A alvorada foi às 4h30 da matina, pois não sei por que a melhor hora para ver os geisers é bem cedinho. Saímos sem tomar café e deu tempo de ver a lua nova se pondo, linda e amarela!
Logo que amanheceu chegamos nas "fumarolas" e é realmente impressionante, principalmente pelo barulho que faz! Aquele vapor todo saindo da terra, bem doido... me deu vontade de saber direito o que acontece, por que é assim... nessas horas é bom um guia... agora vou ter que pesquisar no Google, ô preguiça...
Estava um frio de lascar e mais uma vez batemos cartão, ou melhor, as fotos, e corremos de volta pro carro. Em seguida fomos para as águas termais. É um lugar onde a água chega a 40 graus! Fizeram uma piscininha e àquela hora da manhã, com aquele frio, só tinha europeu dentro d'água! Eu quase me arrependi de não ter entrado, mas estava tão frio, mas tão frio, que eu não conseguia pensar em tirar a roupa, muito menos em sair molhada naquele vento, brrrrrrrr!
Outra parada expressa e continuamos o passeio rumo à Laguna Verde. Nesse caso o fato de ser cedo não foi uma vantagem, pois parece que a lagoa vai ficando verde ao longo do dia. Mesmo assim estava linda e o céu azul com aquelas nuvens especiais contribuíram bastante para o cenário!
Fomos para a Laguna Branca, onde tem um alojamento. O Santiago nos deixou na margem da lagoa e seguiu para preparar o nosso café da manhã. O lugar é absolutamente lindo e o dia estava fantástico! Há uns dois dias que eu não fazia um sádhana e aquele lugar me convocou à prática.
Sem falar nada pra ninguém, sem satisfações nem preparações, sentei e pratiquei. Não olhei no relógio, não deve ter sido mais do que dez minutos, mas foi o suficiente para absorver um pouco daquele lugar, respirar de forma realmente profunda e esticar o corpo.
Esse é o fim do passeio para quem faz a parte boliviana. Ao fundo víamos as montanhas chilenas e argentinas da tríplice fronteira. Tomamos o café da manhã e o Santiago disse para que caminhássemos um pouco mais enquanto ele preparava o carro. Eu e o PC aproveitamos para tirar mais umas fotos e fiz a minha indefectível sessão de fotos de ásanas ;) Haja fôlego e de estômago cheio... não ficou lá essas coisas...
As "macaquices" mais o sol que ia subindo deram um baita de um calor e então lembrei da piscininha de água quente... perguntei pro Santiago se poderíamos parar um pouco lá e ele disse que não, porque a volta pra Uyuni era longa e ele tinha que lavar o carro, etc, etc... insisti, dizendo que seria rapidinho, fiz uma manha, todo mundo ajudou e ele enfim cedeu, ganhando em seguida uma salva de palmas, rs...
A vantagem de estarmos só nós 4 no carro é que as mochilas foram dentro, então tratamos de buscar as roupas de banho, toalhas, chinelos e quando chegamos nas termas foi só pular do carro pra água! (na verdade eu coloquei biquini, mas foi rapidíssimo). Não tinha ninguém no lugar e ficamos com aquela piscininha só pra nós! Sem dúvida o ponto alto do passeio! Fica a dica: se você for fazer o passeio que volta pra Uyuni, pare nas águas termais na volta ;)
A partir desse ponto começou a nossa viagem de retorno, agora por estradas mais "expressas", com paisagens menos exuberantes. Mas não se iluda, as estradas são obviamente todas de terra e foram 4h de sacolejos até a parado pro almoço. Todo mundo meio verde, meio mareado... o que ajudou a abrandar o caminho foi a companhia do Elomar e do Milton Nascimento no iPod. Com trilha sonora aí sim parecia mais que eu estava dentro de um filme.
"Trabalhando o sal é amor é o suor que me sai, vou viver cantando o dia tão quente que faz"
"Veja bem meu patrão, como pode ser bom, você trabalharia no sol e eu tomando banho de mar"
E então Elomar me dá a melhor definição de liberdade: "não ser mais empregado e também não ser patrão"!
Vou devaneando nos solavancos da estrada, que bagunçam os pensamentos e depois encaixam tudo no lugar.
Depois do almoço que pegamos a via expressa, na verdade. Praticamente uma rodovia, mais movimentada e com momentos bem tensos em trechos estreitos com caminhões enormes, rebanhos de lhamas, crianças ou simplesmente desviando de buracos. Duas horas depois, finalmente, chegamos em Uyuni. A cidade estava um caos, pois tinha feira.
Deixamos as mochilas na Colque, deu pra tomar mais um banho de lenços umedecidos e trocar de roupa pra viajar. Acertamos o restante do passeio, descontando aquele primeiro almoço. Tratamos direto com o dono, Dom Félix, e deu tudo certo.
Fomos então achar algo pra comer e caímos em outra muvuca, a dos turistas. A cidade estava realmente fervendo, mochileiros por toda parte, uma pessoa mais esquisita/engraçada que a outra. Mais uma vez foi tranquilíssimo comer sem carne (uma pizza muito boa).
A muvuca continuou no ponto de ônibus, já escurecendo, e aquela sensação de velho oeste. Banheiro, nem pensar. O ônibus era melhorzinho que o da ida, com poltronas xadrez cor de laranja e cortinas amarelas, bem engraçado. Tinha um grupo de brasileiros bastante barulhento, especialmente um cidadão, que ficava falando alto, fazendo piadinhas e brincadeiras com todo mundo, muito desagradável...
Dessa vez não consegui dormir direito, não achava posição na poltrona, tudo meio apertado... o iPod ajudou bastante a abstrair os desconfortos e nas 12h de viagem rolou de Mozart a Natiruts!
