domingo, 29 de dezembro de 2024

verão

 verão no litoral SP/RJ = chuva, calor, muita gente

estradas e praias cheias

a pandemia me ensinou a apreciar as pessoas na praia, a celebrar nossa alegria por estarmos na praia, por termos condições - físicas e financeiras - de estar na praia

desde lá, é como se todas as pessoas da praia estivessem comigo numa grande festa

(e não estão?!)

mas dessa vez, nessa temporada, eu preferiria não estar numa festa... no mar, sim; na praia, sim, mas não na festa da praia

tenho tanto a dizer e festa não é lugar de "dizer" nada

festa é lugar pra "falar" - e ai que preguiça de "falar"

festa é pra "estar" - não é nem pra "ser"

e, céus, como preciso ser!

.

existe um mau humor me habitando, uma irritação

as bagunças alheias estão me irritando, como que escancarando os "fora de lugar" que me habitam

-- a casa tem duas pias e depois do almoço (adivinha?) ambas estavam cheias de louça; respirei fundo e encarei a missão; meu humor foi acalmando, a irritação cedeu lugar a uma leveza que até cantei; pelo menos fora de mim algo está em ordem

.

sabe, gente, não é que eu cancelei o Natal

eu só estou reivindicando o Natal pra mim

não é que eu não goste de Natal

pelo contrário!

essa época é tão especial e importante pra mim (ainda estou descobrindo os porquês) que preenche-la com excessos é ultrajante, chega a ser uma violência

eu quero poder meditar em paz, sem ter que cumprir cronogramas intermináveis de compras & comidas & compras de comidas (e bebidas, claro)

eu quero ter tempo e espaço pra fazer as minhas reflexões, olhar o ano que passou, celebrar as conquistas, primeiro comigo, depois (no réveillon?!) com as pessoas que estão em volta

mas também não me tomem a virada de ano, por favor

uma festa singela, pequena, poucas pessoas, pra não ter que fazer aquele mundaréu de comida, que faz a gente passar horas na cozinha (antes e depois) e que invariavelmente termina em desperdício, e se tem coisa que me entristece é desperdício

quanto às pessoas, sem hierarquias, simplesmente as que estiverem por perto, as que puderem, as que toparem

sem o peso do "tem que estar", "tem que ir", "tem que chamar"

e a virada do ano é só a metade da época meditativa, introspectiva

eu quero poder começar janeiro, começar o ano, com tempo e espaço pra entender o quero fazer nesse ano

eu quero poder escrever, abrir oráculos, tomar banhos de ervas, usar óleos, fazer exercícios, correr, tomar sol, comer bem

eu quero poder sentir que estou de férias, que posso acordar sem ter toda uma agenda me esperando

e, sabe, eu sou capaz de fazer tudo isso, de criar todos esses momentos

eu não to pedindo que as pessoas em volta façam nada

eu só to pedindo pra que respeitem meu espaço, meu tempo, minhas vontades

-- por que se ausentar das confraternizações familiares soa tão aviltante?!

as reações que me chegam são dignas das mais extremas rebeldias

de fato... é extremamente rebelde dizer não

não vou

não quero

não gosto

quando na verdade o que eu gostaria de dizer seria:

eu fico

quero estar a sós comigo mesma

as liturgias que fazem sentido pra mim são outras

e sabe o quê?

eu precisava justamente desse tempo/espaço pra poder elaborar essa clareza dentro de mim

pra conseguir comunicar com delicadeza

pra proteger meu território sem precisar empunhar armas

-- pra ter os chakras suficientemente alinhados a fim de tecer uma conversa diplomática

.

esse foi o terceiro Natal de luta entre fronteiras

não sei se será o último, mas essa trilogia está encerrada

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Vivência de Vela e Vida a Bordo #7

7 é meu número da sorte (o dia que nasci)! E hoje, 22 de novembro, é aniversário da minha Mestra da vela, Lucimara Marcelino, musa inspiradora, fada madrinha, amor à primeira vista; não foi quem que me abriu as portas da vela, mas foi definitivamente a pessoa que me colocou pra dentro desse mundo, antes tão inalcançável. Lu, a você dedico o relato dessa cabalística 7a Vivência de Vela e Vida a bordo - nome que você criou e que adotei imediatamente!

