domingo, 29 de dezembro de 2024

verão

 verão no litoral SP/RJ = chuva, calor, muita gente

estradas e praias cheias

a pandemia me ensinou a apreciar as pessoas na praia, a celebrar nossa alegria por estarmos na praia, por termos condições - físicas e financeiras - de estar na praia

desde lá, é como se todas as pessoas da praia estivessem comigo numa grande festa

(e não estão?!)

mas dessa vez, nessa temporada, eu preferiria não estar numa festa... no mar, sim; na praia, sim, mas não na festa da praia

tenho tanto a dizer e festa não é lugar de "dizer" nada

festa é lugar pra "falar" - e ai que preguiça de "falar"

festa é pra "estar" - não é nem pra "ser"

e, céus, como preciso ser!

.

existe um mau humor me habitando, uma irritação

as bagunças alheias estão me irritando, como que escancarando os "fora de lugar" que me habitam

-- a casa tem duas pias e depois do almoço (adivinha?) ambas estavam cheias de louça; respirei fundo e encarei a missão; meu humor foi acalmando, a irritação cedeu lugar a uma leveza que até cantei; pelo menos fora de mim algo está em ordem

.

sabe, gente, não é que eu cancelei o Natal

eu só estou reivindicando o Natal pra mim

não é que eu não goste de Natal

pelo contrário!

essa época é tão especial e importante pra mim (ainda estou descobrindo os porquês) que preenche-la com excessos é ultrajante, chega a ser uma violência

eu quero poder meditar em paz, sem ter que cumprir cronogramas intermináveis de compras & comidas & compras de comidas (e bebidas, claro)

eu quero ter tempo e espaço pra fazer as minhas reflexões, olhar o ano que passou, celebrar as conquistas, primeiro comigo, depois (no réveillon?!) com as pessoas que estão em volta

mas também não me tomem a virada de ano, por favor

uma festa singela, pequena, poucas pessoas, pra não ter que fazer aquele mundaréu de comida, que faz a gente passar horas na cozinha (antes e depois) e que invariavelmente termina em desperdício, e se tem coisa que me entristece é desperdício

quanto às pessoas, sem hierarquias, simplesmente as que estiverem por perto, as que puderem, as que toparem

sem o peso do "tem que estar", "tem que ir", "tem que chamar"

e a virada do ano é só a metade da época meditativa, introspectiva

eu quero poder começar janeiro, começar o ano, com tempo e espaço pra entender o quero fazer nesse ano

eu quero poder escrever, abrir oráculos, tomar banhos de ervas, usar óleos, fazer exercícios, correr, tomar sol, comer bem

eu quero poder sentir que estou de férias, que posso acordar sem ter toda uma agenda me esperando

e, sabe, eu sou capaz de fazer tudo isso, de criar todos esses momentos

eu não to pedindo que as pessoas em volta façam nada

eu só to pedindo pra que respeitem meu espaço, meu tempo, minhas vontades

-- por que se ausentar das confraternizações familiares soa tão aviltante?!

as reações que me chegam são dignas das mais extremas rebeldias

de fato... é extremamente rebelde dizer não

não vou

não quero

não gosto

quando na verdade o que eu gostaria de dizer seria:

eu fico

quero estar a sós comigo mesma

as liturgias que fazem sentido pra mim são outras

e sabe o quê?

eu precisava justamente desse tempo/espaço pra poder elaborar essa clareza dentro de mim

pra conseguir comunicar com delicadeza

pra proteger meu território sem precisar empunhar armas

-- pra ter os chakras suficientemente alinhados a fim de tecer uma conversa diplomática

.

esse foi o terceiro Natal de luta entre fronteiras

não sei se será o último, mas essa trilogia está encerrada

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Vivência de Vela e Vida a Bordo #7

7 é meu número da sorte (o dia que nasci)! E hoje, 22 de novembro, é aniversário da minha Mestra da vela, Lucimara Marcelino, musa inspiradora, fada madrinha, amor à primeira vista; não foi quem que me abriu as portas da vela, mas foi definitivamente a pessoa que me colocou pra dentro desse mundo, antes tão inalcançável. Lu, a você dedico o relato dessa cabalística 7a Vivência de Vela e Vida a bordo - nome que você criou e que adotei imediatamente!

Antes de começar, explico o que é uma VVV: estar a bordo, faça chuva ou faça sol, com muito vento, pouco vento ou nenhum vento; cuidar de ter boas comidas, boas bebidas e boa música; viver essa casa flutuante em seus pormenores; conviver com quem estiver junto, compartilhando histórias, crises, risadas, estudos. E, claro, foco em velejar. Por enquanto, restrita a mulheres. Sem cônjuges, sem filhos. É um tempo-espaço protegido para que possamos aprender e praticar, sem precisar lutar ou nos defender. É uma preciosidade.

Pois bem, essa sétima VVV foi a minha segunda enquanto comandante (nas 3 primeiras estávamos sob o comando da Lucimara; outras 2 foram comandadas pela também maravilhosa Carla Lopes; e então finalmente me senti segura para ser a pessoa mais experiente a bordo).

Como tripulantes dessa vez, Nívea e Cacá, ambas indo pela 2a vez.


Embarcamos no nosso querido veleiro Ka Mua (Delta 36), que fica no Saco da Ribeira/Ubatuba, no dia 19/11, terça-feira, às 17h e rumamos para a Ilha Anchieta, onde pernoitamos, na Praia do Engenho.


Navegação (motor) e ancoragem tranquilas; pro jantar um menu girl power: salmão e vinho rosé (é brincadeira, mas é verdade, rs...). Saladinha de folhas verdes com manga, tudo muito cuidadoso, preparado pela Ni.

No dia seguinte de manhã partimos pro nosso destino da temporada: Ilha das Couves. Navegando por mares nunca dantes navegados! Içamos a vela mestra ainda na ancoragem e deixei com o 1o rizo, nem tanto pelo vento, que tinha previsão de ser fraco, mas pra praticar mesmo. Assim que colocamos o barco no rumo abrimos a genoa e desligamos o motor. Vento de uns 7 nós com rajadas de 10/12, uma delícia! Loguinho soltamos o rizo e terminamos de subir a vela grande.


Dia espetacular, mar tranquilo. Fomos em orça fechada, timoneando o tempo todo. Nívea e Cacá se revezaram no timão e eu fiquei na trimagem. Vento e rumo conversaram harmoniosamente e só precisamos dar um bordo já no través da Ilha das Couves, bem pertinho. Logo enrolamos a genoa e ligamos o motor, porque ainda não domino a ancoragem a vela (ai se esse texto chega no Tio Spinelli, que vergonha!).


Fizemos um bom lanche e desembarcamos a tempo de conseguir uma cerveja no bar que já estava fechando as portas. Os últimos visitantes logo foram embora e a ilha ficou só pra nós! Uma pena que o sol foi embora junto, mas mesmo com céu nublado a cor da água é de uma transparência cristalina.


De volta ao Ka Mua, banho na popa, o contemplar do fim da tarde que trouxe uma chuvinha leve, um happy hour com espumante, queijos, salame. Não dá pra querer mais nada nessa vida! O jantar foi preparado pela Cacá, um macarrão com cogumelos e alho poró, MARA. Uma boa prosa e cada uma no seu canto.



Importante mencionar que pra fazer essa rota e ancoragem inéditas, pesquisei com navegadores mais experientes, dentre eles o Ricardo, companheiro da Lucimara, que nos encontrou no café da Ribeira pra conversar e foi monitorando à distância nossa ancoragem. Ele até pediu um vídeo 360 graus pra avaliar junto comigo direção do vento e condição do mar. Um fofo!

Só tinha o nosso barco pernoitando ali e um casal que acampou na ilhota. Sossego total! Acordei duas vezes na madrugada pra checar a ancoragem e fui presenteada com uma bela lua e céu estrelado. O dia começou ensolarado, o verde mais verde.


Os visitantes começaram a chegar e logo foi a nossa vez de curtir a praia, lagartear, descansar. Almoçamos no Bar das Pipocas e, cumprindo o cronograma, pegamos o bote 12h30. O mar estava mais animado que no dia anterior e certamente nossa saída forneceu entretenimento aos banhistas que ali estavam, rs... nada grave, lá fomos nós pro nosso veleiro.

Assim que embarcamos o vento começou a soprar com força, esticando a corrente da âncora. Eu queria sair com a vela erguida, chegamos a içar até o 2o rizo, mas estava difícil manejar vela e âncora, mesmo com motor, então baixamos a vela e conseguimos erguer ferro. Força total, partiu Ribeira.

Carneirinhos e carneirões, vento chegando a 25 nós, ondas razoáveis nos banhando com borrifos. Mãos no timão, olhos nas ondas, na bússola, no horizonte, que logo se fechou em branco. Ninguém dava um pio. Depois de mais ou menos 1h comecei a ficar com frio e liguei o piloto automático pra colocar uma camiseta (sim, ainda estava de biquini! A saída foi apressada, com aquele vento aumentando rápido). Vi que o piloto automático estava lidando bem com as ondas e assim deixei. O bom é que consegui sentar e descansar um pouco, mas o frio apertou, mesmo com capa de chuva.

Chuva fina, minutos intermináveis.

O olhar no horizonte em volta... uma alegria quando apareceu a silhueta da Ponta Grossa, depois a Ilha das Cabras e finalmente minha amada Ilha Anchieta. Ufa! As ondas foram diminuindo, o vento também. Passando pela Ilha Anchieta a conversa voltou a fazer parte da vida do cockpit; cruzando o boqueirão já saíam até umas risadas, relembrando nossas peripécias com o bote. Eu ainda apreensiva, pensando em como seria pegar a poita com vento, pois em todas as outras vezes estava tudo super favorável.