Chegando em La Paz, pulamos de um bumba direto pra outro, sem café da manhã, rumo a Copacabana e Isla del Sol, Lago Titicaca.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Bolívia & Peru - Diário de Bordo: Ep. 4 - Uyuni: Poderia ser pior x melhor impossível, dia 2
Como de praxe, acordamos cedo, tomamos o desayuno e empacotamos as coisas. A vida cigana faz com que durmamos cada noite em um lugar e isso ainda vai longe...
Chuva fina que ia e vinha, coreanos pra todos os lados e outro grupo, esse totalmente "multinacional", que estava fazendo o caminho inverso, vindo do Chile: dois brasileiros, três israelenses, três franco-canadenses, um búlgaro e uma irlandesa, se não me falha a memória (algumas coisas eu anoto, outras não...).
Tudo aparentemente certo, nos apresentaram nosso novo motorista e nosso novo carro, com a boa notícia de que iríamos só nós quatro! Reorganizaram os coreanos em outros carros e passaram o bumba pro grupo multinacional... ah, pra quê! A galera ficou revoltadíssima com o ônibus caindo aos pedaços e falaram que só sairiam dali em carros 4x4, conforme fora contratado.
Os motoristas vieram com um papo de que o ônibus seria mais seguro para atravessar o salar, contando uma lorota atrás da outra, mas a galera não arredou o pé e exigiu os carros 4x4. Teve um momento em que eles até ocuparam um dos jipes, que seria dos coreanos. O maior quiprocó e nisso fomos informados de que teríamos que mudar de carro... mais uma vez mudamos toda a bagagem, mas não sem antes verificar se não estavam nos mandando pro bumba!
Tudo certo, fomos pro carro do Santiago e ficamos lá esperando a confusão se resolver. Finalmente partimos, com um bom par de horas de atraso... em comboio, por segurança, por causa da chuva e das más condições das estradas, cinco carros ao todo, até bonito de ver =D
Tudo estava indo bem, até chegar em um trecho de estrada que só passa um carro e, adivinha? Claro que estava vindo outro na direção oposta. Descem todos os motoristas e fazem uma reunião para resolver o que fazer. Nunca estive em uma reunião de condomínio, mas deve ser parecido com aquilo! Todos falam ao mesmo tempo, ninguém resolve nada e chega-se a conclusões lusitanas: os cinco carros voltaram um bom trecho de estrada para que o outro único veículo passasse... ok, podem ter outros fatores envolvidos e jamais questiona-se a decisão do capitão.
A tropa segue e a paisagem muda depressa. Formações geológicas curiosíssimas, picos nevados, vales verdejantes, povoados fantasma, lhamas... subindo, sempre subindo, chegamos aos 4.400 m de altitude!
Foi nesse dia que fui apresentada ao "baño inca". Eu com minha constante vontade de fazer xixi, ao chegar no tal povoado fantasma, escaneei o entorno à procura de um lugarzinho para aliviar a pressão abdominal, por assim dizer. Digo ao Santiago, nosso motorista, que "necesito ir al baño", ao que ele responde, com muita naturalidade, dizendo que era só achar um cantinho atrás de um muro. "El baño inca!", completa ele com um sorriso. Era tudo o que eu queria, um banheiro com cheiro de terra, onde a posição acocorada me permitia total conforto sem tocar em nada!
Paramos pra almoçar em um povoado menos fantasma e tivemos uma mesa só pra nós, com comida só pra nós! Tipo os malas que não se misturam, sabe? Mas, na boa, queria ver o seu senso de socialização com aquele grupo peculiar... nem o PC deu conta!
Continuamos com as paisagens cada vez mais diferentes, com milhares de caminhozinhos semi paralelos e umas pedras empilhadas que deviam representar algum código oculto para indicar a direção correta. Chegamos em um dos principais cartões postais da região, a Árvore de Pedra. Formação bem bonita e diferente, mas estava um vento frio dos infernos, como sempre... algumas fotos e todos de volta pro carro!
Mais algumas horas de sacolejo e chegamos à entrada da Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, onde tem as lagunas, os geisers e as águas termais. Nosso alojamento foi na margem da Laguna Colorada, acima dos 4 mil e lá vai pedrada de altitude.
É preciso pagar Bs 150,00 para entrar na reserva, que não está incluído no pacote, da mesma forma que a Isla Incahuasi (a Colque nos avisou previamente dessas despesas, mas tem agência que não avisa... na Isla você pode não pagar e ficar esperando no carro - óbvio que não é isso que você vai fazer quando viajar horas e horas e horas pra chegar até lá, mesmo porque não são nem 10 reais - mas na reserva não tem jeito, tem que pagar porque o pernoite é lá).
Os brasileiros do grupo que conhecemos no outro alojamento nos alertaram sobre as condições desse... insalubre, definiram. Confesso que tive uma crise entre ter otimismo para "não ser tão ruim assim" e pensar no pior cenário, para me preparar e não criar expectativa... a crise não se resolveu a tempo e foi realmente um choque chegar naquele lugar!
Insalubre, como definiu o conterrâneo; precário, escuro, fedido, sujo, feio, pra descrever melhor. Pelo menos ficamos com um quarto só pra gente (tá vendo, poderia ser pior...); pelo menos o teto era de laje, à prova daquele vento incessante (aí, ó como poderia ser pior...); um dos banheiros era impossível, estampando dejetos seculares nos vasos que certamente nunca receberam um desinfetante, mas no outro (tinha outro!) o álcool gel segurava a onda e dava pra encarar (diz se não poderia ser pior?).
As camas tinham lençóis e cobertores que não era possível identificar a última vez que tinham sido lavados, já que o alojamento recebe grupos novos todo dia e não se vê um lençol no varal! O corredor dos quartos era metade de lajota e metade de terra, onde ficavam as mesas das refeições. O lugar era bem estranho!
Fiquei meio pasma e paralisada dentro do quarto. Todos estávamos bem abalados com o cenário. Até que tive um lampejo: se foi um esforço tremendo pra chegar até aqui e se vou ter que aguentar passar a noite nesse lugar, tem que ter alguma coisa que faça valer a pena!
