quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Televisão




A televisão sempre teve sua presença e seu lugar nas minhas casas, quando criança e depois, mas sempre uma presença discreta e um lugar de "mantenha-se no seu lugar". Naturalmente. Não lembro de grandes crises com relação a televisão na infância, nem na adolescência. Tenho memórias de fases da minha vida ilustradas por programas de televisão. Lanterna Mágica, Pantanal, Rá-, Tim, Bum, X-Tudo, Mundo da Lua, Castelo Rá-Tim-Bom, Confissões de Adolescente, Vestibulando, Metrópolis, Programa Legal, Vídeo Show, Malhação, Sinhá Moça, Senhora do Destino, Globo Repórter, Fantástico, Pantanal (de novo)... não quero nem voltar a ver nada disso (já tentei, e por isso afirmo: não quero), porque não quero macular essas memórias, todas deliciosas.

Aí vem a fase cabeção, sem TV, achando TV a coisa mais fútil e alienante do mundo. Muitos livros, muitos livros, muitos livros. Teatro, cinema. Cinema europeu, claro, rs... exceções pra Woody Allen e Tarantino, afinal, né... Memórias deliciosas também.

Papo vai, papo vem, acabei conhecendo a antroposofia, pois meu orientador do mestrado estava super envolvido com a escola Waldorf da filha pequena. Aí lacrô! Morte à TV!!!

Quando meu marido e eu estávamos na fase de fazer os acordos de como seria a vida com filhos (sim, sou dessas e faz tempo!), abolir definitivamente a TV de casa era condição inegociável. Veio o filho, foi-se a TV.

O filho cresceu, eu pisquei, e quando vi a criança já assistia vídeos no celular, iPad, computador. Veio o segundo filho, e começou a assistir telas bem mais novo do que o primeiro.

Aí veio a pandemia... ah, a pandemia! Sem escola. SEM ES-CO-LA-A-A-A!!! Os desenhos animados tornaram-se mais frequentes, e justo no momento que as crianças estavam quietas, sem me pedir nada, eu ficava sem meu computador, pois era ali que eles assistiam.

Resolvemos então comprar uma TV.

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[pausa dramática]

Se você tem e sempre teve TV em casa pode não estar entendendo meu drama, mas, acredite, não foi fácil admitir que eu realmente queria uma TV em casa.

E assim foi.

Compramos um bela TV, grandona, com imagem espetacular. As crianças amaram... e eu também!

Pra estrear o novo aparelho, eu e o marido começamos a assistir Outlander e o programa 'colocar crianças na cama e correr pra assistir "nossa novelinha" ' tornou-se cada vez mais delicioso. Antes da TV frequentemente cada um ia pro seu canto (e pra sua tela), depois das crianças dormirem. Agora, com a TV, temos um compromisso juntos, assistimos juntos, comentamos, damos risada (assistimos Modern Family também, rs...), vamos pra cama juntos...

Eu realmente não esperava que a televisão pudesse nos trazer tempos de tanta qualidade (!). Além da óbvia qualidade ergonômica (porque nunca deixamos de assistir umas coisinhas... na tela do celular, segurando iPad, com computador em cima da cama...), mas também a qualidade de tempo juntos, de ter um momento de lazer compartilhado entre o casal e sem crianças, tão raro nesses tempos de distanciamento social, com poucas ajudas pra segurar a onda com os pequenos.

Viva a TV!


sábado, 12 de setembro de 2020

essencial à vida

na busca pela essência, pelo essencial, foi tirando os supérfluos, as superficialidades

descamando, descascando... até onde? O que resta?

viu-se no cerne. Duro. Seco.

na busca pelo que é essencial à vida, caminhou justo em direção à imortalidade do que já não mais vive.

e percebeu que a vida se dá na fluidez, nos fluidos, na água que vem e que vai, não pelo cerne, mas pelas camadas, pelas superfícies

à flor da pele

saindo da madeira dura e seca, percebeu que lá na ponta as flores, em sua imensa variedade de cores e formatos e aromas e tamanhos alimentam a vida, porque vida é diversidade, variedade, criatividade, expressão

a magnitude do que vive não exclui, aceita

vida é aceitação

criação

relação

tudo importa, tudo cabe, tudo pode

o essencial é a amplidão, o espaço

a água, a umidade

o calor, a vitalidade

a respiração

a base

e quem mais chegar

sem limite

Deixa rolar, deixa viver, deixa fluir

e o que sobra?

a vida aceita

e regenera

e revive

tudo flui

onde - e enquanto - há vida

segunda-feira, 6 de julho de 2020

depois da tempestade...