Foram 3h15 de navegação até a Ribeira. Na chegada o vento já estava mais tranquilo e pegamos a poita de primeira. Arrasei na manobra, que fique registrado, rs...

Aí sim conseguimos tirar uma foto e comemorar a travessia. Banho quente, lanchinho e aquela sensação boa de corpo cansado e feliz. Nos sentimentos uma mistura de "que loucura" com "que aventura!", mas sem dúvida um sentimento de gratidão por ter dado tudo certo. Tudo perfeito. O barco é valente e a gente também!



Oito da noite já estava cada uma em sua cama. Acordamos cedo, juntamos os trem e nos despedimos do Ka Mua na garoa.

Mais uma Vivência de Vela e Vida a bordo concluída com sucesso!



-- deixo aqui também meu agradecimento à Flip Boat Club, empresa que torna possível o sonho de velejar, ao empreender na gestão de veleiros em multipropriedade. Somos em 8 sócios-cotistas no Ka Mua, com tudo administrado de forma eficiente e transparente pela Flip, que ainda oferece um atendimento próximo, caloroso, natural, amigo. Eu não ganho comissão, rs... só quero que a Flip siga fazendo esse trabalho primoroso!


domingo, 19 de maio de 2024

... eu também vou reclamar

Vira e mexe vejo recomendações de "parar de reclamar" pra ter uma vida feliz, saudável, próspera, bem sucedida. E eu concordo que a "energia" da reclamação, dos resmungos, vai na contramão desses ideais. Mas algo que pouca gente conta é que não dá pra ser feliz, saudável, próspero e bem sucedido 100% do tempo. E o mais importante: nos momentos em que não estamos vivendo a glória da plenitude, não significa que falhamos, não significa que tudo foi por água abaixo. Significa simplesmente que está tudo caminhando NORMALMENTE na sua vida, porque a vida é assim, é feita de altos e baixos, de ciclos que se sobrepõem, de misturas que vão além das dualidades e que incluem toda uma gama de nuances.

Estar infeliz é normal; adoecer é normal; ter prejuízos é normal; fracassar é normal. O anormal, o preocupante, pode estar relacionado com frequência e intensidade, com situações crônicas. E o ponto de alerta aqui é que nós, seres humanos, somos bastante adaptáveis e isso pode ser muito bom pra encarar situações extremas, mas é perigoso, porque a gente se acostuma. O ser humano se acostuma a viver na infelicidade, na doença, nos prejuízos, nos fracassos e vai passando a achar que "a vida é isso". Então vem as recomendações de buscar uma vida mais feliz, mais saudável, mais próspera, mais bem sucedida.

Aí quem consegue comprar a ideia, passa a revisar hábitos, indicadores, até valores e implementa mudanças na vida, tornando-se mais feliz, mais saudável, mais próspero, mais bem sucedido. E vem de novo o perigo de se acostumar! A gente se acostuma com a "escalada" e com o modo de ser que busca esses ideais, e se não aparecer ninguém pra dizer "agora tá bom, descansa um pouco, reavalia a trajetória", quando nos damos conta, a busca pela felicidade nos torna infelizes, a busca pela saúde nos adoece, a busca pela prosperidade nos quebra, enfim, a busca em ser bem sucedido fracassa.

E nesse contexto eu venho aqui trazer uma reflexão sobre o ato de reclamar.

Reclamar é, basicamente, pedir empatia. Quando reclamo quero ouvir de volta: "poxa, verdade! Que chato né?". Quando reclamo, a última coisa que quero ouvir é "ah, para com isso, essa atitude não vai resolver as coisas" ou ainda pior: "ah, você tá chorando de barriga cheia!" e todas as variações, que incluem minimizar meu incômodo me contando de situações "piores que a minha".

Reclamar é expressar uma insatisfação NOR-MAL, porque é impossível estar satisfeito o tempo todo (e quem aparenta estar não me convence, porque aposto que lá no fundo, ou em outro cenário, tá cheio de insatisfação).

Isso quer dizer que você é obrigado a oferecer empatia toda vez que uma pessoa vier reclamar pra você? Claro que não.

O que você pode fazer é começar perguntando-se: "estou disposto a oferecer empatia a essa pessoa agora?". Se a resposta for sim, entre na brincadeira, aproveite a oportunidade para exercitar seu corpo empático. Se a resposta for não, busque uma forma de informar a pessoa que você não está com essa disposição (o que é um ótimo exercício também!). E não espere acertar de primeira... é uma musculação da comunicação. Se você for erguer cargas muito pesadas no começo vai se arrebentar.

E quando quem está reclamando é você? Permita-se reclamar. Mas busque observar a atitude do seu interlocutor. Se for uma atitude de empatia, aproveite pra receber esse presente e, como diz a boa etiqueta, ao final agradeça. Quando oferecemos empatia e somos reconhecidos por isso, é algo que nos nutre, é algo que fortalece o corpo empático e vai permitindo que possamos oferecer mais e mais.

Se, por outro lado, a escuta não for empática, infelizmente será algo a ser acrescentado à sua lista de reclamações... e não adianta insistir com essa pessoa que não quer ou não pode te oferecer empatia nesse momento. A você, que precisa reclamar, sinto muito... não será dessa vez. Sei que muitas vezes mesmo assim a gente reclama e a atitude não-empática do interlocutor só piora a situação e ao final da conversa provavelmente nosso estado de espírito não estará do jeito que gostaríamos. Se houver consciência, logo veremos que é um caminho que não vale a pena.

Consciência. Também é um músculo a ser exercitado.

A consciência nos protege não de "não reclamar", mas de identificar quando e com quem podemos reclamar. Porque sempre teremos reclamações. Faz parte da vida.


PS - recomendo ouvir a música do Raul Seixas, que inspirou o título do texto!


segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Elis e Tom - o documentário

 Assisti ontem e ainda estou digerindo... mas que decepção...

Pra uma crítica mais técnica recomendo esse texto, cujo autor desconheço e não estou com tempo pra pesquisar, mas concordo com grande parte do que ele aponta.

Nesse âmbito da parte mais "superficial", a sensação é que o documentário não entrega o que promete. Por exemplo, não entendo por que deixaram músicas do álbum de fora e incluíram outras, de outros contextos. Ok, pra mim nunca é demais ouvir Elis (nunca!) e mesmo Tom, mas o documentário perdeu o foco, e quando perde-se o foco, perde-se a alma.

Sobre perder o foco, as falas enveredam por especulações levianas e extremamente desrespeitosas sobre a vida da Elis. E aí a gente entra num aspecto menos "técnico", menos superficial e vamos navegar pelas entrelinhas da narrativa apresentada.

Pra começo de conversa: um bando de homem.

Aparece uma única mulher nas entrevistas, filha do Tom Jobim, que tinha 16 anos quando o álbum foi gravado e contribui com um olhar infantilizado ("eu não lembro direito, perguntei pra minha mãe...." Ah, gente, faça-me o favor!).

Quanto aos bastidores criação, direção, produção, fiz questão de ficar até o final pra ver os créditos e vi dois ou três nomes de mulher, na produção executiva, controladoria e alguma outra tarefa operacional. Aff...... mulheres agilizando o rolê pros homens pavonearem e colherem os louros. E pior: tecerem conjecturas sobre a vida de uma mulher. E ainda pior: de uma mulher que nem está mais aqui pra falar por si e expor seu ponto de vista (como se isso fosse permitido. Não seria, ainda não é, e essa constatação é algo que me derruba, me entristece, me revolta! Mas, Elis, não foi em vão. Eu não vou ficar calada diante de tamanho desrespeito. Não por você, que já foi, está em outra, mas por nós que seguimos essa linhagem de mulheres que lutam co-ti-di-a-na-men-te pra termos voz e espaço para sermos o que somos).

Interessante notar que se o documentário tivesse como resultado o que se propôs a fazer, as questões de gênero poderiam ter passado sem grandes questionamentos. Poderia ser um filme que mostrasse os bastidores do álbum, que retratasse a genialidade de cada um e que fosse lindo. Pronto, seria lindo. Teria espaço pra mostrar as incompatibilidades, como um tempero de cada genialidade geniosa. Seria lindo.

Mas não foi esse o caminho escolhido. Fico com a sensação de que o roteiro foi bem intencional no objetivo de causar polêmica e fazer fofoca. E de ser apelativo também, incorrendo em incoerências absolutamente injustificáveis, como quando mostram Elis Regina no caixão (?!), abordando de forma  sensacionalista a sua morte, incluindo o fato na parte do documentário destinada a retratar a Elis ANTES da gravação do álbum. Como assim?! Pois é, como assim?!

Ah, e foi mencionada a morte de Tom Jobim? Nem de longe... ele segue imortal.

É brutal a diferença com que tratam as imagens de cada um deles.

Tom Jobin fica num lugar quase que inacessível a qualquer julgamento, acima de qualquer possibilidade de se questionar suas escolhas, seus posicionamentos - por mais que tenham colocado ênfase na "supremacia" dele em relação ao César Camargo Mariano. No fim, a sensação que fica é "tá tudo certo, é isso mesmo, Tom Jobin tinha todo direito de querer mandar na porra toda, e Mariano foi um gentleman, demonstrou humildade de discípulo. Aplausos para os dois".

Já Elis é retratada como instável, imatura, insegura, vaidosa - uma vaidade totalmente diferente da do Tom, porque a ele é dado o direito de ser vaidoso, mas a ela, não. A vaidade no homem é resultado de seus méritos; a vaidade na mulher é capricho.

E é claro que fazem isso de forma dissimulada. Essa é uma das artimanhas do machismo estrutural. Eles jamais afirmariam de forma declarada que a Elis era instável, imatura, insegura e vaidosa, com toda a carga pejorativa de cada termo. Eles fazem isso à partir de uma superioridade masculina, aquela mesma que calmamente nos chama de loucas quando berramos (as que conseguem) em resposta a toda espécie de atrocidade que eles cometem contra nós.