Peguei a Baronesa (a câmera do PC, pra quem não foi apresentado), coloquei todos os agasalhos que eu tinha e fui ver a tal da Luguna Colorada, afinal, conclusão óbvia, estávamos na margem de um dos lugares mais bonitos do passeio!
Aí sim! Fim de tarde com cores maravilhosas, nuvens extravagantes, lua nova, flamingos. Estava realmente mágico. E então eu me senti tão bem por estar naquele lugar... me senti envolvida pelo céu, pelas nuvens, pelos últimos raios do sol, pela sutileza da lua, pelas águas gélidas da laguna, pelo vento - ah, esse era o que mais envolvia!!! Não demorou muito e o PC se juntou a mim. Tiramos mais algumas fotos, andamos um pouco, conversamos um pouco... e com os corações abastecidos de beleza, voltamos pro nosso alojamento, que já nem parecia assim tão mal ;)
Nessa hora deu uma saudade do Aralume... uma vontade de contar pra todo mundo o que eu estava sentindo... aí corri pro meu mega chique Moleskine que ganhei da mana e fiz uns apontamentos! [Ana, saiu até um desenhinho! :) ]
Tomei um super banho de lenços umedecidos (item indispensável na mala do aventureiro limpinho!), renovei o talco para os pés, o desodorante, a calcinha, passei meu shampoo de lavagem a seco e voilá, outra pessoa! Pra que gastar água?! Na verdade até dava pra tomar um banho e quente (!) por algo do tipo Bs 10,00... mas eu não conseguia nem pensar em tirar a roupa naquele banheiro, pela sujeira e pelo frio!
Não demorou muito e chegou a hora do jantar, que foi à luz de velas (lá tem energia elétrica, mas não tinha lâmpadas suficientes, rs...). Primeiro a sopinha, como sempre. Depois um macarrão com um molho de tomate que você não acredita! Massa e molho separados e um molho encorpado, bem temperado, realmente unbelievable!!! E tinha até queijo ralado! O PC e o Lelo compraram um vinho e a mesa estava realmente muito charmosa.
Depois do jantar um menino veio oferecer pra tocar uma música na zampoña, flauta típica. Só que a flauta era vagabuuuuuuunda, tadinho, de plástico, quase não saia som... demos umas moedas pra ele e dei também a minha outra moeda linda e dourada de R$ 0,25... pensei que se eu fosse uma criança iria gostar de receber uma "moeda de ouro"... falei pra ele que era "una moneda era muy especial"... desejo sinceramente que ele possa ter sonhos e fantasias com aquela moeda...
Depois de escovar os dentes com água mineral, nada de pijama, fui dormir toda encapotada, juntinho com o Paulo Cesar. Melhor impossível!
Notas para segurança e conforto do viajante:
Já exaltei as maravilhas dos lenços umedecidos e volto a repetir. Se você acha que é frescura, beleza, mas pra quem não está acostumado a ficar dois dias sem tomar banho essa pode ser a diferença entre o bom humor e o mau humor. Claro que não é a mesma coisa que água e sabão, mas dá uma sensação de "frescor e limpeza" sim. Da mesma forma, pra quem tem cabelos compridos, o shampoo a seco também é uma mão na roda ;)
Se quiser evitar contaminações indesejadas, álcool gel e lenços de papel sempre à mão. No nosso primeiro almoço "on the road" me senti A cocota ao limpar pratos e talheres com lencinho e álcool gel, mas, na boa, prefiro isso a uma desinteria ou coisa que o valha...
E o mais importante: muita atenção com a água! Compramos litros e litros de água mineral em Uyuni, mas também levamos Hidroesteril. Aprendi com o meu lendário Professor Álvaro Almeida que uma inocente escovada de dentes pode te contaminar se a água for duvidosa, então na hora da higiene bucal, pasta, escova e cantil à postos!
São cuidados que não custam nada, mas que podem assegurar que você vá realmente aproveitar o passeio. Viajar pra passar mal, nunca mais! Isso é coisa de amador e é claro que já fui amadora...
Chuva fina que ia e vinha, coreanos pra todos os lados e outro grupo, esse totalmente "multinacional", que estava fazendo o caminho inverso, vindo do Chile: dois brasileiros, três israelenses, três franco-canadenses, um búlgaro e uma irlandesa, se não me falha a memória (algumas coisas eu anoto, outras não...).
Tudo aparentemente certo, nos apresentaram nosso novo motorista e nosso novo carro, com a boa notícia de que iríamos só nós quatro! Reorganizaram os coreanos em outros carros e passaram o bumba pro grupo multinacional... ah, pra quê! A galera ficou revoltadíssima com o ônibus caindo aos pedaços e falaram que só sairiam dali em carros 4x4, conforme fora contratado.
Os motoristas vieram com um papo de que o ônibus seria mais seguro para atravessar o salar, contando uma lorota atrás da outra, mas a galera não arredou o pé e exigiu os carros 4x4. Teve um momento em que eles até ocuparam um dos jipes, que seria dos coreanos. O maior quiprocó e nisso fomos informados de que teríamos que mudar de carro... mais uma vez mudamos toda a bagagem, mas não sem antes verificar se não estavam nos mandando pro bumba!
Tudo certo, fomos pro carro do Santiago e ficamos lá esperando a confusão se resolver. Finalmente partimos, com um bom par de horas de atraso... em comboio, por segurança, por causa da chuva e das más condições das estradas, cinco carros ao todo, até bonito de ver =D
Tudo estava indo bem, até chegar em um trecho de estrada que só passa um carro e, adivinha? Claro que estava vindo outro na direção oposta. Descem todos os motoristas e fazem uma reunião para resolver o que fazer. Nunca estive em uma reunião de condomínio, mas deve ser parecido com aquilo! Todos falam ao mesmo tempo, ninguém resolve nada e chega-se a conclusões lusitanas: os cinco carros voltaram um bom trecho de estrada para que o outro único veículo passasse... ok, podem ter outros fatores envolvidos e jamais questiona-se a decisão do capitão.
