia, de forma quase que imperceptível, meus pensamentos e sentimentos. Eu hein...

Junto com essa percepção das batalhas internas, veio outra interessante também... que muitas vezes a grande batalha é justamente evitar a batalha (!). Algo assim: se minha vida vem se desenrolando sem grandes sobressaltos, é possível que eu esteja fazendo de fato um ótimo trabalho, e não "acomodada na minha zona de conforto", como muitas vezes essa tal "sociedade do espetáculo" nos acusa.

E aí, como saber?! Como saber se você está acomodado, fugindo à luta, ou lutando bravamente, mesmo que de forma silenciosa e invisível, para ser fiel à sua essência e ao que VOCÊ acredita ser o certo a fazer - ou NÃO fazer?

Conhecendo-se!

E conhecendo também histórias de outras pessoas... cultivando a tal da empatia, gerando acervos de experiências, mesmo que seja através de livros, séries, filmes, podcasts.

Não existe receita, não existe "caminho certo" a não ser aquele que é só seu. E só você para descobri-lo, passo a passo.

.

.

.

Na foto, em 2012, na Turquia, numa viagem com minha mãe e minha irmã, com Joaquim na barriga e sem ninguém mais saber... a minha melhor definição de "batalha interna", rs... eu, na plateia (vazia), o palco em obras, não há nenhum espetáculo para ver... a não ser o que acontece dentro de mim. Essa "legenda" só apareceu depois que escrevi o texto. Escolhi essa foto antes de escrever, porque me deparei com ela ontem, por motivos outros, e queria apenas uma foto bonita e especial pra ilustrar (!)



quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Televisão




A televisão sempre teve sua presença e seu lugar nas minhas casas, quando criança e depois, mas sempre uma presença discreta e um lugar de "mantenha-se no seu lugar". Naturalmente. Não lembro de grandes crises com relação a televisão na infância, nem na adolescência. Tenho memórias de fases da minha vida ilustradas por programas de televisão. Lanterna Mágica, Pantanal, Rá-, Tim, Bum, X-Tudo, Mundo da Lua, Castelo Rá-Tim-Bom, Confissões de Adolescente, Vestibulando, Metrópolis, Programa Legal, Vídeo Show, Malhação, Sinhá Moça, Senhora do Destino, Globo Repórter, Fantástico, Pantanal (de novo)... não quero nem voltar a ver nada disso (já tentei, e por isso afirmo: não quero), porque não quero macular essas memórias, todas deliciosas.

Aí vem a fase cabeção, sem TV, achando TV a coisa mais fútil e alienante do mundo. Muitos livros, muitos livros, muitos livros. Teatro, cinema. Cinema europeu, claro, rs... exceções pra Woody Allen e Tarantino, afinal, né... Memórias deliciosas também.

Papo vai, papo vem, acabei conhecendo a antroposofia, pois meu orientador do mestrado estava super envolvido com a escola Waldorf da filha pequena. Aí lacrô! Morte à TV!!!

Quando meu marido e eu estávamos na fase de fazer os acordos de como seria a vida com filhos (sim, sou dessas e faz tempo!), abolir definitivamente a TV de casa era condição inegociável. Veio o filho, foi-se a TV.

O filho cresceu, eu pisquei, e quando vi a criança já assistia vídeos no celular, iPad, computador. Veio o segundo filho, e começou a assistir telas bem mais novo do que o primeiro.

Aí veio a pandemia... ah, a pandemia! Sem escola. SEM ES-CO-LA-A-A-A!!! Os desenhos animados tornaram-se mais frequentes, e justo no momento que as crianças estavam quietas, sem me pedir nada, eu ficava sem meu computador, pois era ali que eles assistiam.

Resolvemos então comprar uma TV.

.

.

.

[pausa dramática]

Se você tem e sempre teve TV em casa pode não estar entendendo meu drama, mas, acredite, não foi fácil admitir que eu realmente queria uma TV em casa.

E assim foi.

Compramos um bela TV, grandona, com imagem espetacular. As crianças amaram... e eu também!

Pra estrear o novo aparelho, eu e o marido começamos a assistir Outlander e o programa 'colocar crianças na cama e correr pra assistir "nossa novelinha" ' tornou-se cada vez mais delicioso. Antes da TV frequentemente cada um ia pro seu canto (e pra sua tela), depois das crianças dormirem. Agora, com a TV, temos um compromisso juntos, assistimos juntos, comentamos, damos risada (assistimos Modern Family também, rs...), vamos pra cama juntos...

Eu realmente não esperava que a televisão pudesse nos trazer tempos de tanta qualidade (!). Além da óbvia qualidade ergonômica (porque nunca deixamos de assistir umas coisinhas... na tela do celular, segurando iPad, com computador em cima da cama...), mas também a qualidade de tempo juntos, de ter um momento de lazer compartilhado entre o casal e sem crianças, tão raro nesses tempos de distanciamento social, com poucas ajudas pra segurar a onda com os pequenos.

Viva a TV!


sábado, 12 de setembro de 2020

essencial à vida

na busca pela essência, pelo essencial, foi tirando os supérfluos, as superficialidades

descamando, descascando... até onde? O que resta?

viu-se no cerne. Duro. Seco.

na busca pelo que é essencial à vida, caminhou justo em direção à imortalidade do que já não mais vive.

e percebeu que a vida se dá na fluidez, nos fluidos, na água que vem e que vai, não pelo cerne, mas pelas camadas, pelas superfícies

à flor da pele

saindo da madeira dura e seca, percebeu que lá na ponta as flores, em sua imensa variedade de cores e formatos e aromas e tamanhos alimentam a vida, porque vida é diversidade, variedade, criatividade, expressão

a magnitude do que vive não exclui, aceita

vida é aceitação

criação

relação

tudo importa, tudo cabe, tudo pode

o essencial é a amplidão, o espaço

a água, a umidade

o calor, a vitalidade

a respiração

a base

e quem mais chegar

sem limite

Deixa rolar, deixa viver, deixa fluir

e o que sobra?

a vida aceita

e regenera

e revive

tudo flui

onde - e enquanto - há vida