Eu teria tanta coisa mais pra dizer sobre esse filme, sobre a forma com que trataram a Elis no documentário (que pode ser inclusive só uma janelinha de como a trataram em vida).... sem contar toda a parte das projeções das minhas dores de mulher, mãe e artista (?! - sobre meu lado artista a gente conversa outra hora...). Impossível não pensar como estaria sendo pra ela estar naquele contexto, sendo mãe de duas crianças pequenas e com um marido que era ao mesmo tempo seu "chefe" (ou vai me dizer que o arranjador e pianista, sendo marido, não ocuparia algum cargo de chefia perante ela?!) e que estava com seu orgulho sendo profundamente e constantemente ferido pelo macho alfa do rolê. Não vou cair na armadilha de supor o que ela sentia com relação a cada um desses componentes da complexa fórmula "Elis Regina em Elis e Tom", mas que não estaria sendo fácil, ah, isso não estava mesmo!

Enfim.... tenho louça pra lavar, almoço pra fazer, enfeites de bazar da escola pra bordar, uma aula pra preparar e uma viagem pra encaminhar. O tempo me escorre da mesma forma que o sangue entre minhas pernas. Esses são alguns dos - muitos - ônus de ser mulher. A gente não tem um instante de paz. Urge estarmos, homens e mulheres, cientes disso.

>> em 2012 eu escrevi um texto aqui inspirado por uma música do Elis & Tom (que não aparece no documentário......). Dá uma espiada lá... é bonito :)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

A celebração do Natal e os padrões repetitivos

 

Essa imagem e o texto que a acompanha, postados na conta do Al Janiah (restaurante palestino e centro cultural) no Instagram (@aljaniah_oficial), foram as "gotas d´água" pra que eu formulasse e publicasse a reflexão que trago. Recomendo que você leia na íntegra o texto que eles postaram, mas basicamente nos relembra alguns fatos pouco enaltecidos na narrativa mais ampla sobre a vida de Jesus.

Essa família tão celebrada há milênios era composta por uma mãe solteira e um pai adotivo; pobres e refugiados; periféricos.

Jesus, o grande homenageado, foi um rebelde, contestador, que enfrentava o poder dominante falando sobre igualdade, justiça, amor, perdão...

2022 anos se passaram e pessoas como eles seguem sendo marginalizadas, perseguidas, assassinadas, invisibilizadas. Estamos presos nessa história.

Presos com requintes de crueldade, pois a dinâmica opressora usa de armas perversas, capturando narrativas e retorcendo-as até que fiquem palatáveis - e consumíveis. Vejam a festa que se formou em torno desse evento! E aqui não vou entrar no papinho água com açúcar de "o espírito natalino se perdeu, agora o que importa é só o consumo". Porque ao colocar as coisas assim podemos até nos esforçar por fazer diferente no âmbito individual, mas acabamos nos acomodando enquanto coletivo, afinal...


"é uma força muito maior, não temos como mudá-la"


"pra minha família é importante, então abro mão dos meus questionamentos e faço essa concessão por eles"


"eu não ligo pro Natal"


"eu me revolto com o Natal"


E assim a tradição segue... com meia dúzia de ovelhas negra, um outro tanto de indiferentes, e a grande massa dando continuidade a uma história que por algum motivo segue sendo necessária.

E que história é essa? A história da família pobre, marginalizada, perseguida; a história do rebelde que contesta o poder com palavras de justiça e amor, e é cruelmente assassinado. É essa a história que seguimos reproduzindo por milênios. A historinha paralela, com anjinhos, pinheirinhos, luzes e presentes é apenas uma distração.

Tiremos então essa distração. Observemos o que está por trás.

Ao fazer isso eu vejo um padrão repetitivo. Um ciclo que muda de cara, mas não muda de enredo.

E o que são esses padrões repetitivos? Você, que é uma pessoa minimamente desperta pro seu desenvolvimento (se não fosse, não estaria aqui...), certamente já se deparou com esse tipo de padrão na sua vida. Seja na sua história individual (a repetição de hábitos nocivos, que viram vício e prisão) ou na história daqueles que vieram antes de você (a repetição de comportamentos herdados de pais, avós e cia, que quando paramos pra analisar não fazem mais sentido, mas misteriosamente seguimos repetindo).

Pois bem, se algo segue sendo repetido isso se dá basicamente a dois fatores:

1) o aprendizado necessário ainda não foi alcançado, e assim seguimos "repetindo de ano", até aprender a matéria, passar na prova e poder mudar de fase

2) estamos rodando em automático, refazendo passos por força do hábito, sem ter consciência sobre eles - ou seja: presos em distrações

Experimente aplicar esses caminhos pros seus padrões repetitivos.

Reconhecê-los já é uma grande coisa! E isso nem sempre é possível sozinho (alô, terapia!).

Então é mais ou menos assim:

- você identifica um padrão, uma repetição

- avalia se te faz bem ou não (sim, existem bons padrões também, rs..)

- caso não faça, você faz a escolha de sair dele

- se for apenas uma questão de que você estava "rodando em automático", pronto, resolvido! Porque a luz da consciência será suficiente. Agora que você sabe, agora que você olha e enxerga, ouve e escuta, é capaz de traçar novos passos. O caminho trilhado e batido estará ali por um tempo, oferecendo uma tentação de andar por um caminho aparentemente mais fácil e recair nos velhos hábitos. Mas você está consciente e pode escolher não trilhá-lo.

- mas se for uma questão de que o aprendizado ainda não foi alcançado, então pode ser que dê um pouquinho mais de trabalho... afinal, existe uma tarefa a ser feita! Então arregace as mangas!!! Você já decidiu que esse padrão te faz mal; você já decidiu que não o quer mais em sua vida! Larga mão de ser frouxo e faz o que precisa ser feito! Vai atrás de ajuda, se mexe, sai do lugar, chacoalha essa poeira. Não é fácil, ninguém disse que seria... mas quais são suas outras escolhas?! Encare a realidade e pare de se distrair  com bobagens (de novo as distrações, tá vendo? Elimine-as e terá seu caminho claro). O golpe tá aí, cai quem quer...

E a humanidade vem caindo nesse golpe... no golpe de romantizar a pobreza e a opressão; no golpe de enaltecer a meia dúzia que consegue se safar e fechar os olhos pra multidão massacrada; no golpe de "seja feliz e grato pelo que você tem, celebre com os seus, você merece". Merece o que?! Merece viver nesse mundo cheio de sofrimento? Merece se fechar em pseudo-fortalezas como um avestruz que enfia a cabeça num buraco? Merece deixar de ir a lugares por medo de que as vítimas da opressão o façam de vítima?

Pois trago uma boa notícia: não, você não merece!

Você não merece se submeter a essa sub-vida em troca de presentes e uma mesa farta. Você é mais que isso! Você não se vende... nem por muito e nem por pouco. Você não se vende.

___


Eu estou falando pra "você", mas saiba que escrevo olhando no espelho.

Esse ano o Natal atingiu uma saturação em mim. Não cabe mais. Chega!

Em paralelo, estou vivendo uma fase de redefinir rumos da minha vida, traçar metas pro ano que começa... e vou compartilhar uma delas aqui, tornando-a pública e fazendo disso uma forma de reforçar meu comprometimento.

O Natal de 2023 vou dedicar a estar com os pobres, refugiados e marginalizados. Vou me proteger de distrações e me empenhar em algum trabalho voluntário. Talvez eu ainda precise assimilar as ideias de Jesus, pra quem sabe poder sair desse padrão e partir pra novos aprendizados...


sexta-feira, 1 de abril de 2022

Leveza e Profundidade

Se você acha que é um paradoxo,

vou te dar uma dica:

olha pra cima

e aprofunda no céu!


Aprofundar não é (só) afundar

Aprofundar com leveza é flutuar livremente

Nas águas e nos ares


Leveza é ar e água

Mas parece que a gente aprende que leveza é sinônimo de superficialidade

leviano

Fico com Lenine: a leveza está na delicadeza

Observemos a leveza através da delicadeza

e aprofundaremos


A delicadeza da presença

A delicadeza da atenção

A delicadeza da disponibilidade

A delicadeza do interesse


A leveza que aprofunda é

A leveza que cria vínculos

A leveza que é livre

A leveza que é também compromissada,

Porque é atenta


A profundidade que pesa,

que puxa pra terra,

são pés pesados tropeçando nas pedras dos caminhos

As pedras do cotidiano

A lista de compras

Os boletos, o extrato, a fatura

O filho doente

A obra que atrasa

O chefe que resmunga

O empregado que falta

O carro que quebra


As pedras dos não ditos

As expectativas que não viram perguntas

As perguntas que ficam sem respostas

As respostas tortas,

- o desalinho entre o que sai e o que está dentro


Mas quem tropeça são os pés

As pedras são o que são

Pés leves tropeçam menos,

Porque flutuam, dançam

Porque tem liberdade,

saltam e até voam

aprofundando

No céu


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Amiga da minha mulher



Ah, Seu Jorge! Essa voz, esse suíngue, essa elegância! Cantando "Carolina" e fazendo tricô, então, meu coração derrete. Está sempre nas minhas playlists animando corrida, trabalhos domésticos, viagens...

E foi num desses momentos de corpo ocupado e mente divagando que a música "Amiga da minha mulher" me chamou a atenção.

Primeiro, por ser a mais ouvida do cantor no Spotify (a letra é de autoria de Gabriel Moura, parceiro do Seu Jorge em mais de 50 canções), e depois por me propor um exercício sobre questões de gênero. Sim, car@ leitor/a/e, é preciso estar atente e forte! (eu busco usar linguagem neutra, mas esse texto vai ser bem binário e hétero e você já vai entender por quê).