Antes de começar, explico o que é uma VVV: estar a bordo, faça chuva ou faça sol, com muito vento, pouco vento ou nenhum vento; cuidar de ter boas comidas, boas bebidas e boa música; viver essa casa flutuante em seus pormenores; conviver com quem estiver junto, compartilhando histórias, crises, risadas, estudos. E, claro, foco em velejar. Por enquanto, restrita a mulheres. Sem cônjuges, sem filhos. É um tempo-espaço protegido para que possamos aprender e praticar, sem precisar lutar ou nos defender. É uma preciosidade.

Pois bem, essa sétima VVV foi a minha segunda enquanto comandante (nas 3 primeiras estávamos sob o comando da Lucimara; outras 2 foram comandadas pela também maravilhosa Carla Lopes; e então finalmente me senti segura para ser a pessoa mais experiente a bordo).

Como tripulantes dessa vez, Nívea e Cacá, ambas indo pela 2a vez.


Embarcamos no nosso querido veleiro Ka Mua (Delta 36), que fica no Saco da Ribeira/Ubatuba, no dia 19/11, terça-feira, às 17h e rumamos para a Ilha Anchieta, onde pernoitamos, na Praia do Engenho.


Navegação (motor) e ancoragem tranquilas; pro jantar um menu girl power: salmão e vinho rosé (é brincadeira, mas é verdade, rs...). Saladinha de folhas verdes com manga, tudo muito cuidadoso, preparado pela Ni.

No dia seguinte de manhã partimos pro nosso destino da temporada: Ilha das Couves. Navegando por mares nunca dantes navegados! Içamos a vela mestra ainda na ancoragem e deixei com o 1o rizo, nem tanto pelo vento, que tinha previsão de ser fraco, mas pra praticar mesmo. Assim que colocamos o barco no rumo abrimos a genoa e desligamos o motor. Vento de uns 7 nós com rajadas de 10/12, uma delícia! Loguinho soltamos o rizo e terminamos de subir a vela grande.


Dia espetacular, mar tranquilo. Fomos em orça fechada, timoneando o tempo todo. Nívea e Cacá se revezaram no timão e eu fiquei na trimagem. Vento e rumo conversaram harmoniosamente e só precisamos dar um bordo já no través da Ilha das Couves, bem pertinho. Logo enrolamos a genoa e ligamos o motor, porque ainda não domino a ancoragem a vela (ai se esse texto chega no Tio Spinelli, que vergonha!).


Fizemos um bom lanche e desembarcamos a tempo de conseguir uma cerveja no bar que já estava fechando as portas. Os últimos visitantes logo foram embora e a ilha ficou só pra nós! Uma pena que o sol foi embora junto, mas mesmo com céu nublado a cor da água é de uma transparência cristalina.


De volta ao Ka Mua, banho na popa, o contemplar do fim da tarde que trouxe uma chuvinha leve, um happy hour com espumante, queijos, salame. Não dá pra querer mais nada nessa vida! O jantar foi preparado pela Cacá, um macarrão com cogumelos e alho poró, MARA. Uma boa prosa e cada uma no seu canto.



Importante mencionar que pra fazer essa rota e ancoragem inéditas, pesquisei com navegadores mais experientes, dentre eles o Ricardo, companheiro da Lucimara, que nos encontrou no café da Ribeira pra conversar e foi monitorando à distância nossa ancoragem. Ele até pediu um vídeo 360 graus pra avaliar junto comigo direção do vento e condição do mar. Um fofo!

Só tinha o nosso barco pernoitando ali e um casal que acampou na ilhota. Sossego total! Acordei duas vezes na madrugada pra checar a ancoragem e fui presenteada com uma bela lua e céu estrelado. O dia começou ensolarado, o verde mais verde.