A tropa segue e a paisagem muda depressa. Formações geológicas curiosíssimas, picos nevados, vales verdejantes, povoados fantasma, lhamas... subindo, sempre subindo, chegamos aos 4.400 m de altitude!
Foi nesse dia que fui apresentada ao "baño inca". Eu com minha constante vontade de fazer xixi, ao chegar no tal povoado fantasma, escaneei o entorno à procura de um lugarzinho para aliviar a pressão abdominal, por assim dizer. Digo ao Santiago, nosso motorista, que "necesito ir al baño", ao que ele responde, com muita naturalidade, dizendo que era só achar um cantinho atrás de um muro. "El baño inca!", completa ele com um sorriso. Era tudo o que eu queria, um banheiro com cheiro de terra, onde a posição acocorada me permitia total conforto sem tocar em nada!
Paramos pra almoçar em um povoado menos fantasma e tivemos uma mesa só pra nós, com comida só pra nós! Tipo os malas que não se misturam, sabe? Mas, na boa, queria ver o seu senso de socialização com aquele grupo peculiar... nem o PC deu conta!
Continuamos com as paisagens cada vez mais diferentes, com milhares de caminhozinhos semi paralelos e umas pedras empilhadas que deviam representar algum código oculto para indicar a direção correta. Chegamos em um dos principais cartões postais da região, a Árvore de Pedra. Formação bem bonita e diferente, mas estava um vento frio dos infernos, como sempre... algumas fotos e todos de volta pro carro!
Mais algumas horas de sacolejo e chegamos à entrada da Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, onde tem as lagunas, os geisers e as águas termais. Nosso alojamento foi na margem da Laguna Colorada, acima dos 4 mil e lá vai pedrada de altitude.
É preciso pagar Bs 150,00 para entrar na reserva, que não está incluído no pacote, da mesma forma que a Isla Incahuasi (a Colque nos avisou previamente dessas despesas, mas tem agência que não avisa... na Isla você pode não pagar e ficar esperando no carro - óbvio que não é isso que você vai fazer quando viajar horas e horas e horas pra chegar até lá, mesmo porque não são nem 10 reais - mas na reserva não tem jeito, tem que pagar porque o pernoite é lá).
Os brasileiros do grupo que conhecemos no outro alojamento nos alertaram sobre as condições desse... insalubre, definiram. Confesso que tive uma crise entre ter otimismo para "não ser tão ruim assim" e pensar no pior cenário, para me preparar e não criar expectativa... a crise não se resolveu a tempo e foi realmente um choque chegar naquele lugar!
Insalubre, como definiu o conterrâneo; precário, escuro, fedido, sujo, feio, pra descrever melhor. Pelo menos ficamos com um quarto só pra gente (tá vendo, poderia ser pior...); pelo menos o teto era de laje, à prova daquele vento incessante (aí, ó como poderia ser pior...); um dos banheiros era impossível, estampando dejetos seculares nos vasos que certamente nunca receberam um desinfetante, mas no outro (tinha outro!) o álcool gel segurava a onda e dava pra encarar (diz se não poderia ser pior?).
As camas tinham lençóis e cobertores que não era possível identificar a última vez que tinham sido lavados, já que o alojamento recebe grupos novos todo dia e não se vê um lençol no varal! O corredor dos quartos era metade de lajota e metade de terra, onde ficavam as mesas das refeições. O lugar era bem estranho!
Fiquei meio pasma e paralisada dentro do quarto. Todos estávamos bem abalados com o cenário. Até que tive um lampejo: se foi um esforço tremendo pra chegar até aqui e se vou ter que aguentar passar a noite nesse lugar, tem que ter alguma coisa que faça valer a pena!
Peguei a Baronesa (a câmera do PC, pra quem não foi apresentado), coloquei todos os agasalhos que eu tinha e fui ver a tal da Luguna Colorada, afinal, conclusão óbvia, estávamos na margem de um dos lugares mais bonitos do passeio!
Aí sim! Fim de tarde com cores maravilhosas, nuvens extravagantes, lua nova, flamingos. Estava realmente mágico. E então eu me senti tão bem por estar naquele lugar... me senti envolvida pelo céu, pelas nuvens, pelos últimos raios do sol, pela sutileza da lua, pelas águas gélidas da laguna, pelo vento - ah, esse era o que mais envolvia!!! Não demorou muito e o PC se juntou a mim. Tiramos mais algumas fotos, andamos um pouco, conversamos um pouco... e com os corações abastecidos de beleza, voltamos pro nosso alojamento, que já nem parecia assim tão mal ;)
Nessa hora deu uma saudade do Aralume... uma vontade de contar pra todo mundo o que eu estava sentindo... aí corri pro meu mega chique Moleskine que ganhei da mana e fiz uns apontamentos! [Ana, saiu até um desenhinho! :) ]
Tomei um super banho de lenços umedecidos (item indispensável na mala do aventureiro limpinho!), renovei o talco para os pés, o desodorante, a calcinha, passei meu shampoo de lavagem a seco e voilá, outra pessoa! Pra que gastar água?! Na verdade até dava pra tomar um banho e quente (!) por algo do tipo Bs 10,00... mas eu não conseguia nem pensar em tirar a roupa naquele banheiro, pela sujeira e pelo frio!
Não demorou muito e chegou a hora do jantar, que foi à luz de velas (lá tem energia elétrica, mas não tinha lâmpadas suficientes, rs...). Primeiro a sopinha, como sempre. Depois um macarrão com um molho de tomate que você não acredita! Massa e molho separados e um molho encorpado, bem temperado, realmente unbelievable!!! E tinha até queijo ralado! O PC e o Lelo compraram um vinho e a mesa estava realmente muito charmosa.