O exercício não é novidade e nem fui eu que inventei. É um mecanismo simples pra entender se a situação é machista. Basta inverter papéis, misturar gêneros e avaliar se o resultado é o mesmo. Divertidíssimo! Quer ver?!


Imagina que a história, em que a amiga da esposa se insinua sensualmente para o narrador, ao invés da configuração "amiga da minha mulher", falasse da "mulher do meu amigo"


vai imaginando... "ela é mulher do meu amigo, mas vive dando em cima de mim (...) de vez em quando fico admirando, é muita areia pro meu caminhão"


Imaginou?!

Continua divertida e engraçada? Continua "brincadeirinha"?


Não, definitivamente, não. Amiga da mulher a gente dá risada, mas mulher do amigo, EITA, aí a coisa ficou séria.


E se - prepare-se: e se fosse uma mulher cantando e a música fosse "amigo do meu marido"?! Ou ainda: "marido da minha amiga"?!


Ui, fomos longe demais! Caos na Terra! Já não cabe mais em "músicas para churrasco", pelo menos não nos "churrascos de família". Quem sabe caiba na categoria funk pornográfico.


Pois bem, isso é machismo, minha gente! Quando a gente inverte e mistura os gêneros e os resultados mudam completamente.


Por que falar da "amiga da mulher" é engraçadinho, mas falar da "mulher do amigo" é o mais profundo mal-caratismo?

Por que um homem falando que "a carne é fraca" nos passa quase que despercebido, mas uma mulher dizendo a mesma coisa é a mais baixa das putarias?


PORQUE VIVEMOS EM UMA SOCIEDADE MACHISTA!

Porque para um homem, "as mulheres" são seu domínio, a não ser, é claro, que tenha outro homem envolvido. Veja: o limite não é a mulher em si, nem as inter-relações com essa mulher, enquanto forem permeadas por outras mulheres. O limite é o território do outro macho, que inclui suas respectivas mulheres-domínio. Isso não é exagero e isso não é brincadeira. Basta olhares (e ouvidos) atentos pra ir se dando conta desse mecanismo.

E no caso da mulher cantando? Ah, aí é muita audácia, né? Como assim, uma mulher que manifesta desejo? Como assim a mulher vai agora declarar estabelecer domínios e territórios mulher-homem? Ah, claro, se fossem duas mulheres "brigando" por macho, aí sim, aí é totalmente aceitável, porque, afinal, os seres dominados se degladiam pela atenção, caprichos e mimos de seu dominador. Você pode achar que estou forçando a barra, e talvez esteja, a título de exercício didático. Na prática não é bem assim. É muito pior! Porque muitas vezes é velado, a gente não se dá conta, mas está jogando exatamente esse joguinho do patriarcado.



O que eu adorei em sacar esse exemplo é que ele extrapola moralismos, porque ele já parte de uma condição de imoralidade e isso deixa o machismo ainda mais evidente. A questão não é moral. Não estamos discutindo aqui a questão específica do adultério. Porque se o cara declara que tem uma queda pela amiga da mulher, é óbvio que isso arranha valores referentes a casamento, arranha valores referentes a amizade, mas passa como uma "brincadeira", tranquilamente aceita. Socialmente conseguimos rir e nos divertir com isso.

A coisa só complica nas misturas de gênero que propus. Perde a graça, vira tabu, vai pro gueto. O problema claramente não é o adultério.


Então a questão é essa: igualdade de direitos. Inclusive na putaria!


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

paquera, fidelidade, aventura, maturidade

Se você ainda não sabe, vou te contar: existe uma lenda (na verdade está mais pra uma história pra boi dormir, porque lenda é coisa séria. Mas essa história pegou de um jeito que algo de sério ela tem...), enfim, a história diz que quando a gente encontra "o amor da nossa vida" esse amor nos basta, nos preenche de um jeito, que não precisamos de mais nada. NADA. Nada nem ninguém. Nossa vida agora está completa (algumas versões incluem filhos, outras incluem pets... só piora). E ainda tem a pachorra de dizer que "se não tem esse sentimento de plenitude, então não é amor... siga buscando que um dia, com sorte, você encontra".

MEN-TI-RA. 

Porcaria de história infeliz que só gera infelicidade. Pelo simples fato de que é mentira, de que não é assim que a biologia, a fisiologia, a psicologia humana funcionam. Se você pooooooor acaaaaaaaso afirma que encontrou seu amor e que esse amor te basta e te preenche, ok, acredito. Só saiba que você é uma minoria bem minoria (e se a/s pessoa/s parceira/s também afirma/m isso, mais minoria ainda), e isso não reflete uma grande sorte ou um grande azar. É só um fato. E algo que caracteriza a vida humana (eu diria a vida de forma geral) é a diversidade, então é aquilo... tem de tudo! Mas existem tendências gerais, que nos ajudam a entender comportamentos gerais. ALERTA: o caldo entorna quando a gente acha que "comportamento geral" é regra e quer aplicar isso pra TODOMUNDO, e se por acaso eu ou alguém não se enquadra no tal "comportamento geral" é porque tem alguma coisa errada. Aff... não tem nada .NADA. errado com quem tem comportamentos não-gerais, isso é só um reflexo da diversidade, diversidade esta que é característica básica da nossa espécie e da vida.

Todo esse preâmbulo pra dizer que pessoas em relacionamentos de casal, em geral, também precisam de paquera, flerte, aventura, frio na barriga. Enquanto comportamento geral, é assim que a banda toca. Estudos comprovam. Isso não é desvio de caráter. Isso é super natural, inclusive. E onde fica a fidelidade nessa história? Onde ficam os tais dos compromissos que estabelecemos uns com os outros quando formamos um casal? Conversemos sobre isso! Conversemos com nossos cônjuges, conversemos com amigas e amigos, com terapeutas, com o motorista do Uber, com a faxineira, com pessoas de outras gerações.

Como lidar com maturidade com a tensão entre as necessidades simultâneas de segurança e aventura?

Buscamos segurança e formamos casais, famílias, matrimônios e patrimônios.

Buscamos aventura e colocamos isso tudo a perder. É isso?! Não!

Não precisa ser assim.

Segurança não é aprisionar-se

Aventura não é quebrar a cara

Bora largar mão desse moralismo anti-vida. Desse medo de perder que faz com que a gente construa muros e cercas elétricas e continue vivendo com medo dentro das nossas fortalezas ilusórias. Desse medo de ir que faz com que a gente deixe de florescer e viva na apatia.

Paquera não é assédio

Paquera é elogio, é carinho na autoestima, é se nutrir de um olhar, é fantasiar com o "e se?!"

E os limites? Onde ficam os limites? Lidemos com isso

E os outros? O que os outros vão pensar? Lidemos com isso

Com maturidade, com verdade, com autenticidade

Porque sim, eu paquero e gosto de ser paquerada. Ficadica!



terça-feira, 5 de outubro de 2021

Eu te amo

O que fizemos com o amor?

Esse aprisionamento do "eu te amo" nada tem a ver com amor.

Amor é incondicional. Não existe "eu te amo, se...", "eu te amo, mas...", "eu te amo porque..."

Amor não precisa de motivo. Que tal se formos capazes de amar incondicionalmente todos os seres? Gente, bicho, planta e pedra. Terra, água, ar e fogo. Terra argila, terra areia. Água nuvem, água névoa. Ar vento, ar fumaça. Fogo brasa, fogo lava.

Planta com espinho, planta com flor.

Bicho peludo e bicho liso.

Gente que gosta da gente e gente que não tem nada a ver com a gente.

Amor tem a ver com admiração (admiração pura e simples, não admiração "porque"). Amor tem a ver com compaixão (aquele desejo genuíno de que o tal "objeto do amor" cumpra sua trajetória, independente dos porquês). Amor tem a ver com respeito, que não tem nada a ver com troca. Amor tem muito a ver com liberdade.

Amor tem muito a ver com liberdade.

Muito.

Se existe qualquer ganchinho que tenha qualquer intenção de prender, não é amor. Arruma outro nome, mas faz esse esforço em nome do amor: NÃO. É. AMOR.

Pensando em casais, trisais ou poliamores, deixo algumas sugestões:

Quer chamar de compromisso? Eu me comprometo com você (s) (comprometo a quê? Espero que vocês se perguntem)

Quer chamar de necessidade? Eu preciso de você (s) (preciso pra quê? Espero que vocês se perguntem)

Quer chamar de desejo, vontade? Eu quero você (s) (quero como? Espero que vocês se perguntem)

-- curioso como o "eu te amo" não precisa de perguntas... justamente porque a ideia é que seja incondicional... mas aí a gente usa o "eu te amo" no lugar do "eu te quero" e esquece que perguntas precisam ser feitas quando a gente entra nos papeis condicionados

Pensando em relações de pais/mães/filhos, algumas sugestões (que também servem pra situação acima):

Podemos chamar de cuidado: Eu cuido de você (cuida como, o que você entende por "cuidar")

Podemos chamar também de preocupação: Eu me preocupo com você (preocupa com quê?)

Podemos sim chamar de apego, que tem a ver com a necessidade, com essa coooooisa de ter que estar grudado, junto, sob os olhos e as asas. Caraca, isso NÃO. É. AMOR!!! Tudo bem sentir apego, lide com isso, mas pelamor, não chama de amor!

Pensando em relações de amizades, a mesma coisa. Quais mais? Quais as relações de amor na sua vida?