Os visitantes começaram a chegar e logo foi a nossa vez de curtir a praia, lagartear, descansar. Almoçamos no Bar das Pipocas e, cumprindo o cronograma, pegamos o bote 12h30. O mar estava mais animado que no dia anterior e certamente nossa saída forneceu entretenimento aos banhistas que ali estavam, rs... nada grave, lá fomos nós pro nosso veleiro.

Assim que embarcamos o vento começou a soprar com força, esticando a corrente da âncora. Eu queria sair com a vela erguida, chegamos a içar até o 2o rizo, mas estava difícil manejar vela e âncora, mesmo com motor, então baixamos a vela e conseguimos erguer ferro. Força total, partiu Ribeira.

Carneirinhos e carneirões, vento chegando a 25 nós, ondas razoáveis nos banhando com borrifos. Mãos no timão, olhos nas ondas, na bússola, no horizonte, que logo se fechou em branco. Ninguém dava um pio. Depois de mais ou menos 1h comecei a ficar com frio e liguei o piloto automático pra colocar uma camiseta (sim, ainda estava de biquini! A saída foi apressada, com aquele vento aumentando rápido). Vi que o piloto automático estava lidando bem com as ondas e assim deixei. O bom é que consegui sentar e descansar um pouco, mas o frio apertou, mesmo com capa de chuva.

Chuva fina, minutos intermináveis.

O olhar no horizonte em volta... uma alegria quando apareceu a silhueta da Ponta Grossa, depois a Ilha das Cabras e finalmente minha amada Ilha Anchieta. Ufa! As ondas foram diminuindo, o vento também. Passando pela Ilha Anchieta a conversa voltou a fazer parte da vida do cockpit; cruzando o boqueirão já saíam até umas risadas, relembrando nossas peripécias com o bote. Eu ainda apreensiva, pensando em como seria pegar a poita com vento, pois em todas as outras vezes estava tudo super favorável.

Foram 3h15 de navegação até a Ribeira. Na chegada o vento já estava mais tranquilo e pegamos a poita de primeira. Arrasei na manobra, que fique registrado, rs...

Aí sim conseguimos tirar uma foto e comemorar a travessia. Banho quente, lanchinho e aquela sensação boa de corpo cansado e feliz. Nos sentimentos uma mistura de "que loucura" com "que aventura!", mas sem dúvida um sentimento de gratidão por ter dado tudo certo. Tudo perfeito. O barco é valente e a gente também!



Oito da noite já estava cada uma em sua cama. Acordamos cedo, juntamos os trem e nos despedimos do Ka Mua na garoa.

Mais uma Vivência de Vela e Vida a bordo concluída com sucesso!



-- deixo aqui também meu agradecimento à Flip Boat Club, empresa que torna possível o sonho de velejar, ao empreender na gestão de veleiros em multipropriedade. Somos em 8 sócios-cotistas no Ka Mua, com tudo administrado de forma eficiente e transparente pela Flip, que ainda oferece um atendimento próximo, caloroso, natural, amigo. Eu não ganho comissão, rs... só quero que a Flip siga fazendo esse trabalho primoroso!


quarta-feira, 9 de outubro de 2024

não mono

Acabo de ler o livro da Geni Núñez, Descolonizando Afetos. Não vou me atrever a fazer resenha do livro, porque sei que alguém já fez isso muito melhor que eu, pede pro Google que ele te conta. Mas eu precisava começar com essa informação, porque essa leitura me trouxe a coragem para falar de algo que é parte fundamental de quem eu sou, e curiosamente fica na sombra, porque... "não se fala sobre isso". Mesmo eu, que falo abertamente sobre tanta coisa, que tenho tanta coragem pra cutucar tabus, que valorizo tanto a autenticidade, o "ser quem se é".

Eu faço críticas abertas e profundas aos modos de vida da cultura dominante: capitalismo, trabalho, escola, religião, produção, medicina, meio ambiente, relações de classe, gênero, raça - tudo isso já passou por aqui e é vivo no meu discurso e na minha forma de ser. Temas vivos. Nada conclusivo nem concluído, porque conclusões não são vida, são morte. Então eu já tenho essa prática de questionar os modelos prontos, de chacoalhar as fórmulas. E nos meus estudos venho constatando que a Vida está na diversidade; que sistemas vivos são complexos e que tentar reduzi-los a zonas de monocultura, além de ser uma enorme ilusão, é causa de muito sofrimento, porque no longo prazo a ilusão se desfaz, mas até chegar lá, haja sofrimento.