Depois do jantar um menino veio oferecer pra tocar uma música na zampoña, flauta típica. Só que a flauta era vagabuuuuuuunda, tadinho, de plástico, quase não saia som... demos umas moedas pra ele e dei também a minha outra moeda linda e dourada de R$ 0,25... pensei que se eu fosse uma criança iria gostar de receber uma "moeda de ouro"... falei pra ele que era "una moneda era muy especial"... desejo sinceramente que ele possa ter sonhos e fantasias com aquela moeda...
Depois de escovar os dentes com água mineral, nada de pijama, fui dormir toda encapotada, juntinho com o Paulo Cesar. Melhor impossível!
Notas para segurança e conforto do viajante:
Já exaltei as maravilhas dos lenços umedecidos e volto a repetir. Se você acha que é frescura, beleza, mas pra quem não está acostumado a ficar dois dias sem tomar banho essa pode ser a diferença entre o bom humor e o mau humor. Claro que não é a mesma coisa que água e sabão, mas dá uma sensação de "frescor e limpeza" sim. Da mesma forma, pra quem tem cabelos compridos, o shampoo a seco também é uma mão na roda ;)
Se quiser evitar contaminações indesejadas, álcool gel e lenços de papel sempre à mão. No nosso primeiro almoço "on the road" me senti A cocota ao limpar pratos e talheres com lencinho e álcool gel, mas, na boa, prefiro isso a uma desinteria ou coisa que o valha...
E o mais importante: muita atenção com a água! Compramos litros e litros de água mineral em Uyuni, mas também levamos Hidroesteril. Aprendi com o meu lendário Professor Álvaro Almeida que uma inocente escovada de dentes pode te contaminar se a água for duvidosa, então na hora da higiene bucal, pasta, escova e cantil à postos!
São cuidados que não custam nada, mas que podem assegurar que você vá realmente aproveitar o passeio. Viajar pra passar mal, nunca mais! Isso é coisa de amador e é claro que já fui amadora...
Bolívia & Peru - Diário de Bordo: Ep. 4 - Uyuni: Poderia ser pior x melhor impossível, dia 1
Carros prontos, finalmente partimos. A primeira parada é bem perto da cidade, no vilarejo de Colchani, onde é feito o processamento do sal extraído do grande Salar de Uyuni.
Ao entrar na salinha onde empacotam o sal, a cena é de gelar a espinha: um monte de sal, um bujão de gás com um maçarico aceso, duas pessoas enchendo saquinhos plásticos e lacrando no maçarico e uma criança de no máximo 3 anos brincando no meio disso tudo, a uma proximidade do fogo que faz com que ninguém preste atenção nas explicações do guia. Não podia tirar foto...
Comprei meio quilo do sal de Uyuni (Bs 1,00) para tomar banho na virada do ano. Faz tempo que não faço mandingas, mas essa eu resolvi que faria logo que começamos a planejar a viagem!
Sem mais delongas, fomos pro salar. Sessão informações geoculturais expressas: o Salar de Uyuni é a maior planície salgada do mundo, com 12 mil km2, e está a uma altitude de aproximadamente 3.600 m.
O dia estava absolutamente lindo, com um céu azul ornado por nuvens das mais variadas formas! Depois de dias cinzas e chuvosos em La Paz foi um verdadeiro presente desfrutar de sol e céu azul!
A próxima parada foi no antigo Hotel de Sal, que hoje é um museu, mas não nos cativou, então nem entramos. Aí tem uma ilhota cheia de bandeiras e é onde o pessoal faz aquelas fotos brincando com a perspectiva... também não fizemos... sei lá, estava meio entediante...
Continuamos então para a Isla Incahuasi (morada do Inca, em quechua). É uma formação bem peculiar, com muitos cactus e todo um simbolismo dentro da cultura incaica. Paga-se Bs 30,00 para fazer a pequena trilha e há banheiros e uma lanchonete.
A próxima parada foi no antigo Hotel de Sal, que hoje é um museu, mas não nos cativou, então nem entramos. Aí tem uma ilhota cheia de bandeiras e é onde o pessoal faz aquelas fotos brincando com a perspectiva... também não fizemos... sei lá, estava meio entediante...
Continuamos então para a Isla Incahuasi (morada do Inca, em quechua). É uma formação bem peculiar, com muitos cactus e todo um simbolismo dentro da cultura incaica. Paga-se Bs 30,00 para fazer a pequena trilha e há banheiros e uma lanchonete.
Aí sim, depois de horas e horas dentro de ônibus e carro, não pensamos duas vezes e fomos esticar as pernas na trilha, que proporciona vistas incríveis do salar e das montanhas e vulcões que o circundam. O passeio começava a ficar mais animador! Na parte mais alta tem uma "praça" com um "mandinguinha" pra Pachamama. Sem hesitar, peguei a moeda de R$ 0,25 mais linda e dourada que eu tinha na carteira (não sei porque tinha, mas tinha) e depositei minha oferenda. Banho de sal, moeda pra Pachamama... calma, o misticismo parou por aí!
Voltamos da trilha ávidos pelo almoço que nos havia sido prometido, mas nada ainda. Fomos pra lanchonete, o pessoal tomou cerveja, coca cola, comemos umas batatinhas do nosso lanche... até que o motorista vem nos chamar pro almoço.
Tinha várias pessoas almoçando na "praia" da ilha. O pessoal das agências monta umas mesinhas e serve a comida ali (lembre-se de que todas as refeições estão inclusas no pacote). Mas quando chegamos no canto do nosso grupo, que desespero! Imagine 23 coreanos esfomeados atacando duas panelas de arroz com sei lá o que. Não tinha nem como chegarmos perto da comida, que também nem parecia muito apetitosa.
Voltamos pra tal lanchonete, mas não havia mais refeição... com alguma insistência conseguimos 4 sanduíches de ovo a Bs 20,00 cada. Esse foi nosso almoço!
