sábado, 12 de setembro de 2020

essencial à vida

na busca pela essência, pelo essencial, foi tirando os supérfluos, as superficialidades

descamando, descascando... até onde? O que resta?

viu-se no cerne. Duro. Seco.

na busca pelo que é essencial à vida, caminhou justo em direção à imortalidade do que já não mais vive.

e percebeu que a vida se dá na fluidez, nos fluidos, na água que vem e que vai, não pelo cerne, mas pelas camadas, pelas superfícies

à flor da pele

saindo da madeira dura e seca, percebeu que lá na ponta as flores, em sua imensa variedade de cores e formatos e aromas e tamanhos alimentam a vida, porque vida é diversidade, variedade, criatividade, expressão

a magnitude do que vive não exclui, aceita

vida é aceitação

criação

relação

tudo importa, tudo cabe, tudo pode

o essencial é a amplidão, o espaço

a água, a umidade

o calor, a vitalidade

a respiração

a base

e quem mais chegar

sem limite

Deixa rolar, deixa viver, deixa fluir

e o que sobra?

a vida aceita

e regenera

e revive

tudo flui

onde - e enquanto - há vida

segunda-feira, 6 de julho de 2020

depois da tempestade...


... vem a bonança - diz o ditado.

e depois vem tempestade de novo, e depois mais bonança... e cada uma é de um jeito, tem sua intensidade, sua duração e suas novidades.

a vida é cíclica

e cada ciclo é único

--- se você tem alguma familiaridade com a vida cíclica da fisiologia feminina, vai entender o que vou falar a seguir... e se não tem, pode me perguntar que vou adorar dizer o que tenho conhecido e percebido desse tema ---

nesse meu ciclo [menstrual] aconteceu algo inédito - ou pelo menos inédito segundo essa ótica de percepção. Aconteceu que vivenciei uma TPM em plena fase pré-ovulatória (!!!). Explico: lá estava eu em minha habitual, cíclica e perfeitamente saudável fase pré-menstrual, que traz grandes desafios, principalmente pelo fato de que culturalmente não estamos muito dispostos a olhar e lidar com sombras (pra resumir... como disse acima, falo aqui pra quem já caminhou um pouco nessas terminologias e simbolismos... não porque eu queira restringir "meu público", mas porque se for escrever sobre todos os detalhes não chego onde quero relatar). Enfim, vivenciei minha TPM e eis que chega a menstruação, ah, que alívio! O corpo, a natureza, ajudando a colocar os limites, como que dizendo "ok, agora chega! Hora de mudar o foco".

E como habitual, lá pelo dia #3 eu estava me sentindo plena, disposta, usando as lentes de arco-íris que tanto gosto - e a cultura também, então fica fácil a vida, né?! Aí uma voz me sopra no ouvido "aproveita a disposição e trabalha!". Essa voz é da minha terapeuta, que numa sessão já longínqua me disse que os desafios da TPM são para serem trabalhados ao longo do ciclo, porque senão de fato fica uma sobrecarga impossível de administrar, uma avalanche num curto espaço de tempo, e a gente fica soterrada.

Respirei fundo, arregacei as mangas, prendi o cabelo, e lá fui eu. Revisei as pendências do ciclo anterior, revisitei os temas, li e escrevi, estudei de verdade. E aconteceu o que acontece quando a gente "cutuca" algo: a energia se movimenta, as peças se rearranjam e todo o sistema muda, responde, reage. E aconteceu o que acontece quando a gente não está acostumado, habituado, treinado, a lidar com o que vem, com o inesperado, com a ausência de controle e garantia: BUG. Eu não sei e não vou pesquisar agora qual é exatamente o significado dessa palavra, que acho que vem da computação, mas o que quero dizer é que dá uma pane, uma travada. E aí, seguindo essa minha descrição de ações e reações, quando a gente trava, tensiona, endurece, todos os fluxos se comprometem, a energia fica estagnada em algum ponto, e quanto maior a energia, maiores as chances da barragem se romper e descer aquela água violenta levando tudo que estiver no caminho - e às margens dele!

Reconheço - a meu favor - que em minha trajetória de autoestudo tenho investido esforços em suavizar as barragens. Tudo o que quero é deixar fluir, então minhas barragens realmente não estão lá essas coisas... e por outro lado, tenho investido esforços também em amplificar minha energia, em me conectar com forças acima, abaixo, aos lados, em todas as direções e dimensões. Tá entendendo né?

Fui inocentemente fazer uma lição de casa, e quando me dei conta estava no meio de uma "tromba d´água". Passou. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. Veio a bonança. E o que essa bonança me mostra? Ela me mostra, com fundo de céu azul, árvores derrubadas, galhos quebrados, pedras que rolaram. Ela me mostra, no frescor da manhã, teias de aranha que reluzem cobertas por gotículas. Ela me revela, junto com o agradável cheiro da terra molhada, o trabalho dos inúmeros seres decompositores e toda a matéria orgânica em decomposição.