Quais os verdadeiros amores? E quais os pseudo-amores? Não que você não ame suas relações de apego, desejo, compromisso... ama também... mas o amor está lá no fundo, soterrado, coitado, sob camadas e camadas de desamor vestido em roupinha rosa de faz-de-conta-que-é-amor.




quinta-feira, 11 de março de 2021

Corpo Âncora

A antroposofia me ensinou a usar imagens como auxiliares para traduzir sentimentos, processos, mecanismos. Quando a descrição com palavras literais não alcança a essência do que queremos dizer, lançamos mão de uma imagem, uma analogia, uma alegoria. Aí reside o potencial curativo das histórias e de toda a sorte de mitologias.

Claro que toda alegoria tem suas limitações. Se ao usar uma imagem como apoio para descrever um processo, formos à fundo na imagem, buscando chegar no seu aspecto mais literal, o apoio se dissolve. Não é essa a ideia. Esse mecanismo funciona muito bem quando estamos atentos a que ele se propõe, que está mais para inspiração (ar) do que para representação (terra).

Outro aspecto a considerar quando lidamos com imagens é que, à medida que o processo se transforma, a imagem também se transforma - e essa transformação pode tranquilamente virar uma transfiguração, ou seja, a imagem inicialmente usada não faz mais nenhum sentido, e outra, completamente diferente, aparece, agora mais afinada com a nova fase do processo. Trocar de imagem não constitui incoerência... ou talvez sim... mas aí estamos falando das incoerências inerentes à vida. Tudo muda... enxergar incoerências e paradoxos são pistas de que a vida vive.

Feito esse preâmbulo, quero falar de uma imagem que me apareceu, após passar dois dias à bordo de um veleiro, e mais três mareada em terra (o primeiro, literal, físico, e os outros dois num mareamento emocional). Mesmo nesse mareamento todo, mantive meditação, corrida, cuidados com o corpo, e deixei de lado o que pude das tarefas, afazeres domésticos, me dando tempo e espaço.

No 4o dia, já sem o mareamento, durante a corrida, veio a imagem do corpo enquanto âncora. Ancorar um veleiro é uma tarefa meticulosa. Inclui avaliar profundidade num raio seguro e as possibilidades de vento durante o período que espera-se ficar ancorado; inclui lidar com um artefato bem pesado, mais sua corrente, igualmente pesada (alguns barcos contam com guincho elétrico, outros não...); inclui um procedimento de manobra, usando motor, pra fixar a âncora (quando não tem motor não sei como faz...). Desancorar também pede atenção, meio que fazendo todo o procedimento ao contrário.

A âncora permite ao barco descansar. E quando falo "barco", refiro-me a toda a tripulação do barco... A âncora, se manejada de forma cuidadosa, confere segurança ao barco. Se tiver algum problema com a âncora (ou corrente, ou guincho - estou chamando de "âncora" esse conjunto que permite o ancoramento), pode-se buscar uma poita, um píer, ou até mesmo outro barco que esteja seguramente ancorado. Mas todas são soluções provisórias... o esperado é que cada barco tenha sua própria âncora, em perfeito estado de funcionamento.

A âncora geralmente fica escondida num porão, quando não está sendo usada. E quando em uso está lá no fundo, presa ao lodo. Ou seja... seu protagonismo não está na sua aparência nem na sua "aparição", mas sim no seu funcionamento.

Nessa imagem que me veio, partindo da âncora, se ela é o corpo (corpo físico, no caso), as velas são o corpo emocional, os instrumentos de navegação são o corpo mental, a tripulação do barco constitui o corpo espiritual. O próprio barco seria a experiência terrena. O motor vejo como os "aditivos" (explicarei melhor). O mar, o vento, o sol, as ilhas e continente e tudo mais o que surgir são a vastidão do cosmos, do tempo, do infinito, das experiências. E outros barcos são... outros barcos!

E olha que coisa doida... coloquei o corpo físico numa imagem que fica escondida (o que me faz alinhar o corpo mais à funcionalidade do que à estética, o que pode até convergir, mas não é isso que importa)... coloquei as emoções nas velas (que ao mesmo tempo é o que define um veleiro, mas que não são essenciais para navegar - se existe um motor). O motor então são os nossos apoios da vida contemporânea, que custam dinheiro, que geram lixo e resíduos, mas que também nos conferem algum conforto e segurança. Sem o motor o veleiro também se desloca... mas aí sim as velas são fundamentais, assim como saber manejá-las.

Agora pense comigo... um veleiro que nunca levanta suas velas é algo bastante triste. Se você não as levanta porque não sabe manejá-las, nunca aprenderá, porque não é algo que se aprende lendo ou assistindo vídeos. Se você pode contar com alguém mais experiente, certamente aprenderá em segurança, mas precisa cuidar para que a experiência de quem acompanha não ofusque sua prática de aprendizado. Se você quiser se arriscar a aprender sozinho, convém escolher lugares seguros e investir na instrução prévia (que não resolve, mas ajuda...). Errar ao lidar com as velas pode te custar as próprias velas (que rasgam), o mastro (que quebra), o barco (que afunda)... e talvez a vida (que enquanto experiência terrena, acaba). E mesmo com esses riscos todos, muitas e muitas e muitas pessoas aprendem a velejar e velejam e dão voltas ao mundo.

Os outros elementos da alegoria vou deixar para que você brinque com eles, fazendo as analogias que fizerem sentido na sua vida... pode incluir outros também... o bote, os coletes salva-vidas... pode detalhar a tripulação (no nosso caso tinha um comandante pouco experiente, um mestre, amadores, crianças). E o leme? A roda de leme? Fazem parte dos instrumentos de navegação... que podem ser bem tecnológicos (e pifar) ou bem analógicos (e dar um trabalho danado). Tem os cabos todos, o guarda-mancebo, as bombas de água (água doce e salgada)... e os componentes de uma "casa": cozinha, banheiro, quartos, sala... um veleiro é um prato cheio pra brincar com as imagens! Mas é claro que essa alegoria é "minha"... ela existe à partir da minha experiência. Pode ser que pra você não faça sentido nenhum...

Eu só sei que num momento de confusão emocional, as velas por aqui panejaram; os instrumentos de navegação ficaram meio doidos (pane elétrica? Triângulo das Bermudas?); o motor ficou de boa e foi ele (justo ele, que vira e mexe me aparece como vilão) que me ajudou a lidar com as velas e recolhê-las. E então lembrei da âncora, que estivera ali o tempo todo, sossegada, só esperando seu momento. Havia luzes no continente, sinalizando uma baía segura, o ancoramento foi feito, o barco descansou.





terça-feira, 17 de novembro de 2020

o macro e o micro - a vida humana em perspectiva


Esses dias assisti uma palestra do filósofo Roman Krznaric sobre seu novo livro "Como ser um bom ancestral". Ele faz um chamado ao pensamento de longo prazo, trazendo à luz grandes armadilhas do "curto-termismo" que nos invade constantemente. Essas armadilhas vão desde hábitos cotidianos, como a "tirania do relógio" e a "distração digital", até estratégias políticas e econômicas que tem um alcance muito restrito (a próxima eleição) e volátil (especulações financeiras).

Para pensar pra frente - pra frente de verdade, e não pro próximo par de anos - ele propõe alguns caminhos, como considerar qual legado você deixa para a próxima geração, ou o que ele chama de raciocínio de catedral, que é construir coisas (ou ideias) que sabemos que não serão finalizadas na escala da vida individual. Ele fala também em justiça intergeracional e cita os nativos norte-americanos, que consideram o bem estar da sétima geração em suas decisões.


E tem um outro conceito que ele traz, a Humildade do Tempo Profundo, nos chamando a perceber que somos um piscar de olhos no tempo cósmico.

Fico aqui pensando que ser esse piscar de olhos pode tanto nos dissociar do ego, ao nos colocar diante dessa magnitude toda, quanto causar uma sensação de "pra que legado, pra que catedral, se no fim serão apenas alguns piscares de olhos?" - e o que me vem é que expressar aquilo que está no meu potencial independe de "querer" deixar um legado; me parece que a coisa está mais para evitar as armadilhas da modernidade, que nos distraem constantemente do que realmente importa, do que estabelecer de forma racional metas de longo prazo... porque no fim acredito que vidas bem vividas, vidas conscientes e despertas, naturalmente contemplam os valores de legado e justiça intergeracional.

[ só é preciso estar atento e forte, porque as armadilhas são taaaaaaantas... ]

E hoje, visitando meu quintal, fiquei um tempo observando as flores minúsculas que crescem aqui e acolá, espontaneamente. São tão pequenininhas e tão, tão, tão encantadoras, complexas, detalhadas. Perfeitas. Olhar para o micro também me posicionou nesse piscar de olhos cósmico. De alguma forma, adentrar a escala dessas florzinhas me fez sentir a potência do "pequeno", e me fez rodopiar pelos meus conceitos de grandeza - e pequeneza.

Pensei no raciocínio de catedral, a coisa de construir algo grandioso que jamais verei pronto, o que me leva a pensar nos conselhos de "pensar grande", "sair da zona de conforto" - e o que essas florzinhas me contaram é que o GRANDE é composto por inúmeros pequenos, cada um complexo, detalhado, perfeito e inteiro em si.



Deixo uma música pra finalizar... Ótima, da Flaira Ferro


... que nada nos distraia do amor

nem mesmo as vitórias da vida!




sábado, 24 de outubro de 2020

sobre ir à luta...


Um amigo xamã me disse que na visão dos povos indígenas que ele estuda, a Primavera é o tempo do Guerreiro. É tempo de fazer o que precisa ser feito, é tempo de novos começos, de desbravar, de parar de inventar desculpas, se encher de coragem e ir à luta.

Venho então refletindo sobre as minhas batalhas, as que já lutei, as que venho lutando e as que se anunciam no horizonte.