Claro que reclamamos com deus e o mundo, mas nosso motorista era terceirizado e o outro motorista do grupo foi bem grosso, dizendo que era daquele jeito mesmo e só faltando nos chamar de frescos (se bem que pode até ter chamado, porque não entendi tudo que ele disse :S ). Ah, sim, se você teve a perspicácia de fazer uma continha deve ter percebido que estão faltando motoristas, afinal, o nosso grupo de 4 "normais" + 23 coreanos precisaria de 5 carros. O detalhe é que a agência colocou os 21 coreanos em um ônibus torto e caindo aos pedaços, por isso que só tínhamos dois motoristas... (esse ônibus ainda vai dar o que falar, aguarde...).
Continuamos então a viagem, de mais umas duas horas pelo salar. Rota extremamente reta e plana, paisagem branca... deu até pra tirar uma soneca! Antes de sair do salar o motorista parou em um lugar incrível, onde tem uma fina lâmina de água sobre o sal, formando um imenso e lindo espelho! Algumas fotos e continuamos a jornada até o nosso alojamento, que fica na margem do salar.
Chegamos antes do busão dos coreanos e conseguimos ficar só nós 4 em um quarto, que é para 6 pessoas e tem "baño privado", o que foi a grande vitória do dia! Mas fomos informados de que não haveria água para tomar banho, pois o caminhão pipa não tinha vindo encher o reservatório... tudo bem, eu nem contava com banho mesmo...
Só que aí o Lelo, em um impulso desesperado e rebelde, toma banho! Sai ele do banheiro, com aquele cheiro de sabonete, cabelo molhado e uma cara malandra, e diz: "se abrir um fiozinho de água e fizer jogo rápido, dá pra tomar banho". Criamos coragem e fomos. Água fria, é claro. Com ou sem racionamento seria um banho de gato, como foi. Mas foi ótimo!
Ah, quando o motorista nos deixou no alojamento, nos apresentou ao Sr. Hélio, o "chefe da baiuca" e contou o episódio do almoço. O Sr. Hélio foi super atencioso, nos ofereceu "té con galletitas" e disse que no jantar teríamos uma mesa separada e também que mandaria o almoço do dia seguinte separado. As coisas estavam melhorando bastante!
Apesar das mancadas da Colque, a vantagem é que eles tem um alojamento próprio, enquanto que as outras empresas alugam umas casinhas mais, digamos, rústicas.
Saímos para dar uma volta no povoado, vimos pela primeira vez uma plantação de quinua de perto (a pronúncia quechua de quinua é com a tônia no i) e logo fugimos do vento gelado. O jantar foi muito bom e mais uma vez o fato de ter vegetarianos no grupo não foi problema pra ninguém. Compramos um Twix por Bs 10,00 e fomos dormir contentes!
sábado, 7 de janeiro de 2012
Bolívia & Peru - Diário de Bordo: Ep. 3 - Começa a aventura
Ok, chega de táxis, aeroportos, hoteis e restaurantes. É hora de botar o pé na estrada! A primeira aventura do nosso roteiro é a expedição de três dias pelo Salar de Uyuni e arredores, caminho que vai dar no deserto de Atacama, no Chile. Optamos por fazer só a parte boliviana, para encaixar tudo no programa e também porque o Chile é meio caro...
A ideia inicial era irmos de La Paz para Potosí de ônibus e de lá pegar um trem pra Uyuni, mas nas últimas semanas que antecediam a viagem ficamos sabendo que a empresa de trem estava paralisada, sem previsão de retorno, então mudamos um pouco os planos e resolvemos fazer todo o trecho La Paz/Uyuni de ônibus (empresa Panasur, que tem site e cujo funcionário Alberto foi muito solícito na comunicação por e-mail. O preço da passagem ficou em Bs 100,00 por trecho, ou seja R$ 57,00 ida e volta por pessoa).
Demos adeus ao estilo burguês fazendo nossos lanches de viagem nos bancos da rodoviária! O Lelo segurando o pote de requeijão, a Thássia me dando as fatias de provolone, eu montando os lanches e o PC segurando o pão e os lanches prontos. Em dez minutos tínhamos deliciosos sanduiches dois queijos com pão integral ;)
Faz parte também de abandonar o estilo burguês encarar banheiro de rodoviária! Mas até que não era dos piores: Bs 0,50 com direito a papel higiênico.
E os degraus da aventura, que nos distanciam da burguesia, vão avançando... chega a hora de conhecer o bumba... oh céus! Eu juro que pensei que teria algo mais parecido com os ônibus que pego para ir de Itu a São Paulo... mas era BEM mais simplesinho... na verdade, pra um ônibus que faz uma viagem de 12 horas eu diria que ele é "simplesinho demais"!
A Thássia e o Lelo que sofreram mais, pois ficaram do lado do banheiro (que por sinal não tinha nem água, nem sabonete, nem papel - ok, esses dois últimos são puro luxo, mas nem água?!).
Saímos de La Paz no finalzinho da tarde e deu pra ver o céu "estrelando" e uma lua nova linda. Vimos também os picos nevados ao redor da cidade. Aí o jeito foi ligar o iPod e descontrair. Até que consegui dormir bem... de vez em quando acordava, o iPod silencioso, aí colocava outro disco e logo dormia de novo.
Lá pela 1h da madrugada o ônibus faz uma parada em um lugar XYZ. Mal o motorista abre a porta eu já corro pro banheiro! A frequência com que preciso fazer xixi chama a minha atenção e eu nem estou bebendo tanta água assim... não sei se tem a ver com a altitude, mas é bem inconveniente ter que ir no banheiro quase que de hora em hora! Inconveniente porque muitas vezes não há banheiro ou quando há, minha nossa, que malabarismo para não encostar em nada e abstrair os cheiros! Tem hora que nem o álcool gel salva...