E consigo acessar todas essas imagens porque já estive de fato em uma tromba d´água, porque já caminhei de verdade em uma floresta e vi clareiras recém abertas por enormes árvores que caíram, porque já revolvi o chão de folhas e galhos úmidos e senti com as minhas mãos a terra se transformando.

"É de manhã/ Vem o sol mais os pingos da chuva que ontem caiu/ Ainda estão a brilhar/ Ainda estão a cantar/ Ao vento alegre que me faz esta canção..." *


A natureza e a arte como bálsamos para as tempestades internas.

E conectando tudo isso, as relações, as parcerias, os espelhos que nos são aqueles seres humanos que se achegam pra compor essa dança.

Mas pra encerrar a história - ou pelo menos esse capítulo dela - quando passou essa minha tempestade e me vi em meio à bonança, lembrei de uma conversa com um amigo, desses que parecem anjos da guarda disfarçados. Na ocasião ele me deu uma percepção de que nosso desenvolvimento seria como engrenagens ascendentes. Cada roda fica girando, ora você está em cima, ora embaixo, e que o grande "pulo do gato" é, estando no topo, pular pra roda acima! A consequência é que você chega nessa outra roda "por baixo"... mas quando subir, vai subir de verdade, e não apenas ficar dando voltas sem sair do lugar.

Esse fenômeno acabou de acontecer comigo!

Uhuuuuuu

=D


* essa referência faço questão de deixar: essa música ecoa em meus ouvidos na divina voz de Milton Nascimento... mas ao pesquisar descobri que trata-se de uma parceria entre Dolores Duran e Tom Jobim. A letra, que me fala ao coração, é dela, e foi um enorme presente conhecer um pouca da história dessa mulher
"ela foi uma compositora e cantora que como poucas tratou das dores de amor e da solidão" Aqui o link onde essa história é contada lindamente.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

a índia e o boto

sua pele morena se alegra ao sol

fica radiante, macia como a paina, apetitosa como fruta madura

seus pés se alegram na terra

no tapete de folhas da floresta, na areia do fundo do rio, nas pedras do alto da montanha

seu corpo se alegra quando corre, quando pula e quando deita

os cabelos soltos, livres como ela

os olhos no alto, nas copas das árvores, nas nuvens, nas estrelas

o coração bate forte e as palavras escapam da boca

quando está com ele

e quando não está também, porque é nele que pensa

ele, dizem, é encantado

mas mal sabem, que seu encanto é por ela

domingo, 24 de maio de 2020

a feiticeira e a canja

era uma vez...

... uma mulher de corpo forte e sereno. Exibe a tranquilidade de quem já viveu o suficiente para saber que "vai passar" e a vitalidade de quem ainda se permite tentar mais uma vez. Uma mulher esguia, de cabelos escuros, lisos e longos, mas presos. O rosto tem suas marcas e os olhos são de quem não deixa escapar nada; sua boca expressiva esboça sorrisos que facilmente se transformam em risadas; e dali saem palavras contundentes. É bom saber disso... você pode até não gostar muito do que ouvir, mas lá no fundo saberá que trata-se da mais pura verdade.

Ela vive em uma casa ampla, com janelas generosas e três portas - ela gosta de ter opções, e caminhos, e horizontes.

Com ela, seus homens; e um bicho, fêmea como ela, guardiã e amiga.

Essa mulher gosta de sopas e hoje resolveu fazer uma canja. Foi até a horta, mesmo sendo noite. Aproveitou para olhar o céu estrelado e se sentir menos só, na companhia das estrelas. Colheu seus temperos e foi para o fogão, que já estava com labaredas empurrando a fumaça chaminé acima - tarefa de homem trazer a lenha e acender o fogo. Picou os legumes, cultivados pelas vizinhas, fortes e serenas como ela. Tê-los ali era uma forma de estarem juntas, pois, embora vizinhas, viviam distantes no espaço, separadas pelas montanhas, riachos, florestas; mas unidas no coração pelas luas, pelas proles, pelas histórias compartilhadas ao pé do fogo e das cachoeiras.

Mas sim, a canja. Um pouco disso, uma pitada daquilo, e ali se faz magia. Uma taça de vinho acompanha. O fogo, a água, a alquimia que vai pra mesa, e pros corpos. Que nutre de minerais e também de ânimo - ânima - alma.