... vem a bonança - diz o ditado.

e depois vem tempestade de novo, e depois mais bonança... e cada uma é de um jeito, tem sua intensidade, sua duração e suas novidades.

a vida é cíclica

e cada ciclo é único

--- se você tem alguma familiaridade com a vida cíclica da fisiologia feminina, vai entender o que vou falar a seguir... e se não tem, pode me perguntar que vou adorar dizer o que tenho conhecido e percebido desse tema ---

nesse meu ciclo [menstrual] aconteceu algo inédito - ou pelo menos inédito segundo essa ótica de percepção. Aconteceu que vivenciei uma TPM em plena fase pré-ovulatória (!!!). Explico: lá estava eu em minha habitual, cíclica e perfeitamente saudável fase pré-menstrual, que traz grandes desafios, principalmente pelo fato de que culturalmente não estamos muito dispostos a olhar e lidar com sombras (pra resumir... como disse acima, falo aqui pra quem já caminhou um pouco nessas terminologias e simbolismos... não porque eu queira restringir "meu público", mas porque se for escrever sobre todos os detalhes não chego onde quero relatar). Enfim, vivenciei minha TPM e eis que chega a menstruação, ah, que alívio! O corpo, a natureza, ajudando a colocar os limites, como que dizendo "ok, agora chega! Hora de mudar o foco".

E como habitual, lá pelo dia #3 eu estava me sentindo plena, disposta, usando as lentes de arco-íris que tanto gosto - e a cultura também, então fica fácil a vida, né?! Aí uma voz me sopra no ouvido "aproveita a disposição e trabalha!". Essa voz é da minha terapeuta, que numa sessão já longínqua me disse que os desafios da TPM são para serem trabalhados ao longo do ciclo, porque senão de fato fica uma sobrecarga impossível de administrar, uma avalanche num curto espaço de tempo, e a gente fica soterrada.

Respirei fundo, arregacei as mangas, prendi o cabelo, e lá fui eu. Revisei as pendências do ciclo anterior, revisitei os temas, li e escrevi, estudei de verdade. E aconteceu o que acontece quando a gente "cutuca" algo: a energia se movimenta, as peças se rearranjam e todo o sistema muda, responde, reage. E aconteceu o que acontece quando a gente não está acostumado, habituado, treinado, a lidar com o que vem, com o inesperado, com a ausência de controle e garantia: BUG. Eu não sei e não vou pesquisar agora qual é exatamente o significado dessa palavra, que acho que vem da computação, mas o que quero dizer é que dá uma pane, uma travada. E aí, seguindo essa minha descrição de ações e reações, quando a gente trava, tensiona, endurece, todos os fluxos se comprometem, a energia fica estagnada em algum ponto, e quanto maior a energia, maiores as chances da barragem se romper e descer aquela água violenta levando tudo que estiver no caminho - e às margens dele!

Reconheço - a meu favor - que em minha trajetória de autoestudo tenho investido esforços em suavizar as barragens. Tudo o que quero é deixar fluir, então minhas barragens realmente não estão lá essas coisas... e por outro lado, tenho investido esforços também em amplificar minha energia, em me conectar com forças acima, abaixo, aos lados, em todas as direções e dimensões. Tá entendendo né?

Fui inocentemente fazer uma lição de casa, e quando me dei conta estava no meio de uma "tromba d´água". Passou. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. Veio a bonança. E o que essa bonança me mostra? Ela me mostra, com fundo de céu azul, árvores derrubadas, galhos quebrados, pedras que rolaram. Ela me mostra, no frescor da manhã, teias de aranha que reluzem cobertas por gotículas. Ela me revela, junto com o agradável cheiro da terra molhada, o trabalho dos inúmeros seres decompositores e toda a matéria orgânica em decomposição.

E consigo acessar todas essas imagens porque já estive de fato em uma tromba d´água, porque já caminhei de verdade em uma floresta e vi clareiras recém abertas por enormes árvores que caíram, porque já revolvi o chão de folhas e galhos úmidos e senti com as minhas mãos a terra se transformando.

"É de manhã/ Vem o sol mais os pingos da chuva que ontem caiu/ Ainda estão a brilhar/ Ainda estão a cantar/ Ao vento alegre que me faz esta canção..." *


A natureza e a arte como bálsamos para as tempestades internas.

E conectando tudo isso, as relações, as parcerias, os espelhos que nos são aqueles seres humanos que se achegam pra compor essa dança.