Comemos um lanchinho (dos nossos, claro!) e logo já temos que voltar pro bumba. Mais uma hora de estrada e começa o trecho de terra. Cinco horas de solavancos! Até que consegui dormir também, me sentindo naquelas cadeirinhas de bebê que tremem, rs... mas tinha hora que eu acordava com o ônibus inclinando pra um laaaado, depois pro oooooutro, vencendo os buracos que eu só imaginava naquele breu de escuridão.
Depois que o sol nasceu deu pra entender melhor a paisagem, plana e árida. Mais algumas horas e finalmente chegamos a Uyuni, uma cidadezinha digna de cenário de filme de velho oeste!
Fomos até o escritório da agência que contratamos o passeio (Colque Tours, Bs 700,00 pelo passeio de 3d/2n. Pagamos 20% no Brasil, para fazer a reserva, via Western Union) e lá estava nossa reserva bonitinha (ufa!). Deixamos as mochilas por lá e fomos tomar café da manhã (de Bs 15,00 a Bs 25,00 dependendo do tipo de café). Ao voltar para o escritório, nos deparamos com um barulhento grupo de coreanos, mal educados e com bafo de alho!
Fomos informados de que dois coreanos iriam com a gente no carro, que é pra 6 pessoas mais o motorista. Claro que com isso deduzimos que ficaríamos o tempo todo com aquele bando de coreanos (23 fomos saber mais tarde) e deu um certo desespero. Ficamos encolhidos em um cantinho da agência esperando a hora de sair...
Nisso surge um casal, que até pensamos ser brasileiros, mas depois fomos ver que eram chilenos. Puxamos papo e eles disseram que a moça da agência tinha colocado eles no nosso carro! Foi uma euforia e um alívio sem tamanho no grupo! Chegou o carro, colocamos as mochilas em cima, entramos, todos felizes por terem se livrado dos coreanos, até que... vem a moça da agência pedir para preenchermos uma ficha... e então ela "descobre" que os chilenos estavam fazendo o passeio que vai até o Chile e nós retornaríamos pra Uyuni...
Balde de água gelada na cabeça e lá vamos nós pro carro dos coreanos... respirei fundo e tratei de sintonizar com um sentimento de cordialidade, afinal, ficaríamos juntos por três dias! Colocaram um rapaz e uma moça conosco, que pelo menos falavam inglês and it was nice to waste a litlle of my poor and rusty english!
E isso é só o começo...
A ideia inicial era irmos de La Paz para Potosí de ônibus e de lá pegar um trem pra Uyuni, mas nas últimas semanas que antecediam a viagem ficamos sabendo que a empresa de trem estava paralisada, sem previsão de retorno, então mudamos um pouco os planos e resolvemos fazer todo o trecho La Paz/Uyuni de ônibus (empresa Panasur, que tem site e cujo funcionário Alberto foi muito solícito na comunicação por e-mail. O preço da passagem ficou em Bs 100,00 por trecho, ou seja R$ 57,00 ida e volta por pessoa).
Demos adeus ao estilo burguês fazendo nossos lanches de viagem nos bancos da rodoviária! O Lelo segurando o pote de requeijão, a Thássia me dando as fatias de provolone, eu montando os lanches e o PC segurando o pão e os lanches prontos. Em dez minutos tínhamos deliciosos sanduiches dois queijos com pão integral ;)
Faz parte também de abandonar o estilo burguês encarar banheiro de rodoviária! Mas até que não era dos piores: Bs 0,50 com direito a papel higiênico.
E os degraus da aventura, que nos distanciam da burguesia, vão avançando... chega a hora de conhecer o bumba... oh céus! Eu juro que pensei que teria algo mais parecido com os ônibus que pego para ir de Itu a São Paulo... mas era BEM mais simplesinho... na verdade, pra um ônibus que faz uma viagem de 12 horas eu diria que ele é "simplesinho demais"!
A Thássia e o Lelo que sofreram mais, pois ficaram do lado do banheiro (que por sinal não tinha nem água, nem sabonete, nem papel - ok, esses dois últimos são puro luxo, mas nem água?!).
Saímos de La Paz no finalzinho da tarde e deu pra ver o céu "estrelando" e uma lua nova linda. Vimos também os picos nevados ao redor da cidade. Aí o jeito foi ligar o iPod e descontrair. Até que consegui dormir bem... de vez em quando acordava, o iPod silencioso, aí colocava outro disco e logo dormia de novo.
Lá pela 1h da madrugada o ônibus faz uma parada em um lugar XYZ. Mal o motorista abre a porta eu já corro pro banheiro! A frequência com que preciso fazer xixi chama a minha atenção e eu nem estou bebendo tanta água assim... não sei se tem a ver com a altitude, mas é bem inconveniente ter que ir no banheiro quase que de hora em hora! Inconveniente porque muitas vezes não há banheiro ou quando há, minha nossa, que malabarismo para não encostar em nada e abstrair os cheiros! Tem hora que nem o álcool gel salva...
Comemos um lanchinho (dos nossos, claro!) e logo já temos que voltar pro bumba. Mais uma hora de estrada e começa o trecho de terra. Cinco horas de solavancos! Até que consegui dormir também, me sentindo naquelas cadeirinhas de bebê que tremem, rs... mas tinha hora que eu acordava com o ônibus inclinando pra um laaaado, depois pro oooooutro, vencendo os buracos que eu só imaginava naquele breu de escuridão.
Depois que o sol nasceu deu pra entender melhor a paisagem, plana e árida. Mais algumas horas e finalmente chegamos a Uyuni, uma cidadezinha digna de cenário de filme de velho oeste!
Fomos até o escritório da agência que contratamos o passeio (Colque Tours, Bs 700,00 pelo passeio de 3d/2n. Pagamos 20% no Brasil, para fazer a reserva, via Western Union) e lá estava nossa reserva bonitinha (ufa!). Deixamos as mochilas por lá e fomos tomar café da manhã (de Bs 15,00 a Bs 25,00 dependendo do tipo de café). Ao voltar para o escritório, nos deparamos com um barulhento grupo de coreanos, mal educados e com bafo de alho!