E hoje me veio uma percepção... as batalhas não precisam necessariamente ser "épicas". Quero dizer, épicas aos olhos dos outros. Quantas batalhas internas você já não travou? Quantas derrotas e quantas vitórias que ninguém nem ficou sabendo, ou no máximo aqueles com quem você convive muito, muito de perto.

Às vezes fico com a sensação de que pra uma vitória ser legitimada, ela precisa ser vivida num palco - ou numa arena. Fica essa impressão de que, "se a galera não viu, não existiu"... ou, pior: não valeu. Penso nessa cultura de cada vez mais exposição, a "sociedade do espetáculo", essa vida de rede social, e vejo que por mais que muitas vezes eu me afirme "superior a isso tudo", tem algo que permeia, de forma quase que imperceptível, meus pensamentos e sentimentos. Eu hein...

Junto com essa percepção das batalhas internas, veio outra interessante também... que muitas vezes a grande batalha é justamente evitar a batalha (!). Algo assim: se minha vida vem se desenrolando sem grandes sobressaltos, é possível que eu esteja fazendo de fato um ótimo trabalho, e não "acomodada na minha zona de conforto", como muitas vezes essa tal "sociedade do espetáculo" nos acusa.

E aí, como saber?! Como saber se você está acomodado, fugindo à luta, ou lutando bravamente, mesmo que de forma silenciosa e invisível, para ser fiel à sua essência e ao que VOCÊ acredita ser o certo a fazer - ou NÃO fazer?

Conhecendo-se!

E conhecendo também histórias de outras pessoas... cultivando a tal da empatia, gerando acervos de experiências, mesmo que seja através de livros, séries, filmes, podcasts.

Não existe receita, não existe "caminho certo" a não ser aquele que é só seu. E só você para descobri-lo, passo a passo.

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Na foto, em 2012, na Turquia, numa viagem com minha mãe e minha irmã, com Joaquim na barriga e sem ninguém mais saber... a minha melhor definição de "batalha interna", rs... eu, na plateia (vazia), o palco em obras, não há nenhum espetáculo para ver... a não ser o que acontece dentro de mim. Essa "legenda" só apareceu depois que escrevi o texto. Escolhi essa foto antes de escrever, porque me deparei com ela ontem, por motivos outros, e queria apenas uma foto bonita e especial pra ilustrar (!)



quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Televisão




A televisão sempre teve sua presença e seu lugar nas minhas casas, quando criança e depois, mas sempre uma presença discreta e um lugar de "mantenha-se no seu lugar". Naturalmente. Não lembro de grandes crises com relação a televisão na infância, nem na adolescência. Tenho memórias de fases da minha vida ilustradas por programas de televisão. Lanterna Mágica, Pantanal, Rá-, Tim, Bum, X-Tudo, Mundo da Lua, Castelo Rá-Tim-Bom, Confissões de Adolescente, Vestibulando, Metrópolis, Programa Legal, Vídeo Show, Malhação, Sinhá Moça, Senhora do Destino, Globo Repórter, Fantástico, Pantanal (de novo)... não quero nem voltar a ver nada disso (já tentei, e por isso afirmo: não quero), porque não quero macular essas memórias, todas deliciosas.

Aí vem a fase cabeção, sem TV, achando TV a coisa mais fútil e alienante do mundo. Muitos livros, muitos livros, muitos livros. Teatro, cinema. Cinema europeu, claro, rs... exceções pra Woody Allen e Tarantino, afinal, né... Memórias deliciosas também.

Papo vai, papo vem, acabei conhecendo a antroposofia, pois meu orientador do mestrado estava super envolvido com a escola Waldorf da filha pequena. Aí lacrô! Morte à TV!!!

Quando meu marido e eu estávamos na fase de fazer os acordos de como seria a vida com filhos (sim, sou dessas e faz tempo!), abolir definitivamente a TV de casa era condição inegociável. Veio o filho, foi-se a TV.

O filho cresceu, eu pisquei, e quando vi a criança já assistia vídeos no celular, iPad, computador. Veio o segundo filho, e começou a assistir telas bem mais novo do que o primeiro.

Aí veio a pandemia... ah, a pandemia! Sem escola. SEM ES-CO-LA-A-A-A!!! Os desenhos animados tornaram-se mais frequentes, e justo no momento que as crianças estavam quietas, sem me pedir nada, eu ficava sem meu computador, pois era ali que eles assistiam.

Resolvemos então comprar uma TV.

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[pausa dramática]

Se você tem e sempre teve TV em casa pode não estar entendendo meu drama, mas, acredite, não foi fácil admitir que eu realmente queria uma TV em casa.

E assim foi.

Compramos um bela TV, grandona, com imagem espetacular. As crianças amaram... e eu também!

Pra estrear o novo aparelho, eu e o marido começamos a assistir Outlander e o programa 'colocar crianças na cama e correr pra assistir "nossa novelinha" ' tornou-se cada vez mais delicioso. Antes da TV frequentemente cada um ia pro seu canto (e pra sua tela), depois das crianças dormirem. Agora, com a TV, temos um compromisso juntos, assistimos juntos, comentamos, damos risada (assistimos Modern Family também, rs...), vamos pra cama juntos...

Eu realmente não esperava que a televisão pudesse nos trazer tempos de tanta qualidade (!). Além da óbvia qualidade ergonômica (porque nunca deixamos de assistir umas coisinhas... na tela do celular, segurando iPad, com computador em cima da cama...), mas também a qualidade de tempo juntos, de ter um momento de lazer compartilhado entre o casal e sem crianças, tão raro nesses tempos de distanciamento social, com poucas ajudas pra segurar a onda com os pequenos.

Viva a TV!


sábado, 12 de setembro de 2020

essencial à vida

na busca pela essência, pelo essencial, foi tirando os supérfluos, as superficialidades

descamando, descascando... até onde? O que resta?

viu-se no cerne. Duro. Seco.

na busca pelo que é essencial à vida, caminhou justo em direção à imortalidade do que já não mais vive.

e percebeu que a vida se dá na fluidez, nos fluidos, na água que vem e que vai, não pelo cerne, mas pelas camadas, pelas superfícies

à flor da pele

saindo da madeira dura e seca, percebeu que lá na ponta as flores, em sua imensa variedade de cores e formatos e aromas e tamanhos alimentam a vida, porque vida é diversidade, variedade, criatividade, expressão

a magnitude do que vive não exclui, aceita

vida é aceitação

criação

relação

tudo importa, tudo cabe, tudo pode

o essencial é a amplidão, o espaço

a água, a umidade

o calor, a vitalidade

a respiração

a base

e quem mais chegar

sem limite

Deixa rolar, deixa viver, deixa fluir

e o que sobra?

a vida aceita

e regenera

e revive

tudo flui

onde - e enquanto - há vida

segunda-feira, 6 de julho de 2020

depois da tempestade...


... vem a bonança - diz o ditado.

e depois vem tempestade de novo, e depois mais bonança... e cada uma é de um jeito, tem sua intensidade, sua duração e suas novidades.

a vida é cíclica

e cada ciclo é único

--- se você tem alguma familiaridade com a vida cíclica da fisiologia feminina, vai entender o que vou falar a seguir... e se não tem, pode me perguntar que vou adorar dizer o que tenho conhecido e percebido desse tema ---

nesse meu ciclo [menstrual] aconteceu algo inédito - ou pelo menos inédito segundo essa ótica de percepção. Aconteceu que vivenciei uma TPM em plena fase pré-ovulatória (!!!). Explico: lá estava eu em minha habitual, cíclica e perfeitamente saudável fase pré-menstrual, que traz grandes desafios, principalmente pelo fato de que culturalmente não estamos muito dispostos a olhar e lidar com sombras (pra resumir... como disse acima, falo aqui pra quem já caminhou um pouco nessas terminologias e simbolismos... não porque eu queira restringir "meu público", mas porque se for escrever sobre todos os detalhes não chego onde quero relatar). Enfim, vivenciei minha TPM e eis que chega a menstruação, ah, que alívio! O corpo, a natureza, ajudando a colocar os limites, como que dizendo "ok, agora chega! Hora de mudar o foco".

E como habitual, lá pelo dia #3 eu estava me sentindo plena, disposta, usando as lentes de arco-íris que tanto gosto - e a cultura também, então fica fácil a vida, né?! Aí uma voz me sopra no ouvido "aproveita a disposição e trabalha!". Essa voz é da minha terapeuta, que numa sessão já longínqua me disse que os desafios da TPM são para serem trabalhados ao longo do ciclo, porque senão de fato fica uma sobrecarga impossível de administrar, uma avalanche num curto espaço de tempo, e a gente fica soterrada.

Respirei fundo, arregacei as mangas, prendi o cabelo, e lá fui eu. Revisei as pendências do ciclo anterior, revisitei os temas, li e escrevi, estudei de verdade. E aconteceu o que acontece quando a gente "cutuca" algo: a energia se movimenta, as peças se rearranjam e todo o sistema muda, responde, reage. E aconteceu o que acontece quando a gente não está acostumado, habituado, treinado, a lidar com o que vem, com o inesperado, com a ausência de controle e garantia: BUG. Eu não sei e não vou pesquisar agora qual é exatamente o significado dessa palavra, que acho que vem da computação, mas o que quero dizer é que dá uma pane, uma travada. E aí, seguindo essa minha descrição de ações e reações, quando a gente trava, tensiona, endurece, todos os fluxos se comprometem, a energia fica estagnada em algum ponto, e quanto maior a energia, maiores as chances da barragem se romper e descer aquela água violenta levando tudo que estiver no caminho - e às margens dele!