Mas pra encerrar a história - ou pelo menos esse capítulo dela - quando passou essa minha tempestade e me vi em meio à bonança, lembrei de uma conversa com um amigo, desses que parecem anjos da guarda disfarçados. Na ocasião ele me deu uma percepção de que nosso desenvolvimento seria como engrenagens ascendentes. Cada roda fica girando, ora você está em cima, ora embaixo, e que o grande "pulo do gato" é, estando no topo, pular pra roda acima! A consequência é que você chega nessa outra roda "por baixo"... mas quando subir, vai subir de verdade, e não apenas ficar dando voltas sem sair do lugar.

Esse fenômeno acabou de acontecer comigo!

Uhuuuuuu

=D


* essa referência faço questão de deixar: essa música ecoa em meus ouvidos na divina voz de Milton Nascimento... mas ao pesquisar descobri que trata-se de uma parceria entre Dolores Duran e Tom Jobim. A letra, que me fala ao coração, é dela, e foi um enorme presente conhecer um pouca da história dessa mulher
"ela foi uma compositora e cantora que como poucas tratou das dores de amor e da solidão" Aqui o link onde essa história é contada lindamente.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

a índia e o boto

sua pele morena se alegra ao sol

fica radiante, macia como a paina, apetitosa como fruta madura

seus pés se alegram na terra

no tapete de folhas da floresta, na areia do fundo do rio, nas pedras do alto da montanha

seu corpo se alegra quando corre, quando pula e quando deita

os cabelos soltos, livres como ela

os olhos no alto, nas copas das árvores, nas nuvens, nas estrelas

o coração bate forte e as palavras escapam da boca

quando está com ele

e quando não está também, porque é nele que pensa

ele, dizem, é encantado

mas mal sabem, que seu encanto é por ela

domingo, 24 de maio de 2020

a feiticeira e a canja

era uma vez...

... uma mulher de corpo forte e sereno. Exibe a tranquilidade de quem já viveu o suficiente para saber que "vai passar" e a vitalidade de quem ainda se permite tentar mais uma vez. Uma mulher esguia, de cabelos escuros, lisos e longos, mas presos. O rosto tem suas marcas e os olhos são de quem não deixa escapar nada; sua boca expressiva esboça sorrisos que facilmente se transformam em risadas; e dali saem palavras contundentes. É bom saber disso... você pode até não gostar muito do que ouvir, mas lá no fundo saberá que trata-se da mais pura verdade.

Ela vive em uma casa ampla, com janelas generosas e três portas - ela gosta de ter opções, e caminhos, e horizontes.

Com ela, seus homens; e um bicho, fêmea como ela, guardiã e amiga.

Essa mulher gosta de sopas e hoje resolveu fazer uma canja. Foi até a horta, mesmo sendo noite. Aproveitou para olhar o céu estrelado e se sentir menos só, na companhia das estrelas. Colheu seus temperos e foi para o fogão, que já estava com labaredas empurrando a fumaça chaminé acima - tarefa de homem trazer a lenha e acender o fogo. Picou os legumes, cultivados pelas vizinhas, fortes e serenas como ela. Tê-los ali era uma forma de estarem juntas, pois, embora vizinhas, viviam distantes no espaço, separadas pelas montanhas, riachos, florestas; mas unidas no coração pelas luas, pelas proles, pelas histórias compartilhadas ao pé do fogo e das cachoeiras.

Mas sim, a canja. Um pouco disso, uma pitada daquilo, e ali se faz magia. Uma taça de vinho acompanha. O fogo, a água, a alquimia que vai pra mesa, e pros corpos. Que nutre de minerais e também de ânimo - ânima - alma.

Suas sopas sempre são panelões... talvez na esperança de uma visita que chega pro jantar, entrete as crianças e depois lava a louça enquanto pai e mãe colocam os filhos na cama, para depois os adultos poderem se estender em conversas regadas a vinho ao pé da lareira. Esse, aliás, é um sonho que ela cultiva, e que parece ter flores mais demoradas e delicadas que a camomila que ela plantou há meses e continua apenas verde. O sonho de ter companhias que ajudem a tornar a vida menos árida... companhias que ajudem a tornar os infinitos afazeres domésticos menos duros, companhias que ajudem a dissolver os embates com as crianças, companhias que, por mais paradoxal que pareça, possibilitem momentos de solitude e silêncio.

Porque parece que existe algum número mágico de pessoas necessárias para fazer uma casa funcionar sem exaurir ninguém; parece que existe algum número mágico de proporção entre adultos e crianças (e idosos, e adolescentes) para que todos possam aprender saudavelmente com todos. Ela sabe que esse número mágico é maior que dois adultos; que essa proporção mágica é diferente de dois adultos e duas crianças. E que até mesmo o cachorro talvez careça de companhia.

E ela sabe também que para esse sonho, diferente da camomila que já está plantada, ela não tem ainda nem sementes.