Pois é, se você me conhece, até aqui sem grandes novidades.

A novidade que chega agora é provavelmente a cereja do bolo, a peça que faltava, o arremate da costura: monogamia.

Óbvio né? Não tem como ter uma prática coerente de questionamento da cultura dominante e não falar sobre monogamia. E é algo que eu faço desde a mais tenra idade. Nem lembro quando foi que conceitos de amor livre chegaram até mim - provavelmente algum livro do Osho na adolescência! É um assunto que não cheguei a ter com o meu primeiro namorado, uma relação breve e intensa, mas que emplaquei quase que imediatamente quando comecei meu segundo namoro - com a pessoa que se revelou ser um grande amor na minha vida, com quem eu casei, com quem tenho dois filhos e com quem divido a vida há 23 anos.

Mas mesmo assim é um assunto que eu não me permitia trazer a público. Por medo... medo de ser incompreendida, medo de magoar quem gosta de mim, medo de afastar pessoas, medo, medo, medo. Eu evitei muitas armadilhas da cultura dominante, e me soltei de tantas outras, mas essa me prendeu e ainda me prendia até dia desses. E é assim que a monocultura faz, ela prende pelo medo. A boa notícia é que basta encarar o medo que ele some, as amarras se rompem e a liberdade se abre. Simples assim (contém ironia... sabemos que encarar medos não é simples e é justamente isso que estou fazendo agora).

Medo de ser incompreendida: ora, se não tenho a chance de me expressar, como vou querer que me compreendam? E se não me compreendem, seria a compreensão um requisito para o amor?

Medo de magoar quem gosta de mim: se algum modo de ser meu magoa alguém, há algo de equivocado nessa relação. Eu não sou assim com o objetivo de magoar ninguém! Eu sou o que sou e é isso

Medo de afastar pessoas: haja coragem para dizer isso, maaaaas... se alguém se afasta de mim por se incomodar com algum modo de ser meu, melhor que se afaste mesmo. Digo isso sem mágoa nem arrogância. É mais saudável, para ambos. Que nenhum compromisso se sobreponha a essa clareza. Nem familiar, nem profissional, nem hierárquico, nada!

Só que estando eu em um relacionamento oficial, em uma sociedade monogâmica, esses medos tinham muito a ver também com a pessoa que estabelece comigo essa parceria formal chamada namoro, depois casamento. Eu me preocupava sobre como o meu posicionamento poderia afeta-lo, afetar as relações dele (família, trabalho). Eu me preocupava sobre como preconceitos e julgamentos sobre mim poderiam dificultar algumas coisas pra ele. Ficar na sombra era um esforço não só para me proteger, mas também para protege-lo. Não me custa dizer que esse tipo de preocupação é típico do ser-mulher em uma relação hétero.

Pelo menos entre nós a conversa sempre foi aberta e fluida, com os diferentes graus de maturidade que a vida nos confere em cada fase do nosso desenvolvimento, mas sempre esteve ali. Essa é inclusive a parte do ativismo e do posicionamento político que eu não conseguiria deixar de lado, mas por muito tempo eu assumi a postura de que ninguém tinha que ficar sabendo dos nossos acordos e desacordos. Eu achava que não precisava dar satisfação pra ninguém além do companheiro e que uma boa dose de discrição não faria mal. Depois fui percebendo que essa discrição deixava na sombra partes importantes de mim e que o que estava na sombra impactava na minha espontaneidade, na minha energia, na minha criação, enfim, se eu não posso ser eu por inteira, se eu preciso esconder algo que faz parte de mim, então eu não sou eu. E isso desvitaliza.

Esse mecanismo não tem a ver com discrição ou indiscrição; não tem a ver com a necessidade ou não de dar satisfações e explicações. Isso tem a ver com guardar segredo. E segredos corroem.

Pois então, respeitando a minha privacidade, digo que não sou, nem nunca fui, monogâmica.