Reconheço - a meu favor - que em minha trajetória de autoestudo tenho investido esforços em suavizar as barragens. Tudo o que quero é deixar fluir, então minhas barragens realmente não estão lá essas coisas... e por outro lado, tenho investido esforços também em amplificar minha energia, em me conectar com forças acima, abaixo, aos lados, em todas as direções e dimensões. Tá entendendo né?

Fui inocentemente fazer uma lição de casa, e quando me dei conta estava no meio de uma "tromba d´água". Passou. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. Veio a bonança. E o que essa bonança me mostra? Ela me mostra, com fundo de céu azul, árvores derrubadas, galhos quebrados, pedras que rolaram. Ela me mostra, no frescor da manhã, teias de aranha que reluzem cobertas por gotículas. Ela me revela, junto com o agradável cheiro da terra molhada, o trabalho dos inúmeros seres decompositores e toda a matéria orgânica em decomposição.

E consigo acessar todas essas imagens porque já estive de fato em uma tromba d´água, porque já caminhei de verdade em uma floresta e vi clareiras recém abertas por enormes árvores que caíram, porque já revolvi o chão de folhas e galhos úmidos e senti com as minhas mãos a terra se transformando.

"É de manhã/ Vem o sol mais os pingos da chuva que ontem caiu/ Ainda estão a brilhar/ Ainda estão a cantar/ Ao vento alegre que me faz esta canção..." *


A natureza e a arte como bálsamos para as tempestades internas.

E conectando tudo isso, as relações, as parcerias, os espelhos que nos são aqueles seres humanos que se achegam pra compor essa dança.

Mas pra encerrar a história - ou pelo menos esse capítulo dela - quando passou essa minha tempestade e me vi em meio à bonança, lembrei de uma conversa com um amigo, desses que parecem anjos da guarda disfarçados. Na ocasião ele me deu uma percepção de que nosso desenvolvimento seria como engrenagens ascendentes. Cada roda fica girando, ora você está em cima, ora embaixo, e que o grande "pulo do gato" é, estando no topo, pular pra roda acima! A consequência é que você chega nessa outra roda "por baixo"... mas quando subir, vai subir de verdade, e não apenas ficar dando voltas sem sair do lugar.

Esse fenômeno acabou de acontecer comigo!

Uhuuuuuu

=D


* essa referência faço questão de deixar: essa música ecoa em meus ouvidos na divina voz de Milton Nascimento... mas ao pesquisar descobri que trata-se de uma parceria entre Dolores Duran e Tom Jobim. A letra, que me fala ao coração, é dela, e foi um enorme presente conhecer um pouca da história dessa mulher
"ela foi uma compositora e cantora que como poucas tratou das dores de amor e da solidão" Aqui o link onde essa história é contada lindamente.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

a índia e o boto

sua pele morena se alegra ao sol

fica radiante, macia como a paina, apetitosa como fruta madura

seus pés se alegram na terra

no tapete de folhas da floresta, na areia do fundo do rio, nas pedras do alto da montanha

seu corpo se alegra quando corre, quando pula e quando deita

os cabelos soltos, livres como ela

os olhos no alto, nas copas das árvores, nas nuvens, nas estrelas

o coração bate forte e as palavras escapam da boca

quando está com ele

e quando não está também, porque é nele que pensa

ele, dizem, é encantado

mas mal sabem, que seu encanto é por ela

domingo, 24 de maio de 2020

a feiticeira e a canja

era uma vez...

... uma mulher de corpo forte e sereno. Exibe a tranquilidade de quem já viveu o suficiente para saber que "vai passar" e a vitalidade de quem ainda se permite tentar mais uma vez. Uma mulher esguia, de cabelos escuros, lisos e longos, mas presos. O rosto tem suas marcas e os olhos são de quem não deixa escapar nada; sua boca expressiva esboça sorrisos que facilmente se transformam em risadas; e dali saem palavras contundentes. É bom saber disso... você pode até não gostar muito do que ouvir, mas lá no fundo saberá que trata-se da mais pura verdade.

Ela vive em uma casa ampla, com janelas generosas e três portas - ela gosta de ter opções, e caminhos, e horizontes.

Com ela, seus homens; e um bicho, fêmea como ela, guardiã e amiga.

Essa mulher gosta de sopas e hoje resolveu fazer uma canja. Foi até a horta, mesmo sendo noite. Aproveitou para olhar o céu estrelado e se sentir menos só, na companhia das estrelas. Colheu seus temperos e foi para o fogão, que já estava com labaredas empurrando a fumaça chaminé acima - tarefa de homem trazer a lenha e acender o fogo. Picou os legumes, cultivados pelas vizinhas, fortes e serenas como ela. Tê-los ali era uma forma de estarem juntas, pois, embora vizinhas, viviam distantes no espaço, separadas pelas montanhas, riachos, florestas; mas unidas no coração pelas luas, pelas proles, pelas histórias compartilhadas ao pé do fogo e das cachoeiras.

Mas sim, a canja. Um pouco disso, uma pitada daquilo, e ali se faz magia. Uma taça de vinho acompanha. O fogo, a água, a alquimia que vai pra mesa, e pros corpos. Que nutre de minerais e também de ânimo - ânima - alma.

Suas sopas sempre são panelões... talvez na esperança de uma visita que chega pro jantar, entrete as crianças e depois lava a louça enquanto pai e mãe colocam os filhos na cama, para depois os adultos poderem se estender em conversas regadas a vinho ao pé da lareira. Esse, aliás, é um sonho que ela cultiva, e que parece ter flores mais demoradas e delicadas que a camomila que ela plantou há meses e continua apenas verde. O sonho de ter companhias que ajudem a tornar a vida menos árida... companhias que ajudem a tornar os infinitos afazeres domésticos menos duros, companhias que ajudem a dissolver os embates com as crianças, companhias que, por mais paradoxal que pareça, possibilitem momentos de solitude e silêncio.

Porque parece que existe algum número mágico de pessoas necessárias para fazer uma casa funcionar sem exaurir ninguém; parece que existe algum número mágico de proporção entre adultos e crianças (e idosos, e adolescentes) para que todos possam aprender saudavelmente com todos. Ela sabe que esse número mágico é maior que dois adultos; que essa proporção mágica é diferente de dois adultos e duas crianças. E que até mesmo o cachorro talvez careça de companhia.

E ela sabe também que para esse sonho, diferente da camomila que já está plantada, ela não tem ainda nem sementes.



quinta-feira, 16 de abril de 2020

a casa, as crianças, as mãos e a escrita

hoje faz um mês que estamos reclusos (não sei se essa é a melhor palavra... mas... quero não me preocupar com o que é "melhor", e sim com o que é possível)

um mês sem escola - com duas crianças em casa, 7 e 3 anos
um mês sem empregada - com duas crianças em casa
um mês sem babá (aquela que me proporcionava, uma vez por semana, uma tarde a sós comigo mesma e uma noite a sós com o marido) - com duas crianças em casa
um mês com o marido em home office - com duas crianças em casa
um mês dando aula por videoconferência pela primeira vez na vida - com duas crianças em casa
um mês sem ir à academia, sem ir à terapia (fazendo sessões via trocas de áudios, pelo menos), sem tomar café da manhã na padaria, sem conversar descontraidamente com as amigas, sem poder contar com uma ou outra vó pra deixar as crianças

enfim... um mês com a casa e as crianças! E com o marido, é claro... longas e duras conversas com o marido... a divisão do trabalho, as questões de gênero, a minha necessidade por respiro e espaço, os meus limites em relação ao trabalho dele, os meus anseios em relação ao que possa ser um trabalho meu. Sabe, nenhuma novidade... as pautas são as mesmas, sempre estiveram presentes... mas esse tempero de "não poder" sair de casa traz um colorido todo especial! E deixa os limites gritantes. Literalmente.

e a louça na pia, e a comida por fazer, e a roupa no cesto, na máquina, no varal

eita que o sol já se foi e as crianças precisam ir pro banho!

o que vamos jantar?

hoje consegui varrer a cozinha

os banheiros precisam ser lavados... sábado acho que consigo

e ali no canto, juntando teias de aranha, meus fios e agulhas... a maratona da casa e das crianças não me deixa chegar nesse canto. O que não tem chegado, na verdade, acho que é a inspiração pra fazer algo... até pego as agulhas vez ou outra, começo uma coisa, não vai em frente...  uma criança chama, ou brigam, ou pula em cima de mim, ou me pede pra fazer algo extremamente mirabolante (tipo, um poncho!)... começar e parar é complicado pra mim... quero mergulhar... e não consigo... então não faço

o caderno, diário, até que consigo manter com alguma escrita. Pequenos fragmentos do dia, a cada dois ou três dias pelo menos. Publico vez ou outra alguma frase inspirada nas redes sociais... mas ainda não saciam minha vontade de escrever...

e as mãos não param!

a pele vai ficando seca, as unhas quebradas, haja trabalho manual! Lava, pica, mexe, esfrega, varre, estende, dobra. Trabalho manual, braçal, corporal

e hoje elas encontraram a enxada. Eu estava precisando desse trabalho pesado, a força da lâmina cravando na terra, logo abaixo da touceira de capim [não quero mais o capim ali... quero milho, quero verduras, quero flores]. O braço empurra na direção contrária, fazendo uma alavanca, sai aquele monte de raízes. A mão vai lá, pega a touceira, joga pra fora do canteiro. E vamos pra próxima. A terra está feliz, cada enxadada, uma minhoca! Vou devagar, cubro as minhocas que se retorcem ao sol. O suor escorre no rosto, seco com a camiseta que a criança deixou jogada no caminho. Queria continuar, mas é hora do almoço... não hora de relógio, porque não to nem aí pra relógio, mas a hora da fome mesmo... então é isso, aprender a parar, a mudar... e a retomar. À tarde teve mais enxada, e teve mais hora de parar, sem querer parar

e agora também... preciso parar

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Como algo é tornado lixo?