Suas sopas sempre são panelões... talvez na esperança de uma visita que chega pro jantar, entrete as crianças e depois lava a louça enquanto pai e mãe colocam os filhos na cama, para depois os adultos poderem se estender em conversas regadas a vinho ao pé da lareira. Esse, aliás, é um sonho que ela cultiva, e que parece ter flores mais demoradas e delicadas que a camomila que ela plantou há meses e continua apenas verde. O sonho de ter companhias que ajudem a tornar a vida menos árida... companhias que ajudem a tornar os infinitos afazeres domésticos menos duros, companhias que ajudem a dissolver os embates com as crianças, companhias que, por mais paradoxal que pareça, possibilitem momentos de solitude e silêncio.

Porque parece que existe algum número mágico de pessoas necessárias para fazer uma casa funcionar sem exaurir ninguém; parece que existe algum número mágico de proporção entre adultos e crianças (e idosos, e adolescentes) para que todos possam aprender saudavelmente com todos. Ela sabe que esse número mágico é maior que dois adultos; que essa proporção mágica é diferente de dois adultos e duas crianças. E que até mesmo o cachorro talvez careça de companhia.

E ela sabe também que para esse sonho, diferente da camomila que já está plantada, ela não tem ainda nem sementes.



quinta-feira, 16 de abril de 2020

a casa, as crianças, as mãos e a escrita

hoje faz um mês que estamos reclusos (não sei se essa é a melhor palavra... mas... quero não me preocupar com o que é "melhor", e sim com o que é possível)

um mês sem escola - com duas crianças em casa, 7 e 3 anos
um mês sem empregada - com duas crianças em casa
um mês sem babá (aquela que me proporcionava, uma vez por semana, uma tarde a sós comigo mesma e uma noite a sós com o marido) - com duas crianças em casa
um mês com o marido em home office - com duas crianças em casa
um mês dando aula por videoconferência pela primeira vez na vida - com duas crianças em casa
um mês sem ir à academia, sem ir à terapia (fazendo sessões via trocas de áudios, pelo menos), sem tomar café da manhã na padaria, sem conversar descontraidamente com as amigas, sem poder contar com uma ou outra vó pra deixar as crianças

enfim... um mês com a casa e as crianças! E com o marido, é claro... longas e duras conversas com o marido... a divisão do trabalho, as questões de gênero, a minha necessidade por respiro e espaço, os meus limites em relação ao trabalho dele, os meus anseios em relação ao que possa ser um trabalho meu. Sabe, nenhuma novidade... as pautas são as mesmas, sempre estiveram presentes... mas esse tempero de "não poder" sair de casa traz um colorido todo especial! E deixa os limites gritantes. Literalmente.

e a louça na pia, e a comida por fazer, e a roupa no cesto, na máquina, no varal

eita que o sol já se foi e as crianças precisam ir pro banho!

o que vamos jantar?

hoje consegui varrer a cozinha

os banheiros precisam ser lavados... sábado acho que consigo

e ali no canto, juntando teias de aranha, meus fios e agulhas... a maratona da casa e das crianças não me deixa chegar nesse canto. O que não tem chegado, na verdade, acho que é a inspiração pra fazer algo... até pego as agulhas vez ou outra, começo uma coisa, não vai em frente...  uma criança chama, ou brigam, ou pula em cima de mim, ou me pede pra fazer algo extremamente mirabolante (tipo, um poncho!)... começar e parar é complicado pra mim... quero mergulhar... e não consigo... então não faço

o caderno, diário, até que consigo manter com alguma escrita. Pequenos fragmentos do dia, a cada dois ou três dias pelo menos. Publico vez ou outra alguma frase inspirada nas redes sociais... mas ainda não saciam minha vontade de escrever...

e as mãos não param!

a pele vai ficando seca, as unhas quebradas, haja trabalho manual! Lava, pica, mexe, esfrega, varre, estende, dobra. Trabalho manual, braçal, corporal

e hoje elas encontraram a enxada. Eu estava precisando desse trabalho pesado, a força da lâmina cravando na terra, logo abaixo da touceira de capim [não quero mais o capim ali... quero milho, quero verduras, quero flores]. O braço empurra na direção contrária, fazendo uma alavanca, sai aquele monte de raízes. A mão vai lá, pega a touceira, joga pra fora do canteiro. E vamos pra próxima. A terra está feliz, cada enxadada, uma minhoca! Vou devagar, cubro as minhocas que se retorcem ao sol. O suor escorre no rosto, seco com a camiseta que a criança deixou jogada no caminho. Queria continuar, mas é hora do almoço... não hora de relógio, porque não to nem aí pra relógio, mas a hora da fome mesmo... então é isso, aprender a parar, a mudar... e a retomar. À tarde teve mais enxada, e teve mais hora de parar, sem querer parar

e agora também... preciso parar