Digo também que por mais que pareça que eu faça parte de um "casal-Doriana", as coisas não são bem assim. Tenho sim um casamento longevo e lindo, mas não suporto pensar que essa imagem seja atrelada à monogamia compulsória, aos votos de exclusividade e "até que a morte os separe". Como muito bem coloca a Geni (esqueci de grifar e não conseguirei trazer as aspas, mas a ideia geral é simples e me atrevo a citar sem referenciar), esse casamento lindo não existe por causa da monogamia, mas apesar da monogamia.

Esse casamento lindo não é algo dado e resolvido. Esse casamento lindo é um organismo vivo. Dia sim, dia não eu escolho estar casada e continuar casada. E pode ser que amanhã ou depois eu escolha não estar mais casada; pode ser que amanhã ou depois eu saiba que a pessoa que está comigo nessa parceria escolheu não estar mais. E isso não seria indicador de fracasso. Indicador de fracasso pra mim é minguar a vida pra sustentar estruturas mortas. Esse casamento é lindo porque ele é vivo, porque ele respira, porque ele adoece e se restabelece, porque ele cria anticorpos, porque ele pulsa, porque ele se move. E se um dia ele morrer - porque tudo que é vivo, morre - isso não será sinal de fracasso, simplesmente porque morrer não é fracassar. Morrer é natural, faz parte da vida.

E o que trazer isso à tona muda? Não sei... realmente não sei. O que sinto aqui dentro é um alívio. Partes importantes de mim estão vendo o sol pela primeira vez e esse encontro é pura magia. É algo que eu precisava fazer por mim. Não tenho pretensão - nem medo - de que me afirmar não-monogâmica mude nada nas minhas relações. Mas desconfio que ao me permitir ser quem eu sou eu possa dar passos mais firmes na direção do reflorestamento dos afetos, na construção dessa ecologia fértil, diversa, chuvosa e ensolarada.

domingo, 19 de maio de 2024

... eu também vou reclamar

Vira e mexe vejo recomendações de "parar de reclamar" pra ter uma vida feliz, saudável, próspera, bem sucedida. E eu concordo que a "energia" da reclamação, dos resmungos, vai na contramão desses ideais. Mas algo que pouca gente conta é que não dá pra ser feliz, saudável, próspero e bem sucedido 100% do tempo. E o mais importante: nos momentos em que não estamos vivendo a glória da plenitude, não significa que falhamos, não significa que tudo foi por água abaixo. Significa simplesmente que está tudo caminhando NORMALMENTE na sua vida, porque a vida é assim, é feita de altos e baixos, de ciclos que se sobrepõem, de misturas que vão além das dualidades e que incluem toda uma gama de nuances.

Estar infeliz é normal; adoecer é normal; ter prejuízos é normal; fracassar é normal. O anormal, o preocupante, pode estar relacionado com frequência e intensidade, com situações crônicas. E o ponto de alerta aqui é que nós, seres humanos, somos bastante adaptáveis e isso pode ser muito bom pra encarar situações extremas, mas é perigoso, porque a gente se acostuma. O ser humano se acostuma a viver na infelicidade, na doença, nos prejuízos, nos fracassos e vai passando a achar que "a vida é isso". Então vem as recomendações de buscar uma vida mais feliz, mais saudável, mais próspera, mais bem sucedida.

Aí quem consegue comprar a ideia, passa a revisar hábitos, indicadores, até valores e implementa mudanças na vida, tornando-se mais feliz, mais saudável, mais próspero, mais bem sucedido. E vem de novo o perigo de se acostumar! A gente se acostuma com a "escalada" e com o modo de ser que busca esses ideais, e se não aparecer ninguém pra dizer "agora tá bom, descansa um pouco, reavalia a trajetória", quando nos damos conta, a busca pela felicidade nos torna infelizes, a busca pela saúde nos adoece, a busca pela prosperidade nos quebra, enfim, a busca em ser bem sucedido fracassa.

E nesse contexto eu venho aqui trazer uma reflexão sobre o ato de reclamar.