Lixo é um tema que me afeta desde que me entendo por gente. Eu tinha 11 anos quando aconteceu a Eco 92, a famosa conferência sobre meio ambiente, sediada no Rio de Janeiro. Na época, minha mãe estava engajada em um grupo ambiental da cidade e o tema pulsava pela casa. O bom uso dos recursos, água, energia, materiais... e a destinação dos resíduos... o lixo.

Minha adolescência foi permeada pelos temas da Agenda 21 e a afinidade com a natureza me levou a estudar Engenharia Florestal, onde busquei me aproximar da educação ambiental, estagiando com o professor que foi responsável por grandes aberturas no meu modo de ver o mundo. Não sei explicar exatamente o porquê, mas não segui com ele... acho que seus questionamentos eram tão fortes e tão profundos que eu simplesmente não tinha estrutura emocional para lidar... e fui me aproximar das árvores, esses seres tão encantadores, lindos, imponentes. Fui buscar entender as árvores. Depois veria que foi um caminho bem equivocado, porque na verdade eu nunca quis "endendê-las", apenas contemplá-las... mas ok, isso é outro assunto.

Pois bem, o lixo. Como algo é tornado lixo?

Observando minha casa e os lixos que produzo nela, vejo que são coisas que não servem mais. Já serviram bastante, foram bem importantes, e de repente, não servem mais.

O maior volume é de embalagens. O saquinho de leite, as garrafas de suco, cerveja e vinho, o plástico que envolveu o queijo, a lata de molho, o plástico do macarrão, o papel da farinha, o frasco de shampoo. Foram muito úteis, me possibilitaram trazer todos esses produtos pra casa. Algumas eu reutilizo, adoro vidros! Mas a maioria acaba não servindo mais.

Tem os desenhos das crianças... alguns eu guardo, anoto o nome, a data, ficam pra posteridade, talvez adiando seu destino de lixo... mas muitos vão para o lixo agora mesmo... um material que serviu, que foi usado, bem usado... mas já cumpriu sua função, não serve mais.

Tem coisas quebradas, ou desgastadas. Serviram durante um bom tempo, mas chegaram ao fim. Qual o limite pra considerar algo tão desgastado que não sirva mais? Que não sirva pra mim nem pra ninguém... porque tem coisas desgastadas que envio para pessoas que talvez possam aproveitar... o que é pra mim um incômodo sim... aquilo não está bom o suficiente pra mim, mas pode servir a outra pessoa... não necessariamente porque tenhamos gostos diferentes, mas certamente porque temos condições de vida diferentes, que afetam nossos níveis de aceitação.

Tem as etiquetas das roupas... algo que não serve mais, mas não que eu tenha usufruído delas. São uma necessidade de quem fabrica, de quem vende. Por mim, não precisaria de etiqueta nenhuma... ok, eu gosto de saber a composição do tecido... mas já existe solução pra isso, imprimir as informações da etiqueta na roupa. Sei lá se é a melhor solução, ou se funciona pra tudo...

E tem o lixo do banheiro... ah como eu queria que fizéssemos como nos "países desenvolvidos"... vai tudo pra privada... e trata-se com o esgoto. O papel se desfaz, não é difícil. Sabe qual o entrave aqui? O formato dos vasos sanitários, que tem uma saída estreita e entope se jogar papel. Quando construímos nossa casa pensei nisso, dimensionamos encanamento e fossa pra receber os papeis... só que não passou pelo vaso! Podemos então usar ducha e toalhinha, como "antigamente"... pode ser uma solução...

E teria o "lixo orgânico", mas aqui em casa os restos orgânicos não viram lixo! Os restos dos alimentos voltam pra terra e lá, não são lixo. Restos de matéria orgânica na terra são apenas restos de matéria orgânica... faz parte da natureza, faz parte do ciclo. Decompõem e voltam a ser terra. Ufa!

Enfim, não consigo pensar em lixo sem pensar nas suas consequências e em formas de diminuir esse volume que, sei, não some quando colocado na rua.

Estamira diz que no lixo vem muito descuido... sem dúvida! Com esse grau de descompromisso que temos com o lixo na vida urbana, o descuido acaba sendo uma consequência (quase que) inevitável. O máximo de educação e compromisso que nos ensinam com relação ao lixo é levá-lo até um local "adequado". Não jogue lixo no chão. Jogue num saquinho (ou sacão), e pronto! Aqui encerra-se sua responsabilidade com o resíduo que você acabou de produzir. Parabéns!

Desde a Eco 92 temos tentado ir um pouco além, trazendo também a educação e o compromisso em separar o lixo. Reciclável, não-reciclável, orgânico. Porque lixo separado pode deixar de ser lixo (!). Resíduos orgânicos na terra não são lixo, são adubos; resíduos recicláveis bem destinados não são lixo, são matéria prima. Lá se vão quase 30 anos e estamos engatinhando nisso... mas ok, é um processo, há esperança.

No fim, pra mim, a principal forma com que algo é tornado lixo é o descompromisso. Eu torno algo lixo quando abro mão do meu compromisso com aquele material. Porque, o que é lixo? Lixo é aquilo que a Terra não engole. Se a Terra não engole, quem tem que engolir é quem produziu e quem usou. E se ninguém vai engolir, se ninguém vai assumir um compromisso com aquele resto, aquele resíduo, temos lixo. Lixo é descompromisso.


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o que nasce em uma aula/oficina de artes-manuais?
quais relações acontecem?
qual o destino das coisas produzidas?

reciclar?
reutilizar?
sustentabilidade?
quando as palavras se tornam ecos?

fazer é pensar
qualquer fazer é pensar?
qualquer pensar é fazer?

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o que nasce de uma aula/oficina de artes-manuais?... as possibilidades são tão diversas quanto a diversidade de seres que estiverem interagindo... pode nascer muita coisa, pode não nascer nada...

aulas e oficinas estão mais para sementes e ferramentas do que para sementeiras. As sementeiras são as pessoas, cada pessoa. Cada pessoa um solo. Chega a aula/oficina, e promove algo para esse solo. Aí podem surgir as relações

professor-aluno; aluno-aluno; conteúdo-aluno; material-aluno; conteúdo-material-professor-aluno, todas as combinações possíveis e as impossíveis também (!)

as relações podem vir a afofar esse solo, regá-lo

as relações podem também ser sementes

as relações podem ser o sol, a chuva, a geada... chuva que molha, chuva que alaga, afoga

o destino dos materiais?... a profundidade da relação determina o destino... de quanto tempo essa relação precisa? que sementes quero aguardar germinar dessa relação? que sementes quero aguardar que cheguem nesse solo tão trabalhado? por quanto tempo vou esperar que o vento as traga? por quanto tempo vou esperar que essa casca dura se quebre pra ver o broto? vou esperar? esse é o destino do material produzido... a relação que estabeleço com ele. Eu & Ele. Em que medida o professor influencia esse destino? Na construção dessa relação... como se dá? Tem como controlar? Tem como garantir? Não... só tem como cuidar...

as palavras se tornam ecos quando são sementes num solo seco
podem até germinar... mas não enraízam

o fazer pode ser a enxada (ou a mão) que revira a terra

o fazer pode ser o húmus que coloco numa terra fria

o pensar pode ser semente

se o fazer torna-se pensar, a semente foi plantada na terra fofa, fértil

se o pensar torna-se fazer, a terra se abre para receber uma semente lançada
ou, a semente lança seu broto, seja lá como for a terra, porque semente quer brotar!

se a terra é fértil, alguma semente há de brotar, mesmo que não seja a que esperamos
sim, todo fazer é pensar
o fazer fertiliza a terra e em terra fértil vidas aparecem

e não, nem todo pensar é fazer
nem todo broto rompe a terra, nem toda fenda permite o nascimento de uma semente
semente boa não é garantia de broto enraizado

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reflexões à partir da disciplina
Laboratório de Pesquisa e Experimentação em Artes-Manuais
Prof. Vinícius Airumã

Pós-Graduação em Artes-Manuais para Educação
Turma 3 - 2019/2020
Facon - Nina Veiga Atelier de Educação




segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

chorando de barriga cheia

estou chorando de barriga cheia

mas sabe o quê?

não estou chorando de fome!

o único choro legítimo é o de fome?

vamos entender que estou chamando de "fome" todas as necessidades básicas e essenciais à sobrevivência

pois é... sobrevivência

eu não quero sobreviver, eu quero viver

mas algo dentro de mim insiste em me fazer sentir culpa por isso

porque parece que enquanto houver seres humanos com sua sobrevivência ameaçada, não posso me dar ao luxo de chorar por dores que extrapolam as necessidades básicas e essenciais à sobrevivência

"problema de gente branca"

"mimimi"

"xatiada"

"coisa de menina mimada"

essas vozes ecoam na minha cabeça e no meu peito

braços, mãos e pernas ficam sem saber como ajudar

"faz uma caminhada"

"faz um tricô"

em versões mais amenas

e em versões mais radicais, dizem:

"vai fazer faxina então"

"e se você for produzir seu próprio alimento?"

como que dizendo: "assume o trabalho que precisa ser feito pra ver se essa xatiação não passa!"

até acho que passaria... mas cadê as forças?

só tem uma vontade de chorar e chorar e chorar

e uma vontade de ir pra praia

tá um dia tão lindo, um sol gostoso

tudo que eu queria era poder colocar poucas coisas no carro e ir até a praia

por que não posso?!?!?!

às vezes acho que me obrigo a ficar numa prisão porque existem pessoas presas

tenho medo de sair e esquecer dos que ficaram

tenho medo de me seduzir pelos prazeres da vida e ser ingrata, desleal

como se já não estivesse fazendo isso...

abafo o choro mas não deixo de encher minha barriga