Fomos informados de que dois coreanos iriam com a gente no carro, que é pra 6 pessoas mais o motorista. Claro que com isso deduzimos que ficaríamos o tempo todo com aquele bando de coreanos (23 fomos saber mais tarde) e deu um certo desespero. Ficamos encolhidos em um cantinho da agência esperando a hora de sair...
Nisso surge um casal, que até pensamos ser brasileiros, mas depois fomos ver que eram chilenos. Puxamos papo e eles disseram que a moça da agência tinha colocado eles no nosso carro! Foi uma euforia e um alívio sem tamanho no grupo! Chegou o carro, colocamos as mochilas em cima, entramos, todos felizes por terem se livrado dos coreanos, até que... vem a moça da agência pedir para preenchermos uma ficha... e então ela "descobre" que os chilenos estavam fazendo o passeio que vai até o Chile e nós retornaríamos pra Uyuni...
Balde de água gelada na cabeça e lá vamos nós pro carro dos coreanos... respirei fundo e tratei de sintonizar com um sentimento de cordialidade, afinal, ficaríamos juntos por três dias! Colocaram um rapaz e uma moça conosco, que pelo menos falavam inglês and it was nice to waste a litlle of my poor and rusty english!
E isso é só o começo...
domingo, 1 de janeiro de 2012
Bolívia & Peru - Diário de Bordo: Ep. 2 - (ham)burguesa en La Paz
Hamburguesa foi a primeira refeição em La Paz, no restaurante vegetariano Tierra Sana (claro, só lá eu comeria uma hamburguesa). Mas o trocadilho se justifica pelo nosso "travel style" na capital administrativa da Bolívia*, que foi mais de burgueses do que de mochileiros aventureiros (*a capital "de verdade" é Sucre... mas confesso que não entendi muito bem a diferença...).
O câmbio favorável (R$ 1,00 = Bs 3,50) nos proporcionou ficar em um hotel confortável, andar de táxi pra cima e pra baixo (de Bs 10 a Bs 20 cada trecho, fora pro aeroporto, que fica na babilônia de El Alto e aí o táxi custa Bs 70) e comer em restaurantes charmosos.
O destaque gastronômico de La Paz fica por conta dos restaurantes que formam o 4 Corners, um "agrupamento" de ótimas opções, incluindo o já citado vegetariano, um mexicano (La Cueva), um internacional café e restaurante (Sol y Luna) e mais outros três que acabamos não indo. Claramente lugares para turista mas, ah, como é bom ser tratada como turista de vez em quando, rs...
Pra não dizer que não provamos das delícias locais, fomos também ao Marbela, que tem comida típica boliviana, onde tomei uma sopa de quinua, entre otras cositas.
Ainda no quesito alimentação, fiquei muito bem impressionada com a naturalidade e facilidade com que tratam os vegetarianos. Não só em La Paz, mas pelos outros lugares onde passamos (incluindo a remota mas efervescente Uyuni), é muito comum ter um cardápio vegetariano em todo restaurante, ou quando não tinha, ao falar que não como carne nunca recebi uma careta ou expressão do tipo de-que-planeta-você-veio?! Também não topei com nenhuma esquisitice de soja, mas comi ovo pra caramba!
Seguindo com as impressões sobre La Paz, tenho que falar do trânsito! Só não ficou em primeiro lugar porque comida pra mim sempre está em primeiro lugar, hehe! O trânsito é caótico, todo mundo buzina o tempo todo, eles desconhecem seta, não existe o conceito de preferencial (vai que tem coragem!), tem muita van, ônibus e táxi e muitos carros grandes, tipo jipe 4x4, com aqueles "mata-cachorros" agressivos. Os carros são "enfeitados" e fica tudo muito brega (aliás, comentário de burguesa: a decoração de Natal era um insulto a qualquer senso estético e os dois shoppings que visitamos eram de uma breguice sem tamanho! Ah, antes que você ache que eu virei burguesa de vez e agora viajo para ir a shopping, nos dois dias que ficamos em La Paz era feriado e estava TUDO fechado, mas adivinha o que estava aberto?! Afortunadamente, graças ao 4 Corners nos livramos do mico de comer em praça de alimentação! Ah, sim, era feriado nos dois dias porque um deles era 25/12, perfeitamente compreensível, só que como caiu em um domingo, passaram o feriado pra segunda-feira, é mole?!).
Mas concluindo a história do trânsito, se for a La Paz, sempre olhe para os dois lados ao atravessar a rua e também esqueça que existe seta, porque eles viram a qualquer momento. E pense 1.000 vezes antes de se aventurar a dirigir por lá!
Continuando nosso passeio de burgueses, fomos de táxi conhecer uma das atrações locais, o Vale de la Luna. O lugar é realmente bem bacana, com formações geológicas interessantes e de onde é possível ter uma vista legal da cidade, com suas casas sem reboque e picos nevados ao longe.
De forma geral, gostei de La Paz, mas não sei se aguentaria ficar lá por muito tempo... a cidade tem uma decadência no ar, evidenciada por prédios mal conservados, cheiro de xixi nas ruas, carros velhos... sem falar nas pessoas com um ar sofrido, pele queimada de sol e pés seminus num frio chuvoso, carregando crianças nas costas, nos braços ou simplesmente deixando com que as sigam em seus passos apressados.
Por fim, outra coisa que me chamou a atenção foi a presença de pichações políticas, coisa que há muito não vejo no Brasil (vejo sim pichações, mas de puro vandalismo). Há também uma certa organização e valorização das populações tradicionais/indígenas. Valorização em termos de orgulho e exaltação dessa cultura.
O ar decadente, mas politizado, junto com o trânsito caótico e uma certa falta de higiene me deram a impressão de que La Paz pode ser uma mistura da Índia com Cuba, embora eu nunca tenha estado nesses países!
* a ideia do título da postagem e a foto que a ilustra são da Thássia, companheira de aventura, burguesa e rústica na medida certa!
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