Reclamar é, basicamente, pedir empatia. Quando reclamo quero ouvir de volta: "poxa, verdade! Que chato né?". Quando reclamo, a última coisa que quero ouvir é "ah, para com isso, essa atitude não vai resolver as coisas" ou ainda pior: "ah, você tá chorando de barriga cheia!" e todas as variações, que incluem minimizar meu incômodo me contando de situações "piores que a minha".

Reclamar é expressar uma insatisfação NOR-MAL, porque é impossível estar satisfeito o tempo todo (e quem aparenta estar não me convence, porque aposto que lá no fundo, ou em outro cenário, tá cheio de insatisfação).

Isso quer dizer que você é obrigado a oferecer empatia toda vez que uma pessoa vier reclamar pra você? Claro que não.

O que você pode fazer é começar perguntando-se: "estou disposto a oferecer empatia a essa pessoa agora?". Se a resposta for sim, entre na brincadeira, aproveite a oportunidade para exercitar seu corpo empático. Se a resposta for não, busque uma forma de informar a pessoa que você não está com essa disposição (o que é um ótimo exercício também!). E não espere acertar de primeira... é uma musculação da comunicação. Se você for erguer cargas muito pesadas no começo vai se arrebentar.

E quando quem está reclamando é você? Permita-se reclamar. Mas busque observar a atitude do seu interlocutor. Se for uma atitude de empatia, aproveite pra receber esse presente e, como diz a boa etiqueta, ao final agradeça. Quando oferecemos empatia e somos reconhecidos por isso, é algo que nos nutre, é algo que fortalece o corpo empático e vai permitindo que possamos oferecer mais e mais.

Se, por outro lado, a escuta não for empática, infelizmente será algo a ser acrescentado à sua lista de reclamações... e não adianta insistir com essa pessoa que não quer ou não pode te oferecer empatia nesse momento. A você, que precisa reclamar, sinto muito... não será dessa vez. Sei que muitas vezes mesmo assim a gente reclama e a atitude não-empática do interlocutor só piora a situação e ao final da conversa provavelmente nosso estado de espírito não estará do jeito que gostaríamos. Se houver consciência, logo veremos que é um caminho que não vale a pena.

Consciência. Também é um músculo a ser exercitado.

A consciência nos protege não de "não reclamar", mas de identificar quando e com quem podemos reclamar. Porque sempre teremos reclamações. Faz parte da vida.


PS - recomendo ouvir a música do Raul Seixas, que inspirou o título do texto!


segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Elis e Tom - o documentário

 Assisti ontem e ainda estou digerindo... mas que decepção...

Pra uma crítica mais técnica recomendo esse texto, cujo autor desconheço e não estou com tempo pra pesquisar, mas concordo com grande parte do que ele aponta.

Nesse âmbito da parte mais "superficial", a sensação é que o documentário não entrega o que promete. Por exemplo, não entendo por que deixaram músicas do álbum de fora e incluíram outras, de outros contextos. Ok, pra mim nunca é demais ouvir Elis (nunca!) e mesmo Tom, mas o documentário perdeu o foco, e quando perde-se o foco, perde-se a alma.

Sobre perder o foco, as falas enveredam por especulações levianas e extremamente desrespeitosas sobre a vida da Elis. E aí a gente entra num aspecto menos "técnico", menos superficial e vamos navegar pelas entrelinhas da narrativa apresentada.

Pra começo de conversa: um bando de homem.

Aparece uma única mulher nas entrevistas, filha do Tom Jobim, que tinha 16 anos quando o álbum foi gravado e contribui com um olhar infantilizado ("eu não lembro direito, perguntei pra minha mãe...." Ah, gente, faça-me o favor!).

Quanto aos bastidores criação, direção, produção, fiz questão de ficar até o final pra ver os créditos e vi dois ou três nomes de mulher, na produção executiva, controladoria e alguma outra tarefa operacional. Aff...... mulheres agilizando o rolê pros homens pavonearem e colherem os louros. E pior: tecerem conjecturas sobre a vida de uma mulher. E ainda pior: de uma mulher que nem está mais aqui pra falar por si e expor seu ponto de vista (como se isso fosse permitido. Não seria, ainda não é, e essa constatação é algo que me derruba, me entristece, me revolta! Mas, Elis, não foi em vão. Eu não vou ficar calada diante de tamanho desrespeito. Não por você, que já foi, está em outra, mas por nós que seguimos essa linhagem de mulheres que lutam co-ti-di-a-na-men-te pra termos voz e espaço para sermos o que somos).

Interessante notar que se o documentário tivesse como resultado o que se propôs a fazer, as questões de gênero poderiam ter passado sem grandes questionamentos. Poderia ser um filme que mostrasse os bastidores do álbum, que retratasse a genialidade de cada um e que fosse lindo. Pronto, seria lindo. Teria espaço pra mostrar as incompatibilidades, como um tempero de cada genialidade geniosa. Seria lindo.

Mas não foi esse o caminho escolhido. Fico com a sensação de que o roteiro foi bem intencional no objetivo de causar polêmica e fazer fofoca. E de ser apelativo também, incorrendo em incoerências absolutamente injustificáveis, como quando mostram Elis Regina no caixão (?!), abordando de forma  sensacionalista a sua morte, incluindo o fato na parte do documentário destinada a retratar a Elis ANTES da gravação do álbum. Como assim?! Pois é, como assim?!

Ah, e foi mencionada a morte de Tom Jobim? Nem de longe... ele segue imortal.

É brutal a diferença com que tratam as imagens de cada um deles.

Tom Jobin fica num lugar quase que inacessível a qualquer julgamento, acima de qualquer possibilidade de se questionar suas escolhas, seus posicionamentos - por mais que tenham colocado ênfase na "supremacia" dele em relação ao César Camargo Mariano. No fim, a sensação que fica é "tá tudo certo, é isso mesmo, Tom Jobin tinha todo direito de querer mandar na porra toda, e Mariano foi um gentleman, demonstrou humildade de discípulo. Aplausos para os dois".

Já Elis é retratada como instável, imatura, insegura, vaidosa - uma vaidade totalmente diferente da do Tom, porque a ele é dado o direito de ser vaidoso, mas a ela, não. A vaidade no homem é resultado de seus méritos; a vaidade na mulher é capricho.

E é claro que fazem isso de forma dissimulada. Essa é uma das artimanhas do machismo estrutural. Eles jamais afirmariam de forma declarada que a Elis era instável, imatura, insegura e vaidosa, com toda a carga pejorativa de cada termo. Eles fazem isso à partir de uma superioridade masculina, aquela mesma que calmamente nos chama de loucas quando berramos (as que conseguem) em resposta a toda espécie de atrocidade que eles cometem contra nós.

Eu teria tanta coisa mais pra dizer sobre esse filme, sobre a forma com que trataram a Elis no documentário (que pode ser inclusive só uma janelinha de como a trataram em vida).... sem contar toda a parte das projeções das minhas dores de mulher, mãe e artista (?! - sobre meu lado artista a gente conversa outra hora...). Impossível não pensar como estaria sendo pra ela estar naquele contexto, sendo mãe de duas crianças pequenas e com um marido que era ao mesmo tempo seu "chefe" (ou vai me dizer que o arranjador e pianista, sendo marido, não ocuparia algum cargo de chefia perante ela?!) e que estava com seu orgulho sendo profundamente e constantemente ferido pelo macho alfa do rolê. Não vou cair na armadilha de supor o que ela sentia com relação a cada um desses componentes da complexa fórmula "Elis Regina em Elis e Tom", mas que não estaria sendo fácil, ah, isso não estava mesmo!

Enfim.... tenho louça pra lavar, almoço pra fazer, enfeites de bazar da escola pra bordar, uma aula pra preparar e uma viagem pra encaminhar. O tempo me escorre da mesma forma que o sangue entre minhas pernas. Esses são alguns dos - muitos - ônus de ser mulher. A gente não tem um instante de paz. Urge estarmos, homens e mulheres, cientes disso.

>> em 2012 eu escrevi um texto aqui inspirado por uma música do Elis & Tom (que não aparece no documentário......). Dá uma espiada lá... é bonito :)